Uma
possível composição do pensamento arquitetônico pós-moderno
resenha
de mônica junqueira de camargo
A organização
de antologias exige, em doses iguais, pesquisa e perspicácia,
demandando tanto ou mais trabalho que a produção de uma monografia
inédita, e sua contribuição, dado seu caráter colecionista, cumpre
um papel específico no avanço das idéias, especialmente se relativa
a um período dinâmico e caracterizado pela pluralidade e pela
revisão de arraigados princípios. Construir uma trama própria
tomando emprestados pensamentos alheios requer habilidade. A dialética
que se estabelece seja pelo confronto de pensamentos distintos
sob um mesmo tema, seja pelas diferentes idéias de um mesmo autor,
convida instintivamente à reflexão, consagrando esse gênero literário
como uma contribuição importante à consolidação de qualquer área
do conhecimento. Impossível imaginar os rumos da arquitetura moderna
brasileira sem as antologias de Alberto Xavier. Sobre Arquitetura,
a coletânea de textos, de autoria de Lúcio Costa, organizada,
em 1962, quando ainda era estudante, foi fundamental para a consolidação
do pensamento arquitetônico moderno e por anos, a sua única referência.
Depoimentos de uma geração. Arquitetura moderna brasileira,
inicialmente publicada em 1987, reuniu, pela primeira vez, textos
canônicos produzidos desde os anos 1920, que se encontravam dispersos
em revistas e jornais, alguns deles de difícil acesso. Felizmente
revisada e ampliada, foi publicada em 2003 pela Cosac Naify, a
mesma editora que agora lança outra importante coletânea Uma
nova agenda para arquitetura. Antologia teórica 1965-1995.
Orientada
pela arquiteta e professora Kate Nesbitt, esta publicação é resultado
de uma pesquisa que cobriu essas três décadas através de um exaustivo
levantamento que vasculhou 27 periódicos em 7 países, consistindo
um precioso balanço da produção teórica recente que disponibiliza
num único volume idéias emblemáticas até então dispersas. A sua
publicação em 1996, pela Princeton Press, representou um marco
para a reflexão da arquitetura e esta sua tradução para a língua
portuguesa, em 2006, permitindo alcançar um público muito mais
amplo e expandir as fronteiras do debate, constitui um importante
fomento ao pensamento arquitetônico contemporâneo.
A seleção
e organização dos textos, sob temas criativamente elaborados,
e não na comum seqüência cronológica, expõem a sua própria visão
sobre o panorama da arquitetura recente. Uma concisa introdução,
esclarecendo os principais aspectos levantados ao longo do trabalho,
e as apresentações de cada um dos textos, justificando a escolha
e analisando a pertinência das idéias tratadas, trazem à tona
as reflexões de Nesbitt sobre o momento contemporâneo, constituindo
per si uma grande contribuição.
Estruturados
em catorze capítulos, os 51 ensaios de 35 autores diferentes,
versando sobre a crise da arquitetura moderna e introduzindo novos
aspectos da disciplina, tratam essencialmente do pós-modernismo,
entendido pela autora “não como um estilo singular, mas, antes,
a percepção de integrar um período marcado pelo pluralismo” (1).
Privilegiando algumas vertentes e destacando certos autores, Kate
nos traz as principais questões que vêm alimentando o debate deflagrado,
a partir de 1966, pela publicação do livro Complexidade e contradição
em arquitetura de Robert Venturi, segundo ela, o marco inaugural
da crítica à hegemonia do pensamento moderno. Com sua teoria da
inclusão – tanto... como – Venturi promove a renovação da consciência
histórica, abrindo o caminho para uma condição plena de possibilidades
interpretativas, algumas das quais, talvez as mais importantes,
sagazmente tratadas nesta antologia.
A inexistência,
no período analisado, de um ponto de vista predominante colabora
para a proliferação das novas teorias que buscam explicar aspectos
ainda desconhecidos da disciplina. Sob temas como significado,
história e sociedade, a cultura arquitetônica dessas décadas é
passada em revista e discutida à luz de novos enquadramentos ideológicos
e paradigmas teóricos, tais como a fenomenologia; a estética;
a teoria lingüística, o marxismo e o feminismo que, importados
de outros ramos do conhecimento, vêm ajudando a modelar a teoria
da arquitetura. A organização dos textos sob essas diversas categorias
e a participação de um mesmo autor em temas distintos garantem
uma dinâmica fruição das idéias, estabelecendo não só um rico
diálogo entre os autores, como nos convidando a participar do
debate.
O enredo construído
por Nesbit, ao recuperar as principais trilhas de discussão e
identificar as bases teóricas da produção, consegue alinhavar
importantes conceitos dispersos, que se destituídos de fundamentação
caem no vazio do lugar comum, o que não raro se tem verificado
na nossa área, obstruindo um aprofundamento do conhecimento arquitetônico.
Ao acolher no âmbito da discussão sobre o papel social da arquitetura,
não apenas a investigação de sua condição de arte ou de serviço
social, mas, trazendo para o centro do debate ético e político,
distintas questões que versam sobre a autonomia da arquitetura,
a noção de bem comum, as novas relações homem-natureza e a ressurreição
da noção de bem-estar social, Nesbitt confere sentido a essas
idéias, que se lançadas fora de contexto, reduzem-se a meros jargões,
como sustentabilidade, ecologia, preservação, etc.
Nesse interessantíssimo
percurso intelectual, que privilegia as divergências às convergências,
a autora sugere imbricadas relações até entre os pensamentos de
uma mesma escola ou corrente filosófica, considerando a falta
de unidade não como uma deficiência, mas, como a grande qualidade
do pós-modernismo. A contribuição da Escola de Veneza se descortina
tanto pelo enfoque dos neoracionalistas Gregotti e Rossi, na sua
tentativa de restabelecer as fundamentações teóricas do projeto
arquitetônico, como pela ótica neomarxista de Tafuri, ao explicar
a ineficiência da ideologia para a arquitetura moderna.
