Metrópoles,
um paradigma para pensar a cidade contemporânea
resenha
de fábio duarte
A metrópole
é um conceito-chave para analisar o mundo contemporâneo. Henri
Lefebvre, em seu livro A revolução urbana (UFMG, 1996)
propôs a diferença conceitual entre cidade e urbano, tendo este
um caráter conceitual; enquanto aquela é o objeto físico. Para
o autor, o urbano surge com a industrialização, que não somente
revolucionou o modo de produção econômica, como também a produção
do espaço e apropriação cultural de seus habitantes. O fenômeno
urbano não se restringe à dimensão física da cidade, mas articula
fatores econômicos, culturais, sociais que se manifestam na forma
da cidade. Assim, enquanto a “cidade” pode ser entendida como
“um objeto definido e definitivo [...], objetivo imediato para
a ação”, o urbano aponta para uma “abordagem teórica mais complexa
de um objeto virtual ou possível”. Do mesmo modo é possível se
entender o termo metrópole – mais como um conceito que explica
e questiona o mundo urbano das cidades interconectadas globalmente
em mercados financeiros voláteis e tecnologias de informação que
moldam avanços científicos e tecnológicos, e ao mesmo tempo em
que coloca em risco e é centro de decisões das posturas humanas
frente ao meio ambiente global. Neste sentido, portanto, a análise
da cena urbana mundial contemporânea passa necessariamente pela
metropolização.
No início
do texto que ensejou os debates da 5ª Bienal Internacional de
Arquitetura e Design de São Paulo sobre o tema Metrópole,
publicados pela Romano Guerra Editora, Abílio Guerra levanta a
hipótese de que “os mecanismos psicológicos e intelectuais de
reação ao atual estado de coisas resultam em discursos operativos
que buscam respostas e soluções concretas para os malefícios detectados”;
porém ressalta que o mais difícil “é realizarmos um balanço satisfatório
do quanto essas novas crenças e ações são de fato inovadoras e
transformadoras e o quanto são embebidas em resquícios de crenças
inoperantes”.
Na tentativa
de fazer esse balanço crítico, a Bienal reuniu profissionais que
atuam e pensam as cidades contemporâneas, que apresentaram situações
críticas de metrópoles contemporâneas ao lado de proposições de
soluções pontuais expressas em projetos de desenho urbano ou amplas
de modos de encarar as cidades contemporâneas em escala global.
O livro registra
em texto as principais conferências. Há experiências pessoais
que refletem a descoberta cotidiana da vida nas metrópoles, como
de Benedetta Tagliube, de Barcelona; de projetos arquitetônicos
e de trechos urbanos, ambos refletindo uma preocupação de refletir
sobre a cidade contemporânea, como de Riek Bakker para a área
portuária de Roterdã; ou de José Mateus para projetos arquitetônicos
em contextos urbanos de Portugal; ou ainda uma análise do IBA
Emscher Park, por Karl Jasper. Todos esses projetos parecem refletir
uma preocupação que Regina Meyer coloca no livro, de há hoje um
conjunto de abordagens urbanísticas “que está gerando uma nova
postura diante do projeto urbano que é reconhecida como intervenção
na cidade existente” (p. 74); e lança a proposta da necessidade
de se “criar através de análise e identificação de dinâmicas urbanas
já presentes (...) trechos urbanos passíveis de se tornarem unidades
de projeto” (p. 75).
Ao lado dos
projetos apresentados, há importantes textos preocupados em discutir
o papel das metrópoles no mundo contemporâneo – e, talvez seja
mais justo dizer, o mundo contemporâneo matizado pelas metrópoles.
O primeiro texto, de Su Dan, é sintomático por apresentar a discussão
a partir do caso chinês, que como escreve o autor: “A urbanização
é uma das mais significativas transformações na estrutura social
durante a modernização da China” (p. 30). A preocupação do chinês
Su Dan sustenta-se principalmente na transformação de um país
agrário que vertiginosamente se urbaniza, levando em consideração
principalmente a urbanização física do território, escrevendo
que “as cidades irradiam suas influências muito além da área onde
estão estabelecidas, alcançando as regiões rurais adjacentes com
migração populacional, emprego, compras, cuidados médicos, educação,
atividades culturais e de recreação”. A preocupação com a expansão
físico-territorial da urbanização contínua ao dizer que “a urbanização
acelerada e o crescimento da população urbana influenciam diretamente
a estrutura regional e o meio geográfico, que causa diretamente
a alteração no meio ecológico” (p. 27). A preocupação do autor
respalda-se em fator mais grave: a acelerada urbanização não encontrou
estruturas de planejamento e gerenciamento capacitadas: “A China,
porém, está no estágio primitivo da urbanização; nos órgãos governamentais
de vários níveis falta experiência no gerenciamento urbano, e
a urbanização é apenas um simples crescimento de quantidade” (p.
31).
Refletindo
de modo complementar à dimensão geográfica da metropolização,
Jorge Mario Jáuregui escreve que “o que se percebe é a formação
de novas geografias de centralidade”, sendo que do lado de uma
rede metropolitana de nós, há “uma configuração rizomática da
cidade. Rizoma entendido como um tipo de estruturação que não
implica em uma relação sintética entre os elementos, que recusa
a noção de ordem hierárquica” (p. 35). A metropolização avança
sobre áreas urbanas, deixando vazios que rompem e perpetuam malhas
de cidades que se mesclam sem se interconectarem socioeconomicamente.
Os textos
do livro, talvez por terem sido originalmente apresentados em
uma Bienal de Arquitetura e Design, têm uma preocupação forte
com o projeto, o que é fundamental por sinalizar a preocupação
de arquitetos que mesmo se a escala da edificação em que trabalham
não é grandiosa, refletem sobre sua inserção no urbano. Urbano,
e não cidade – e aqui voltamos à distinção de Lefebvre: não se
trata de “contextualizar” a obra em seu entorno físico-territorial
imediato, mas pensar que os projetos são necessariamente resultantes
e interventores em um mundo urbano, em uma urbanização que abrange
todo e qualquer território. Os projetos apresentados ressaltam
a consciência necessária para arquitetos, urbanistas e gestores
urbanos de que não importam as limitações geográficas na área
de intervenção, as questões que deverão ser abordadas refletem
necessariamente um mundo que se urbaniza e é cujos cadinhos de
ideologias, culturas e inovações tecno-científicas são as metrópoles.
Fábio
Duarte é professor do Mestrado em Gestão Urbana da PUCPR Arquiteto
pela USP, Mestrado em Multimeios pela Unicamp e Doutorado em Comunicações
e Artes pela USP. Foi pesquisador na Université Laval, Canadá
(Planejamento Regional e Urbano) e na Université Paris I, França
(Geografia Urbana). Publicou os livros Global e local no mundo
contemporâneo (Moderna, 1998), Arquitetura e tecnologias
de informação (Annablume, 1999), Crise das matrizes espaciais
(Perspectiva, 2002) e Do átomo ao bit: cultura em transformação
(Annablume, 2003). Recebeu o Prêmio Jovens Arquitetos (menção
honrosa) do IAB-SP em 1998 e o Faculty Enrichment Award,
do Governo do Canadá, em 2005.
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