O
que faz um edifício ser belo?
resenha de
fábio duarte
O que faz
um edifício ser belo? Esta é a pergunta que guia o livro Arquitetura
e Filosofia, de Mauricio Puls, recém-lançado pela editora
Annablume. É uma pergunta espinhosa, propensa aos subjetivismos
simplistas do “gosto não se discute”. Ainda mais se partirmos
da afirmação do historiador Giulio Carlo Argan de na cidade “todos
os edifícios, sem exclusão de nenhum, são representativos e, com
freqüência, representam as más formações, as contradições, as
vergonhas da comunidade” (1).
Quando visitamos
cidades antigas, a aparente homogeneidade ou coerência de estilos
de seus edifícios comumente reflete menos essa presumível unidade
e mais a nossa incapacidade de distinguir historicamente a multiplicidade
arquitetônica que apresentam. Nas nossas cidades contemporâneas
conseguimos mais facilmente distinguir diferentes estilos arquitetônicos,
e aí a pergunta sobre quais edifícios podem ser considerados belos
– sem gostos individuais, com base em critérios estéticos consolidados
– torna-se difícil. O crítico de arte americano Haroldo Rosenberg
(2) sinaliza esta angústia estética contemporânea dizendo que
“antigamente, um novo estilo de arte ou o trabalho de um artista
desconhecido só adquiriam notoriedade depois de passarem pelo
crivo da crítica e da apreciação estética. Hoje, o processo muitas
vezes funciona às avessas: primeiro se chama a atenção do público,
depois vem a discussão e a avaliação crítica”.
O desafio
que Puls se coloca é justamente entender como esse crivo estético
se formou ao longo da história. Para isso, seu livro é dividido
em 21 capítulos onde discute as bases filosóficas dos critérios
estéticos do belo dos pré-socráticos a Umberto Eco, passando
por Kant, Marx e Simmel. A maior parte dos capítulos apresenta
binômios filosóficos, onde Puls consegue estabelecer diálogos
entre Bachelard e Foucault, Schopenhauer e Nietzche, Descartes
e Leibniz – por vezes a partir de semelhanças e continuidades,
por outras por oposição conceitual ou argumentativa.
Uma das questões
colocadas para discutir o belo em arquitetura é se seriam válidos
os mesmos critérios das artes plásticas. Puls inicia a sua argumentação
colocando que, arte ou arquitetura, trata-se de uma discussão
de linguagem: “inicialmente absorvido pelo ambiente, o homem se
afasta das coisas e por isso se torna capaz de designá-la pela
linguagem” (p. 10). Em mais um degrau para a definição da arte
como linguagem, Puls argumenta que os objetos de arte serviriam
para “desvelar nossa subjetividade”, e continua dizendo que a
arte “se distancia da vida cotidiana para que, após a experiência
estética, possamos desejar um fim diferente daqueles que orientam
nossa existência imediata, qual seja – mudar de vida”. Essa colocação
já desloca a obra de arte para o centro de nossa relação com o
mundo – ela não é apêndice de diletantismo, mas algo construído
para (nos) entendermos no mundo.
Para chegar
ao objeto arquitetônico, Puls dá o passo definitivo: é preciso
considerar, em primeiro o lugar, que diferentemente de qualquer
outra manifestação artística, as edificações são a “única arte
que comporta a satisfação das necessidades práticas dos indivíduos”.
Não importam as dimensões ou as funções de um edifício – tampouco
sua beleza, a utilidade lhe é uma característica inalienável,
e aí reside um dos pontos críticos ao se pretender realizar ou
julgar o belo na arquitetura. E ainda, distintamente de
outras manifestações artísticas que podem se realizar isoladamente,
sem a “contaminação” de outras obras, como um ente único, a edificação
se faz necessariamente dentro de um contexto ambiental e urbano.
Portanto,
a análise isolada de uma edificação carece de um pressuposto intrínseco
da arquitetura que é sua posição entre outras edificações – posição
que pressupõe um contágio de como nos apropriamos de uma edificação
e de como a enxergamos. Uma obra de arte pode secolocar
para um diálogo com outras obras ou em um contexto determinado
(como as esculturas de Richard Serra, de Christo, ou a land
art), enquanto a arquitetura já nasce desse diálogo
com o entorno. Voltando a Puls, “por isso o edifício não expressa
apenas o sujeito, mas também o outro com o qual ele se relaciona”.
Se a leitura
dos binômios filosóficos de Mauricio Puls já seria instigante
pela busca das alterações ao longo da história do que pode ser
considerado belo na arquitetura, ela se torna um desafio gratificante
para o leitor, principalmente para o leitor arquiteto, que lida,
por sua vez, com dois binômios no cotidiano: buscar realizar um
projeto belo mas utilizável, focar-se tanto no seu
objeto arquitetônico sabendo que ele apenas se realizará
ao se “contaminado” pelos outros, pelo contexto urbano.
Puls não se detém nas posições dos próprios arquitetos, tampouco
se aprofunda no patamar que está a discussão do belo na arquitetura
contemporânea. Não era sua intenção. Acabando também com Argan,
“naturalmente, sem uma séria crítica do passado não há perspectiva
possível para o futuro e vice-versa. Mas estamos certos de que
a crítica do passado, especialmente do passado próximo, foi feita
a fundo? Ou não foi com freqüência desviada em revivals
tão sugestivos quanto inconseqüentes?”
Notas
1
ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade.
São Paulo, Martins Fontes, 5ª Edição, 2001, p. 243.
2
ROSENBERG, Haroldo. Objeto ansioso. São Paulo, Cosac Naify,
2004, p. 229.
Fábio
Duarte é arquiteto e doutor pela USP, professor do mestrado em
gestão urbana na PUC-PR, e autor, entre outros, de Crise da matrizes
espaciais. Arquitetura, cidades, geopolítica, tecnocultura. São
Paulo, Perspectiva, 2002.
Leia
também "Construindo
o pensar arquitetura", de Leonardo Rodrigues Pereira sobre
o livro de Maurício Puls
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