A seqüência
dos temas, ao mesmo tempo, que vai introduzindo novas idéias,
algumas seguem em continuidade enquanto outras são resgatadas,
numa cadência, cujo ritmo é determinado pelo interesse de cada
leitor. Percorrendo os capítulos, vamos deparando-nos com as idéias
de Heidegger ora identificadas na reflexão fenomenológica sobre
a arquitetura, exaltando os seus elementos básicos e recuperando
o interesse pelas qualidades sensoriais dos materiais, luz e cor;
ora como evidente influência no desconstrutivismo de Jacques Derrida,
como também nas novas teses sobre o corpo, que apontam para uma
renovação pós-moderna nas suas relações com a arquitetura. Na
construção teórica que se vai estruturando pela sucessão dos textos,
o paradigma fenomenológico assume papel extremamente relevante,
uma vez que, como apresentado na introdução, está na base das
atitudes pós-modernas com relação ao sítio, ao lugar, à paisagem,
à edificação e além de ressaltar uma questão, colocada por Nesbitt,
como fundamental da estética: “o efeito que uma obra de arquitetura
produz no observador” (2).
As especulações
são muitas e da maneira como são associadas permitem leituras
inusitadas. No capítulo – Feminismo, gênero e o problema do
corpo – a contestação dos antigos paradigmas, o racionalismo
e o antropomorfismo, é apresentada pelo intricado diálogo entre
as idéias de Bernard Tschumi, Diana Agrest e Peter Eisenman, que
propõem sua substituição por outros que consigam desvendar a trama
de uma nova ordem estabelecida pelo prazer, pelo respeito às diferenças,
pela participação da mulher e pela substituição dos meios mecânicos
pelos meios eletrônicos. O texto de Tschumi anuncia que “a arquitetura
do prazer depende de uma proeza especial, que é a de manter a
arquitetura obcecada consigo mesma de maneira tão ambígua que
jamais se rende à boa consciência ou à paródia, à debilidade ou
à neurose delirante” (3); enquanto o de Agrest defende a reabilitação
do corpo feminino na arquitetura, que foi, segundo ela, relegado
no sistema da arquitetura desde Vitruvius, postura esta reconfirmada
pelo renascimento e que se prolongou até o movimento moderno:
“em toda a história da arquitetura, a mulher tem sido substituída
/deslocada não só em um plano social geral, mas de modo mais específico
no plano do corpo com a arquitetura” (4); e o de Eisenman arremata
o tema tecendo considerações sobre “o paradigma eletrônico que
impõe um formidável desafio à arquitetura, já que define a realidade
em termos de meios de comunicação e simulação, privilegia a aparência
à existência e o que pode ver ao que é” (5).
Essas noções,
claramente desenvolvidas por cada um dos autores, suscitam pela
estratégia da organizadora novas indagações.
Os critérios
para a seleção dos textos, tal como o conhecimento que apresentam,
são também diversos. O tema – a teoria urbana – se faz presente
por uma restrita seleção, apesar das inúmeras propostas de revisão
do urbanismo moderno. Deixando de lado as propostas de Rossi,
Krier, e as intervenções catalãs sob a coordenação de Bohigas,
apenas três concepções urbanísticas são abordadas, que têm em
comum o fato de exercerem forte influência na cultura urbanística
americana e de terem sido desenvolvidas com o apoio de pesquisas
acadêmicas nas Universidades de Cornell, Harvard, Yale, Filadélfia
e no IAUS Institute for Architecture and Urban Studies. A contextualista
representada por Rowe, Koetter e Schumacher, concentra-se na idéia
de colagem – um modo de conferir integridade a uma mistura confusa
de referências pluralistas; a populista ou a Main Street Americana
encampada por Venturi, Scott Brown e Steven Izenour, com visível
influência da semiótica buscando recuperar a função simbólica
da arquitetura; e o modelo de cidade contemporânea global defendido
por Rem Koolhaas, uma exaltação da cultura do congestionamento
metropolitano, particularmente centrado em Nova York. As idéias
desses arquitetos, distintas enquanto argumento crítico se individualmente
analisadas, assumem outra dimensão se colocadas lado a lado, conformando
uma profunda revisão ao urbanismo moderno.
Cada capítulo
sugere infinitas investigações, que se registradas conformariam
um novo livro. E talvez esteja aí, uma das maiores contribuições
dessa antologia – para além do que está registrado o quanto suscita
de inquietação. Trata-se, sem dúvida, de uma obra de referência,
cuja presença se notará no trabalho crítico e de criação das novas
gerações de arquitetos.
Notas
1
NESBITT, Kate. “Introdução”. In NESBITT, Kate (org). Uma nova
agenda para a arquitetura. Antologia teórica (1965-1995).
São Paulo, Cosac Naify, 2006, p. 16.
2
Idem, p. 32.
3
TSCHUMI, Bernard. “O prazer da arquitetura”. In NESBITT, Kate.
Op. cit, p. 581.
4
AGREST, Diana. “À margem da arquitetura: corpo, lógica e sexo”.
In NESBITT, Kate. Op. cit, p. 587.
5
EISENMAN, Peter. “Visões que se desdobram: a arquitetura na era
da mídia eletrônica”. In NESBITT, Kate. Op. cit, p. 601
Mônica
Junqueira de Camargo, arquiteta, doutora, professora de história
da arquitetura contemporânea da Universidade de São Paulo, conselheira
do Conpresp, co-autora Fotografia Paulistana; Fábio
Penteado – Ensaios de Arquitetura e autora de Joaquim Guedes.
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