Arquitetura
e política: novas possibilidades de atuação para a arquitetura
brasileira
resenha de nabil bonduki e ana paula koury
Aqueles que
viveram o ambiente de esquerda das escolas de arquitetura nos
anos 70 – os anos de chumbo da ditadura militar – se deparavam
com uma forte polarização política e profissional, que envolvia
professores e estudantes. De um lado, os que defendiam a necessidade
de continuar exercendo a prática profissional, mesmo numa conjuntura
adversa, e fazer do projeto e da arquitetura um instrumento, que
todos sabiam ser limitado, de transformação da sociedade. De outro,
os que entendiam que o projeto de arquitetura servia ao "sistema"
e que deveriam se concentrar em analisar o processo sócio-econômico
em que o ambiente construído e a cidade são produzidos e se organizar
para combater a ditadura e lutar para transformar as estruturas
sociais.
Esta polarização
tinha dois gurus ausentes: João Villanova Artigas e seu ex-discípulo,
Sergio Ferro, responsável pela radicalização das propostas do
mestre, ambos professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP que tinham sido afastados pela ditadura militar. O primeiro,
antigo militante do PCB, aposentado compulsoriamente em 1969,
junto com importantes intelectuais da USP; o segundo, preso em
1970 após aderir à guerrilha urbana, como tantos outros jovens
inconformados com os rumos do país.
A ausência
de Ferro – exilado em Grenoble, onde formou mais de 600 arquitetos
sem que pudesse exercer a profissão –,foi fermentada num ambiente
de forte repressão ao livre debate das idéias, e fez com que se
difundisse por aqui a falsa idéia, em torno da qual a polarização
profissional se deu, de que as suas críticas ao processo de produção
de arquitetura e aos rumos da arquitetura moderna brasileira no
pós-64 significavam uma negação da profissão, ou seja, usando
o jargão da época, que deveríamos "deixar de projetar"
e "usar instrumentos mais contundentes para alcançar a transformação
da sociedade".
Até a segunda
metade dos anos 70, os textos de Ferro, herméticos e sem uma publicação
adequada que permitisse a sua ampla divulgação, circulavam como
panfletos clandestinos e subversivos, muitas vezes gerando análises
superficiais, convenientes apenas para alimentar o embate entre
os grupos políticos que se degladiavam no movimento estudantil,
sem gerar uma reflexão mais profunda sobre a contribuição que
esta visão poderia dar aos novos rumos da nossa profissão.
Malgrado a
força com que esta polarização se estabeleceu, entre o final dos
anos 70 e início dos 80, a aproximação entre arquitetos e os movimentos
sociais lançou novas perspectivas para a profissão, rompendo a
polarização entre projetar com os métodos tradicionais ou não
projetar. Para os que viveram este percurso, a visão crítica de
Ferro foi fundamental. Na retomada de processo democrático, muitos
arquitetos não conformados nem com os métodos tradicionais de
projetar nem com o abandono da profissão lançaram-se em aventuras
onde a arquitetura e a política se misturavam para propor alternativas
que buscavam dar um novo protagonismo para os novos sujeitos coletivos,
na feliz expressão de Eder Sader, e para os trabalhadores produtores
do espaço urbano, sem eliminar o papel do profissional. Daí nasceram
métodos para possibilitar o projeto participativo da habitação
coletiva, para desalienar o trabalhador da construção civil do
objeto do seu trabalho ou para incorporar processos autogestionários
na produção do espaço urbano. Foram tempos de construção de novas
utopias, num momento em que o Partidos dos Trabalhadores estava
longe de se render ao pragmatismo e se constituía no elo de articulação
de movimentos sociais, intelectuais orgânicos e sindicalistas,
todos em busca de alternativas às velhas estruturas herdadas do
populismo e da ditadura.
