Avenida
São Luis em São Paulo: passado, presente e futuro
resenha de aline ollertz
A Avenida
São Luís é objeto de estudo de importantes trabalhos acadêmicos
realizados pelos arquitetos e professores José Eduardo de Assis
Lefèvre e Nádia Cahen. Apesar de tratarem do mesmo objeto, cada
trabalho possui propósitos bem diferentes. O trabalho de Lefèvre
conta a história da Avenida São Luis através de um levantamento
precioso de projetos que ali foram construídos, muitos já demolidos,
mas que ajudam o autor a remontar a história da avenida através
de sua arquitetura. O trabalho de Cahen avalia o processo de evolução
recente da avenida, a partir de sua verticalização, com um caráter
especulativo e propositivo.
O livro de
José Eduardo Lefèvre – “destinado preliminarmente a ser tese de
doutorado”, conforme nos avisa Benedito Lima de Toledo, no prefácio
– traz em si um árduo levantamento de dados da evolução da atual
Avenida São Luís e uma crítica aos problemas sociais enfrentados
atualmente pela rua. É uma obra importante para os estudos acadêmicos
e para uma tentativa de compreensão e interpretação dessa Avenida,
já que compila em um só trabalho bases cartográficas, plantas
e fotos, que contam a história desse ícone da cidade de São Paulo.
Lefèvre estuda
as várias etapas históricas da área em questão, desde a divisão
das terras da família Souza Queiroz no século XIX, até sua verticalização,
iniciada em meados da década de 40, apontando em cada etapa quais
são os agentes e os interesses vigentes.
Primeiramente
identificadas como terras do Coronel Luiz Antônio de Souza, a
faixa de terras onde hoje se situa a Avenida São Luís foi identificada
em planta em 1810. O primeiro caminho a cortar as terras do Coronel
era chamado de Beco Comprido. Por volta de 1890 as terras do Coronel
são divididas entre a família, o que foi uma peculiaridade, já
que naquela época os loteamentos de chácaras tinham um caráter
comercial. Com a morte do Coronel e em seguida o falecimento de
sua viúva, os lotes da família se subdividiram sucessivamente,
chegando ao total de 16 lotes em 1920. Já em 1930, a rua São Luiz
contava com 17 palacetes isolados das divisas, duas casas geminadas
e uma vila normanda.
Em 1940 com
a implantação do Anel de Irradiação do Plano de Avenidas de Prestes
Maia, a rua São Luiz sofre um processo de alargamento, passando
de 13 para 33 metros. Para Lefèvre esse é um momento importante
de inflexão da história da Rua, já que essa perde seu caráter
de quase exclusividade de seus moradores e passa a exercer maior
influência na região. A partir de então, a rua se transformou
totalmente, sendo muitos de seus palacetes demolidos para a construção
de novos prédios. Inicia-se então o processo de verticalização
da rua, que, apesar disso, manteve como característica ser local
para a moradia de uma população de alto poder aquisitivo.
Por volta
de 1970, conseqüência do processo de verticalização e do adensamento
não só da São Luiz, mas da área central como um todo, a Rua perde
seu caráter residencial de luxo, cedendo lugar a muitos escritórios
e salas comerciais. Isso gerou um grande inchaço na área central,
resultando em péssimas condições ambientais, grandes congestionamentos
e falta de locais para estacionar os veículos. É a partir desse
momento, que a rua passa a entrar em decadência, visto que já
não é mais desejada pelo mercado imobiliário nem mais assistida
pelo Poder público.
Lefèvre mostra
com seu trabalho, as diferentes etapas de interesse pela Rua.
Primeiramente era uma questão de herança familiar, depois passou
a ser uma área de atração de cafeicultores e fazendeiros que passaram
a se instalar na área central de São Paulo, carregando essa área
de valores de luxo e status. A partir dessa valorização, entra
em cena o Poder público, trazendo melhorias para a área, beneficiando
camadas sociais importantes da cidade. Após as melhorias do local
inicia-se um processo de especulação imobiliária, que é levada
às últimas conseqüências, até o ponto de saturação da avenida
em meados da década de 70, momento no qual, também é deixada de
lado pelos interesses públicos por não mais configurar o interesse
de alguma classe específica de interesse.
Em sua conclusão,
Lefèvre afirma que hoje não há um grande interesse pela área a
não ser por quem tem alguma relação direta com a mesma, seja por
lá possuir um imóvel, ou um trabalho ou ainda por possuir um simples
vínculo afetivo ou cultural. E isso não caracteriza um interesse
suficiente para chamar a atenção do Poder público que não realiza
mais que algumas ações isoladas no centro, não reconfigurando
seu espaço, conseqüentemente não o qualificando.
