Um
quarto de século de "Arquitetura contemporânea no Brasil"
(homenagem a Yves Bruand)
resenha
de otavio
leonídio
Contrariando
todas as expectativas e um temor mais ou menos generalizado, 2006,
tudo indica, vai mesmo acabar e antes que isso aconteça é preciso
lembrar de um dado, salvo engano, esquecido – os 25 anos de publicação
de Arquitetura Contemporânea no Brasil, de Yves Bruand,
pois a primeira edição é de 1981.
Para quem,
como eu, ingressou na escola de arquitetura no início dos anos
1980, o livro constituiu uma espécie de marco referencial. A primeira
razão disso era a própria incipiência do mercado de publicações
de arquitetura à época, sobretudo em termos de arquitetura brasileira.
Livros tão importantes quanto Depoimento de uma geração,
de Alberto Xavier (1987) e Registro de uma vivência, de
Lucio Costa (1995) ainda não haviam sido lançados, e, à exceção
de Quatro séculos de arquitetura, de Paulo Santos – publicada
originalmente em 1965 e republicada em 1977 e 1981 –, as principais
obras de referência sobre a arquitetura moderna brasileira (Brazil
Builds, de Philip Goodwin, 1943; Modern Architetcure in
Brazil, de Henrique Mindlin, 1956; e Lucio Costa: sobre
arquitetura, organizado por Xavier, 1962) só podiam ser encontradas
em sebos ou bibliotecas.
Bem entendido,
a importância da publicação de Arquitetura Contemporânea no
Brasil não se mede apenas, nem principalmente, pela pobreza
do meio editorial em que originalmente se inseriu. Diferentemente
das obras mais ou menos panorâmicas que o precederam, o livro
de Bruand era a primeira obra verdadeiramente compreensiva da
arquitetura “contemporânea” (já na introdução, Bruand explicita
suas restrições ao termo “moderno”) brasileira. Na verdade, é
a primeira história stricto sensu da arquitetura brasileira
do século XX, o que, em si mesmo, já demonstra sua extraordinária
importância.
Curiosamente,
não lembro de haver à época nenhuma valorização especial do livro
de Bruand (ao menos no círculo acadêmico em que acabara de ingressar),
e se o comprei (uma primeira edição) foi por pura intuição, alimentada
possivelmente por um desinteresse congênito pelas estrelas editoriais
da época – Michael Graves, Mario Botta, etc. Na verdade, creio
que ainda hoje o livro é visto com certo desdém pelos brasileiros,
e para isso contribuiu a vaga historiográfica revisionista iniciada
por aqui na década de 1990. Identificado muitas vezes (e não raro
de modo bem pouco crítico) com o que Carlos Alberto Ferreira Martins
chamou, num trabalho pioneiro e inspirador (1), de constituição
da “trama narrativa” da arquitetura moderna brasileira, o livro
de Bruand, parece ter passado diretamente do estágio de indiferença
(digo de parte dos comentadores, de vez que, em termos editorias,
até onde sei, o livro foi desde cedo muito bem sucedido) ao estágio
da restrição. Restrição de ordem vária, a principal delas sendo
sempre a de ter dado seqüência ao esquema interpretativo iniciado
por Lucio Costa em suas explicações acerca do sucesso da arquitetura
moderna brasileira. Um comentador chegou mesmo a censurar Bruand
porquanto “não propôs-se simplesmente a tarefa de estabelecer
a história fatual do modernismo brasileiro” (2).
No meu caso,
sempre tive uma relação muita diversa com Arquitetura contemporânea
no Brasil. Ao lado de umas poucas obras (Por uma arquitetura,
de Le Corbusier, A linguagem clássica da arquitetura, de
John Summerson, e do livro do Mindlin, que herdei de minha avó
Maria Luiza), constituiu a base de minha biblioteca de arquitetura
e sempre senti uma certa segurança quando pensava que podia recorrer
a ele sempre que precisasse de informações confiáveis e juízos
esclarecedores sobre a arquitetura moderna brasileira. Uma sensação
que não desfez depois de tantos anos, e que se alimenta de releituras
esporádicas mas sempre prazerosas.
