O
texto do arquiteto
resenha
de carlos eduardo verzola vaz
Há um grande
receio em relação ao uso dos computadores para algo mais que a
representação de um projeto, durante nossos estudos para resolução
de um problema. Um medo até um tanto quanto ingênuo. Teme-se que
a máquina venha a dominar o processo projetual, que a máquina
vire o arquiteto e o arquiteto se torne apenas um gerente do processo
criativo de um software inteligente de arquitetura.
Em uma primeira
instância pode-se entender o computador apenas como uma ferramenta
de representação gráfica que, se utilizada de maneira correta,
pode ser tão útil como a régua paralela ou a curva francesa já
o foram. No entanto, quando se pensa dessa maneira, são excluídas
as várias possibilidades de seu uso durante o desenvolvimento
de um projeto. Ou seja, por que não podemos deixar que o computador
nos ajude a tomar decisões? Por que essa máquina não pode gerar
algumas instâncias de um tipo, soluções para partes de um projeto,
ou até mesmo criticar e tomar pequenas decisões quanto às formas
mais coerentes a serem utilizadas ou as soluções técnicas mais
viáveis para um projeto?
Segundo Guilherme
Bittencourt (1), professor do Departamento de Automação e Sistemas
da Universidade Federal de Santa Catarina, na medicina, sistemas
especialistas já auxiliam no diagnóstico de algumas doenças. O
sistema MYCIN, por exemplo, é um sistema especialista que tem
como objetivo prover conselhos a respeito de diagnóstico e terapia
de doenças infecciosas em ambientes hospitalares. O sistema inicia-se
com a aplicação de um questionário, que deve ser respondido pelo
usuário. Em seu banco de dados são armazenadas informações a respeito
do paciente, como nome, idade, sexo, tempo de manifestação dos
sintomas, resultados de exames etc. A partir dessas informações,
e utilizando sua base de regras, o sistema é capaz de estabelecer
um diagnóstico e propor uma terapia adequada. Ou seja, o programa
propõe uma solução, o que não significa que ele comande o processo
de tratamento de um indivíduo. A máquina não está tomando decisões
de forma autônoma: ela ainda depende do homem, ou seja, do gerador
do programa para simular o conhecimento e criar respostas.
Se fôssemos
capazes de aceitar uma máquina que colabore não apenas passivamente,
mas ativamente no processo de projeto, também poderíamos nos indagar
quais seriam os benefícios obtidos no desenvolvimento de um software
que não apenas represente, mas que também traga soluções projetuais
para um problema. E a resposta não está no próprio software, mas
na base teórica necessária para desenvolvê-lo, pois, acima de
tudo, tal programa deverá aprender a criticar.
Contudo, a
arquitetura, diferentemente da pintura, música e escultura, sofre
de uma deficiência grave. Ela não apresenta uma teoria crítica
que possibilite simultaneamente a análise das características
formais e funcionais de um projeto de maneira satisfatória. Geralmente,
quando lemos algum artigo sobre um projeto, encontramos referências
às boas soluções técnicas tomadas pelo autor da obra, às características
do local onde ela foi implantada e uma análise descritiva do projeto
em questão. Por outro lado, não encontramos nada que nos diga
quais foram os processos que geraram sua forma, qual a lógica
do projetista durante o desenvolvimento do trabalho. Essa deficiência
acaba se refletindo na metodologia de ensino de projeto nas escolas
de arquitetura, pois o aspirante a arquiteto de certa forma entende
o que é bom ou mau mas, na maioria das vezes, não se preocupa
em explicitar o percurso por ele escolhido para chegar a uma solução.
Em 1990, o
arquiteto e então professor de Harvard William J. Mitchell (atualmente
professor do Massachusetts Institute of Technology – MIT) buscou
responder às questões que envolvem a construção de softwares inteligentes
para o desenvolvimento de projetos e, simultaneamente, encobrir
a lacuna que existe na teoria da crítica arquitetônica. O livro,
cujo título original é The logic of architecture, será
em breve publicado em português, sob o título A lógica da arquitetura.
A tradução de Maria Gabriela Caffarena Celani, professora da UNICAMP,
incluirá notas explicativas que têm o objetivo de facilitar a
leitura desta obra de grande complexidade. Nela o autor monta
a base teórica para o desenvolvimento uma linguagem crítica para
a arquitetura baseada na analogia lingüística das formas. Ou seja,
analisa obras arquitetônicas, decodificando-as em forma de sentenças,
estudando seu vocabulário e a maneira como ele pode ser usado
na construção de composições, e as regras e operações sob as quais
essas sentenças terão sentido funcional, técnico e formal. Segundo
o autor, poderia se considerar que em um projeto, como neste texto,
as frases reunidas formariam partes de uma resposta ou a construção
de um raciocínio. Também, como em um texto, essas sentenças estariam
impregnadas pela estilística do autor, pois como em qualquer outra
linguagem seriamos capazes estudá-las de maneira a compreender
as características, grafias ou formalismos de um conjunto de obras.