Nádia Cahen,
em sua dissertação de mestrado, prioriza o processo de evolução
urbana da Avenida São Luís, levantando fatos importantes como
sua modernização e verticalização entre as décadas de 40 e 60
e seu processo de decadência a partir de meados de 1970. Hoje,
apesar de não ter mais seu vigor anterior, estudiosos afirmam
ser esta uma das avenidas com maior concentração de qualidade
de arquitetura por metro quadrado na cidade de São Paulo. Diante
disso e do quadro atual da Avenida, a autora faz um levantamento
das plantas de todos os edifícios da Avenida e de algumas ruas
ao redor e elabora um projeto de requalificação da área, priorizando
seus espaços coletivos a partir de intervenções que levem os edifícios
a ter elevado potencial urbano, que articulem espaços e construam
a identidade urbana do lugar.
Segundo Nadia
Cahen, após uma análise do processo evolutivo da Avenida, é a
partir das intervenções propostas pelo Perímetro de Irradiação,
do Plano Prestes Maia, e com a Lei do Inquilinato que a rua sofre
uma grande transformação. Com seu alargamento de 13 para 33 metros
e com o congelamento dos aluguéis, o mercado de locação passa
a buscar na verticalização a maximização do lucro fundiário, esse
processo se estende da década de 40 a de 70.
Com essa era
da verticalização, novas técnicas de construção e novas questões
estéticas foram exploradas. Visto que os grandes consumidores
dessa nova arquitetura era a elite, naturalmente optou-se pela
construção de apartamentos residenciais de alto padrão. Aliás
a qualidade da área era flagrante, pois além dos apartamentos
de luxo, a Avenida contava com a biblioteca Mario de Andrade,
com um comércio caracterizado por livrarias, butiques, bares e
agências de viagens, o que criava um ambiente de franca efervescência
cultural.
No entanto,
a partir dos anos 60, com a expansão da mancha urbana, o surgimento
de novos bairros luxo e o espraiamento das áreas residenciais,
a elite passa a deixar o centro e ir morar em bairros mais afastados
das áreas centrais, altera-se, então, a característica dos apartamentos
das áreas centrais, passando de residenciais para serviços. Em
um curto prazo, isso acabou criando problemas para a região, já
que esta não comportou as necessidades desse novo uso, apontando
para uma falta de estacionamentos, excesso de congestionamento
e má qualidade ambiental. A partir de então o patrimônio constituído
na Avenida passa a ser (em alguns casos) subutilizados, depredados
ou desvalorizados, por falta de manutenção e interesse.
Diante desse
quadro de desvalorização e até de certa decadência, a autora propõe
um projeto que prevê a requalificação da Avenida a partir de intervenções
que intensifiquem e reorganizem fluxos e diversifique percursos,
de forma a dinamizar esse eixo tão rico do centro novo. Com essas
diretrizes, Nádia Cahen sugere a ampliação da Biblioteca Mario
de Andrade, cria estacionamentos subterrâneos, abre galerias que
interligam edifícios e ruas, diversificando percursos, abrindo
novas possibilidades, intensificando o uso da Avenida de forma
a lhe conferir uma vitalidade de maior qualidade.
O trabalho
de Nádia Cahen volta-se para a situação do centro hoje, tão discutida
pelos arquitetos e urbanistas, mas pouco assistida pelo Poder
Público. Mostra-se assim importante, não só por resgatar a história
da Avenida, mas também pelo esforço na elaboração de um projeto
de intervenção, reiterando o valor emblemático da Avenida para
a cidade de São Paulo.
É interessante
notar como dois trabalhos investigativos sobre um mesmo objeto
podem apontar para trabalhos tão diferentes e ainda que ambos
tenham demarcado os mesmos momentos de inflexão na história da
Avenida, diferem em interpretações e apontam para diferentes fatos
ocorridos em uma mesma época. Cada autor identifica a partir de
seu ponto de vista diferentes agentes e interesses na sua história.
Ainda ambos
os atores concluem seus trabalhos de maneira distinta. Lefèvre
busca uma razão social para os problemas enfrentados pela avenida
hoje, identifica e critica os responsáveis por essa questão. Nádia
projeta uma sugestão de intervenção área, tentando resgatar sua
qualidade e propondo o que ela ainda pode ser. Assim, são trabalhos
com visões e pontos de vista que oras se tocam, oras correm em
paralelo, mas que de maneira muito rica se completam.
Aline Ollertz
é estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Presbiteriana Mackenzie e membro do Grupo de Pesquisa O Desenho
da cidade e a verticalização: São Paulo de 1940 a 1957.
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