Revisões
teóricas e reflexões da prática: atualizações “pós-modernas”
resenha
de carlos café
Marcando o
décimo volume da coleção face norte da editora Cosac Naify, Uma
nova agenda para a arquitetura segue a mesma estrutura e conteúdo
da obra original publicada em 1996 pela Princeton Architectural
Press nos Estados Unidos. Com primorosa qualidade gráfica e ciente
do atraso de dez anos, a versão brasileira omite a palavra inicial
do título original – Theorizing a new agenda for architecture
(1) –, sugerindo sutilmente uma atualização temática. Não
obstante, essa diferença temporal se faz condizente à herança
tardo-modernista que se estendeu no Brasil em relação à Europa
e aos Estados Unidos.
De fato, é
natural que alguns conteúdos tenham perdido sua atualidade nas
intensas transformações do presente e no conseqüente desgaste
do termo “pós-modernismo”. No entanto, o lançamento dessa coletânea
antecede com brevidade o aniversário de 50 anos de Brasília (2),
apresentando-se como uma instigante revisão teórica sobre o “projeto
moderno” nos parâmetros da discussão internacional.
Os ensaios
reunidos nesse volume foram organizados pela arquiteta e professora
norte-americana Kate Nesbitt, graduada em Planejamento Urbano
pela Universidade de Virgínia e mestre em Arquitetura pela Universidade
de Yale. São 51 textos relacionados à teoria contemporânea da
arquitetura, escritos entre 1965 e 1995, ponderando 30 anos de
uma acentuada intensificação da crítica aos ideais modernos, que
se apresentavam desgastados ante a impossibilidade de lidar com
a realidade da cidade pós-industrial. O caos crescente das metrópoles
e a complexidade dos problemas urbanos contradiziam o projeto
utópico modernista e, conseqüentemente, incitavam pensadores de
diversas áreas a manifestarem suas revisões teóricas e reflexões
sobre a prática de projeto.
Teoria e prática,
pesquisa e produção conectavam-se e nasciam no resultado de uma
multiplicidade de acontecimentos e transformações condicionados
à realidade do momento. A arquitetura passava a exercer papel
fundamental nos debates sobre arte e cultura, integrando outras
disciplinas e articulando uma notável aproximação do discurso
filosófico, de tal modo que as produções teóricas, mesmo em vertentes
ideológicas contraditórias, refletiam esse rompimento de fronteiras
avançando interdisciplinarmente sobre os impasses modernos – isso
ajuda a explicar o caráter heterogêneo dos ensaios escolhidos
por Kate Nesbitt.
Oportunamente,
vale ressaltar uma publicação semelhante, que nasce nesses mesmos
parâmetros contextuais, editada pelo historiador Charles Jencks
e o urbanista Karl Kropf. Praticamente do mesmo período (1997),
a antologia Theories and manifestoes of contemporary architecture
(3) é complementar e coerente a essa obra no sentido de evidenciar
uma produção teórica paradigmática a partir de uma diversidade
de temas e autores influentes nos debates da produção arquitetônica
contemporânea.
A organização
dos textos de Uma nova agenda para arquitetura não segue
uma ordem cronológica nem uma estrutura entabulada nos autores.
Os ensaios estão distribuídos em quatorze capítulos, que exploram
seus conteúdos como fator gerador do tema, potencializando uma
associação entre as diversas abordagens. Conforme a organizadora,
eles se dividem em três grupos temáticos distintos e inter-relacionados.
“Os primeiros oito capítulos abordam questões relacionadas com
significado, história e sociedade”, tais como pós-modernismo,
semiótica, estruturalismo, desconstrução, historicismo, tipologia
e contextualismo; redigidos por Venturi, Eisenman, Graves, Porphyrios,
Stern, Tschumi, Colquhoun, Solà-Morales, Argan, Colin Rowe, Koolhaas,
Gregotti, Aldo Rossi, Tafuri, entre outros.
Os quatro
capítulos seguintes discorrem sobre temas fenomenológicos, discutindo
o significado do lugar, a relação arquitetura e natureza, o regionalismo
crítico e a expressão tectônica, com textos de Norberg-Schulz,
Frampton, Juhani Pallasmaa, Tadao Ando, Raimund Abraham, Tzonis,
Lefaivre, Marco Frascari e outros já citados. Os dois últimos
capítulos tratam da relação entre arquitetura e o corpo, e também
do sublime como categoria estética, incluindo textos de Tschumi,
Agrest, Eisenman e Anthony Vidler.
Antecipando
cada texto, há uma explanação elaborada pela própria organizadora,
que prepara o leitor por meio de uma contextualização histórica
dos termos e uma inter-relação dos capítulos, construindo uma
pertinente lógica de conexão entre eles. O livro contém ainda
uma extensa introdução que apresenta e justifica sua estrutura
de organização e seleção, avançando sobre discussões complementares
divididas em duas partes: “A necessidade da teoria” e “O que é
o pós-modernismo?”.
As seções
finais estão organizadas de maneira a fornecer melhores condições
de pesquisa ao leitor, incluindo uma bibliografia separada por
capítulos, índice remissivo e dados biográficos relevantes dos
autores. Sem dúvida, a obra constitui um importante referencial
teórico sobre as mudanças do pensamento arquitetônico que precederam
o século XXI, sendo uma inestimável contribuição para a ampliação
do debate no âmbito nacional de forma atualizada.
Notas
1
NESBITT, Kate (org.). Theorizing a new agenda for architecture:
an anthology of architectural theory, 1965-1995. Princeton
Architectural Press, Estados Unidos, 1a edição 1996.
2
1956, elaboração do edital do concurso; 1957, resultado do concurso
e 1960, inauguração de Brasília.
3
JENCKS, Charles; KROPF, Karl (org.). Theories and manifestoes
of contemporary architecture. Academy Editions, Inglaterra,
1997.
Carlos
Café é arquiteto e artista, mestrando pela Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade de Brasília – UnB. |