A metodologia
utilizada pelo autor para análise de projetos de arquitetura se
baseia nos trabalhos desenvolvidos por George Stiny e Gips nos
anos 70 para descrever e gerar linguagens de projeto em duas ou
três dimensões. Essa teoria, conhecida como gramática da forma,
baseia-se na gramática generativa de Chomsky. Esse modelo é capaz
de gerar formas pertencentes a uma mesma linguagem pela aplicação
recursiva de um conjunto de regras ou relações a uma forma inicial.
A gramática da forma já foi utilizada como método para estudo
da linguagem de Giuseppe Terragni, Frank Lloyd Wright e Glenn
Murcutt, entre outros arquitetos.
Contudo, Mitchell,
além de utilizar a gramática da forma para caracterizar a linguagem
arquitetônica dos edifícios, preocupa-se em evitar os vícios que
um crítico humano pode apresentar em um texto, fugindo de interpretações
baseadas em gostos pessoais, com contradições, sentenças com duplo
sentido, ou seja, o que geralmente ouvimos em discursos críticos
aferidos por arquitetos no meio profissional ou acadêmico. Portanto,
como forma de representação de sua linguagem, ao invés de utilizar
sentenças em português, ele elege a notação do cálculo de predicados
da lógica de primeira ordem ou clássica. Essa ferramenta é essencial
para a construção de um discurso que tem como objetivo chegar
a conhecimentos verdadeiros, evitando assim as falácias tão usuais
em nossos discursos.
Além de utilizar
a analogia lingüística, baseada na lógica de primeira ordem, para
a descrição e análise de projetos, Bill Mitchell também cria um
suporte teórico para que ela possa ser executada. Conceitua o
que é forma e estuda características como proporção, simetria
e arranjo; nos dá subsídios para interpretarmos os mundos projetuais
em que trabalhamos e a importância da escolha da mídia correta
para o desenvolvimento de respostas coerentes para a resolução
de um problema; define tipos arquitetônico e classes de objetos,
suas características essenciais e relativas. Esses temas, tratados
de maneira formidável no texto, são fundamentais para a montagem
de um banco de dados de qualquer programa que tente tratar questões
de projeto de forma a representar o conhecimento do arquiteto.
Por outro lado, também são questões que muitas vezes passam desapercebidas
durante o processo de formação, tornando-se, posteriormente, debilidades
profissionais.
A lógica
da arquitetura constitui-se, portanto, em um livro essencial
para qualquer profissional ou estudioso que deseja fazer crítica
arquitetônica, pois ambos o fazem, seja projetando, analisando
obras ou ensinando. Sendo assim é interessante ressaltarmos sua
importância pedagógica, como fonte de estudos, para um professor
de projeto que pretende melhorar suas análises críticas sobre
os trabalhos de seus alunos, evitando assim argumentações frágeis,
trazendo para o aluno o auto-conhecimento de suas operações gramaticais,
do seu vocabulário de formas e, também, das falhas lógicas de
seu projeto. Enfim, colaborando para que os estudantes sejam capazes
de construir seu raciocínio utilizando a lógica como ferramenta
para a formulação de bons argumentos, seja em um projeto, seja
em um discurso ou em um texto sobre uma obra. O arquiteto, como
o próprio autor ressalta, deve saber comunicar suas idéias e não
apenas dar respostas gráficas para um problema.
O livro pode
assustar, pois não estamos habituados à leitura de sentenças construídas
com notação simbólica da lógica formal, mas esse seria o menor
dos motivos para interromper a sua leitura. O texto é forte e
compacto, apresentando em poucas páginas diversos assuntos. Contudo,
traz referências suficientes para seu entendimento e para o aprofundamento
dos temas apresentados. A irreverência do autor colabora para
que a leitura se torne um pouco mais agradável, mas mesmo assim,
perder a linha de raciocínio de Mitchell de vez em quando é inevitável,
devido à complexidade e novidade que o tema representa para a
maioria dos leitores.
Enfim, a grande
inovação do livro está na idéia defendida por Mitchell de que
é possível entender a arquitetura como algo que podemos ler, da
mesma forma como lemos as frases e parágrafos de um texto, com
gramática e vocabulários próprios com os quais cada projetista
escreve seu projeto. No entanto, devemos tomar cuidado com o emprego
rígido e indiscriminado de “regras gramaticais” na analise de
um projeto, pois em alguns momentos, no corpo do texto gerado
pelo arquiteto, ou seja, em suas composições formais, ele também
deve ter direito à licença poética e isso não é erro, é criação.
Nota
1
BITTENCOURT. Inteligência computacional. Disponível em:
<http://www.das.ufsc.br/gia/softcomp>.
Acesso em 16 jun. 2006.
Carlos
Eduardo Verzola Vaz. Formado pela FAU-USP em 2003. Atualmente
faço mestrado sobre metodologia de projeto na Faculdade de Engenharia
Civil da Universidade de Campinas (FEC-Unicamp) na área de arquitetura
e construção.
|