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Resenha 156 / outubro 2006
Livro resenhado:
Francisco Fanucci – Marcelo Ferraz: Brasil Arquitetura. Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz. Apresentação de João da Gama Filgueiras Lima [Lelé]. Textos de Cecília Rodrigues dos Santos, Vasco Caldeira e Max Risselada. São Paulo, Cosac & Naify, 2005, 208 p [imagem: Conjunto KKKK, Registro, 2001. Foto Nelson Kon].

 

Brasil Arquitetura: convívio entre o contemporâneo e o tradicional
resenha de hugo segawa

A capa é intrigante: uma parede em esmerado concreto aparente, moldada pela textura das tábuas e das juntas, domina a composição. O desenho irregular do piso de granito, o ponto de fuga em direção à penumbra, reforçam a impressão neutra de uma capa que deve irritar os vitrinistas de livrarias, ciosos de cores e espantos. As letras brancas que destacam os nomes Fanucci – Ferraz pouco esclarecem sobre o livro. Nenhuma escrita na quarta capa ajuda o incauto leigo a esclarecer o conteúdo da publicação. Mas aos mais atentos não passará despercebida a beleza da igualmente intrigante imagem da capa posterior: a resplandecente luminosidade dos contrafortes em tijolo do muro de divisa do Teatro Polytheama. Primeira e quarta capas são formadas por uma imagem só: a foto de Nelson Kon mostra o convívio do material contemporâneo – o concreto aparente – e a técnica construtiva tradicional – o milenar tijolo – num contraponto exemplar. Contraponto que está na essência do trabalho dos arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, fundadores do escritório Brasil Arquitetura em 1979, outrora um trio, com a participação de Marcelo Suzuki.

A austeridade da capa revela um pouco o espírito deste duo, arquitetos hoje com pouco mais de 50 anos de idade. Em arquitetura, meio século é não é muito. Para arquitetos, talvez menos ainda. Somente a precocidade de Oscar Niemeyer permitiu que exatamente aos 50 anos ele empreendesse a aventura que foi Brasília. Tardio é o reconhecimento dos outros dois mais importantes arquitetos brasileiros em atividade: Paulo Mendes da Rocha somente recebeu a consagração internacional aos 78 anos, com Prêmio Pritzker a ele concedido este ano; João Filgueiras Lima, o Lelé (que escreve uma das apresentações deste livro), aos 74 anos, ainda está a merecer o devido tributo.

Se a pioneiros como Lucio Costa, Niemeyer ou Vilanova Artigas couberam a árdua tarefa de iniciar a sementeira, Fanucci e Ferraz são os frutos de uma terceira ou quarta colheita. Neste terreno de muitas e diferentes semeaduras, Marcelo Ferraz também cresceu trabalhando com Lina Bo Bardi, a extraordinária arquiteta que vislumbrou um outro Brasil e uma peculiar brasilidade que engrossou o caldo de culturas do país. Não é estranho que o escritório de Fanucci/Ferraz/Suzuki tenha sido batizado Brasil Arquitetura.

O livro traz uma seleção de realizações, em três blocos: obras públicas e concursos, residências e design de mobiliário. Impressiona as iniciativas relacionadas ao projeto de requalificação do Bairro Amarelo em Berlim, um concurso internacional do qual foram finalistas as equipes do mineiro Éolo Maia e de Clorindo Testa e Justo Solsona (dois dos mais importantes arquitetos argentinos). A arte das mulheres kadiwéu nos azulejos é parte da vivência dos espaços, tanto quanto as obras de Amílcar de Castro, Siron Franco, Miguel dos Santos e Franz Krajcberg que integram a proposta de reanimação dos ambientes do melancólico conjunto habitacional do antigo leste europeu.

O enfoque urbano da reabilitação do conjunto do KKKK em Registro, São Paulo, abandonado conjunto fabril da imigração japonesa dos anos 1920 que ganhou vida como centro de aperfeiçoamento do professorado e museu da imigração, aborda a tão contemporânea questão das frentes à água – no caso, o Parque Beira-Rio ao longo do rio Ribeira do Iguape, no qual a escultura em aço de Tomie Ohtake protagoniza a devolução de um extenso trecho urbano ao usufruto público.

Será redundante destacar os vários pontos da arquitetura de Fanucci e Ferraz. Este livro é um daqueles que apresentam hábil conjunção entre belas imagens e elucidativos textos, sobretudo aqueles assinados por Cecília Rodrigues dos Santos e Vasco Caldeira. Mesmo as apresentações, de Lelé e do holandês Max Risselada, são felizes ao superar o elogio solto para adentrar nas peculiaridades do pensamento e da prática do duo paulista.

Fanucci e Ferraz representam o que de melhor essa geração tem a mostrar na arquitetura brasileira atual.

Hugo Segawa é Professor Associado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

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