Embora não
poucos autores tenham, nos últimos anos, analisado, de modo mais
ou menos criterioso, o livro de Bruand, continuo com a sensação
de que a obra ainda não foi objeto de uma análise crítica proporcional
à sua importância. De um modo geral, não me parece que se tenha
avançado muito desde que, em sua dissertação de mestrado, Carlos
Martins identificou a dependência do esquema interpretativo de
Bruand para com as idéias de Costa. Minha impressão, ao contrário,
é que, na maior parte dos casos, as idéias originais e inspiradoras
de Carlos Martins foram vulgarizadas, quer dizer, simplificadas
ao extremo. Resumidamente, parte-se quase sempre da pressuposição
de que Bruand teria dado seqüência, ingenuamente ou não, ao esquema
(tido como ideológico, de vez que interessado) proposto por Costa.
Mais do que equivocadas, creio que tais restrições padecem de
um vício de origem, definido por uma matriz historiográfica essencialmente
ideológica; uma matriz que, por isso mesmo, toma a priori
as idéias como se fossem sempre ideologia. Não surpreende, portanto,
que as principais questões levantadas pela publicação de Arquitetura
contemporânea no Brasil permaneçam ainda hoje sem resposta,
a principal delas sendo: como e porque surgiu, naquele exato momento,
pelas mãos de um francês, a primeira história da arquitetura moderna
brasileira?
De modo excessivamente
especulativo (e um pouco irresponsavelmente), me arriscaria a
dizer que, a favor de Bruand, bem mais do que a nacionalidade,
pesou o fato (inteiramente contingente, como aliás Bruand reconhece
na introdução do livro) de ter escrito sua obra num momento em
que, pela primeira vez, era possível experimentar uma separação
vis-à-vis de uma produção que, mal ou bem, havia vivido
um continuum desde pelo menos o início da década de 1930.
A inauguração de Brasília e o Golpe de 1964 teriam implicado,
nesse sentido, não necessariamente uma crise nas condições de
produção da arquitetura brasileira (ou seja, uma crise do métier,
da práxis da arquitetura), senão o surgimento de condições de
visibilidade e compreensão diversas das vigentes até então, com
conseqüências imediatas mais epistemológicas que práticas. Desse
ponto de vista, a crise vulgarmente identificada com o período
1957-1964 seria antes de tudo uma crise narrativa – a crise das
condições narrativas que tornaram possível a consolidação, melhor,
a reificação de algo chamado “arquitetura moderna brasileira”.
Nesse sentido,
a diferença do livro de Bruand relativamente aos panoramas que
o precederam adviria do fato de que, pela primeira vez, produzia-se
uma narrativa descolada, digamos, de um curso de eventos considerados
até então como estando “em processo”, sem nenhum encaminhamento
ou desfecho definido. Um processo do qual os enunciadores (os
estrangeiros incluídos) sentiam-se partícipes diretos. Embora
um pouco tardio (o que é plenamente justificável em se tratando
do autor), um depoimento de Lucio Costa, de 1979 (dois anos antes,
portanto, da publicação do livro de Bruand) dá bem a medida da
alteração desse quadro narrativo:
“Assim
como a morte do Corbusier foi um alívio para todo mundo, o fato
de Brasília ter sido construída foi um alívio para todos os arquitetos
que finalmente se livraram daquele pesadelo, daquela arquitetura
moderna que vinha desde 36 até Brasília. Agora é preciso esclarecer:
esta arquitetura que ocorreu desde a época do Ministério se deveu
fundamentalmente a Oscar Niemeyer. Sem o Oscar não teria havido
esta arquitetura que surpreendeu os países europeus, a América
do Norte, Japão, depois de um período de matança, de guerra, de
destruição sistemática, bombardeios, bomba atômica. Enquanto isso
construiu-se aqui o Ministério da Educação, e o Oscar, convidado
pelo Juscelino, fez a Pampulha. Ele surgiu como arquiteto durante
a construção do Ministério, onde sua contribuição foi fundamental,
e na oportunidade oferecida em Minas, de fazer a Pampulha, ele
se revelou uma personalidade fora de série. O movimento da
arquitetura dita brasileira contemporânea, no fundo, é Oscar Niemeyer.
O resto era arquitetos que acompanhavam mais ou menos o que ele
fazia: o Reidy, esse, aquele outro, todos mais ou menos dentro
do esquema, naquela tendência de querer renovar um pouco a arquitetura
mais racionalista que havia anteriormente com esse novo elemento
que dava uma certa graça, como nenhum dos grandes arquitetos anteriores
havia contribuído, com elegância, um certo charme./ Então
ficou um receituário que compunha arquitetura. Simultaneamente,
toda a mediocridade que o havia acompanhado começou a fazer caricatura
daquilo que ele fazia. Não só arquitetos medíocres, mas construtores
e engenheiros; foi ficando um maneirismo, querendo imitar, aquele
negócio com colunas em V, telhados em duas águas, uma série de
coisas foram se repetindo, foram se espalhando pelo país. Isto
chocava muito, arquitetos estrangeiros, que vinham à procura de
coisas das coisas verdadeiras, antes de ver as obras autênticas,
qualificadas, viam tanta coisa imitando, medíocre, e aquilo foi
chateando um pouco, desgostando./ Por isso quando o Oscar escreve,
fala ‘nós isso, nós aquilo’, ele está falando é dele, a ‘arquitetura
brasileira’ é a arquitetura dele, do que ele fez, do que faz,
porque é um fato, uma realidade, ele está dizendo a verdade de
uma forma como se fosse modesta: ‘nós, a arquitetura brasileira’”
(3).
Acaso alguém
imagina Lucio Costa afirmando isso na década de 1950?
Mas minha
relação com Arquitetura contemporânea no Brasil foi também
marcada pelo encontro com seu autor, quando, junto com Ana Luiza
Nobre, João Masao Kamita e Roberto Conduru, organizamos, em 2002,
seminário comemorativo dos 100 anos de nascimento de Lucio Costa.
Se me lembro bem, o nome de Bruand foi um dos primeiros da lista
de convidados, e foi imediata e unânime a idéia de convidá-lo
para proferir a conferência de abertura do colóquio.
Nenhum de
nós sabia à época como localizar Bruand (et pour cause...);
sabíamos que recentemente havia participado da banca de defesa
de tese de doutorado de uma colega, ocorrida em Paris, e foi essa
colega que nos forneceu seu número de telefone. Por sorte, fui
incumbido de contatar Bruand.
Desde o primeiro
contato, ele foi de uma gentileza invulgar, e não foi preciso
mais do que dois ou três telefonemas (e da ajuda do então adido
cultural do Consulado Francês no Rio de Janeiro, Marc Bauchamps,
que conseguiu junto à Air France os bilhetes aéreos) para acertarmos
sua vinda ao Brasil.
Sua participação
foi, a meu juízo, o ponto alto do seminário Um século de Lucio
Costa. Com voz doce e fala pausada, falando um português claro
para um auditório lotado e, até onde pude perceber, emocionado,
Bruand falou de Lucio Costa com muita familiaridade. A familiaridade
de quem tinha estado mais de uma vez com Costa e, sobretudo, conhecia
muito bem sua obra. Mesmo aparentando algumas vezes cansaço, fez
questão de comparecer à maioria das sessões, demonstrando sempre
grande interesse pelas falas dos colegas brasileiros.
Findo o seminário,
antes de embarcar para Salvador, a caminho de casa, Bruand sugeriu,
a Ana Luiza Nobre e a mim, que fôssemos a Niterói. Queria ver
o MAC de Oscar Niemeyer. Era um domingo de sol, daqueles que faz
o branco dos edifícios de Niemeyer latejar. Bruand desceu do carro,
câmera na mão, e, pelo tempo que lá estivemos, pela primeira vez
desde que o recebemos no Hotel Glória, no dia de sua chegada ao
Brasil, não nos deu muita atenção. Percorreu todos os caminhos,
subiu as rampas, fez muitas fotos. Parecia absorvido pela presença
daquela nova realização do grande protagonista da arquitetura
moderna brasileira. Uma arquitetura que, passados 25 anos da publicação
de Arquitetura contemporânea no Brasil, deve renovar a
sua gratidão para com Yves Bruand.
Notas
1
MARTINS, Carlos Alberto Ferreira. Arquitetura e Estado no Brasil.
Elementos para uma ivestigação sobre a constituição do discurso
moderno no Brasil; a obra de Lucio Costa (1924-1952). São
Paulo: FFLCH-USP, Dissertação de Mestrado, dez. 1987.
2
PUPPI, Marcelo. Por uma história não moderna da arquitetura
brasileira. Campinas, PONTES/CPHA/IFVH, 1998, p. 100. Grifos
meus.
3
COSTA, Lucio. Lucio Costa (entrevista a Álvaro Hardy, Éolo Maia,
José Eduardo Ferolla, Maurício Andrés e Paulo Laender), Pampulha,
Belo Horizonte, ano 1, n. 1, nov./dez. 1979, p. 16, grifos meus.
Otavio
Leonídio, arquiteto, doutor em história, coordenador acadêmico
e professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio.
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