Para nós,
que vivemos intensamente este momento de utopias, o pensamento
crítico de Sergio Ferro representava um ponto de partida necessário
e, ao contrário de ser paralisante, era uma força motora de
uma práxis conseqüente e fundamentada, para usar termos de
Pedro Fiori Arantes, organizador deste necessário e competente
livro que reúne a obra quase completa de reflexão sobre arquitetura
que Ferro produziu em quarenta anos de atividade crítica. Só agora,
a partir desta feliz iniciativa, as velhas e novas gerações podem
entender a abrangência de sua obra, sua seqüência, que tanto tem
a ver com o Brasil contemporâneo e, o que é mais importante, refletir
sobre os desafios que temos que enfrentar para encontrar novas
alternativas para a prática profissional.
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A obra quase
completa de Sergio Ferro, Arquitetura e trabalho livre
(Editora Cossacnaify) divide-se em sete partes. Arantes fez mais
que reunir textos dispersos; estruturou uma trajetória do pensamento
de Ferro, marcada por pontos de referência ou de inflexão: proposta,
corte, esboço, tese, Grenoble, recapitulações brasileiras e comentários
finais.
Proposta
reúne textos do início da década de 60, em conjunto com os parceiros
Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, publicados na Revista Acrópole.
Textos de época, de acesso restrito, que eram conhecidos apenas
por aqueles que tinham tido contato com os autores, como os seus
ex-alunos, ou alguns poucos interessados das gerações mais novas.
Nestes textos encontra-se a definição da poética da economia e
a elaboração dos princípios da “arquitetura nova” que irão desenvolver
ao longo da década de 60. São as primeiras casas em abóbadas,
as experimentações espaciais e construtivas que definem “as novas
casas de morar”. Trata-se da única parte do livro (e da carreira
de Ferro) em que ele praticou arquitetura, em busca de novas alternativas
construtivas e de inserção dos trabalhadores da construção.
Corte,
Esboço e Tese reúnem os textos que apresentam o cerne da reflexão
crítica de Ferro: Arquitetura Nova (1967), A produção
da casa no Brasil (1969) e O canteiro e o desenho,
a tese de Ferro, originalmente publicado como dois artigos separados
pela revista Almanaque em 1976 e depois reunidos em uma única
publicação pela Pró Livros em 1979. Estes três textos expressam
de modo sucessivo a determinação do limite do projeto de poder
da arquitetura moderna brasileira, as contradições do processo
de produção da arquitetura e a elaboração de sua principal crítica
“o canteiro e o desenho”.
Grenoble
constitui o maior “presente” da publicação para os leitores assíduos
de Sérgio Ferro, por se tratar de textos (com exceção de Reflexões
para uma política na arquitetura) ainda inéditos em nosso
país e que trazem ao público brasileiro a experiência de ensino
e pesquisa que Sérgio Ferro realiza na França em sua importante
atuação na Escola de Arquitetura de Grenoble. Este trabalho desenvolve
as propostas iniciadas no Brasil em um método de pesquisa em história
da arquitetura que inclui uma avaliação dos processos de produção
e dos canteiros da arquitetura, criando um conjunto de categorias
de análise construtiva da obra e de sua relação de pertinência
com o desenho. Desta forma, a sua contribuição retorna ao Brasil
e as novas e velhas gerações de arquitetos brasileiros podem reaver
um importante interlocutor e teórico da arquitetura brasileira,
usufruindo assim de um conjunto bastante completo e representativo
de seu pensamento.
É de se esperar
que estas suas propostas de ensino e pesquisa em arquitetura sejam
lidas e debatidas nas instituições universitárias brasileiras
e que crie, como ocorreu com a sua arquitetura experimental dos
anos 60, um profícuo ambiente para a construção de uma nova teoria
da arquitetura brasileira, como Ferro foi capaz de realizar em
relação à arquitetura européia. É uma pena estarmos falando nisso
quando na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP parece estar
sendo discutida a extinção da disciplina História das Técnicas,
onde em plena ditadura militar, graças à coragem dos professores
Rui Gama e Júlio Katinski, estudávamos como leitura obrigatória
os mesmos capítulos do Capital que Ferro utiliza na sua análise
do canteiro.
A parte
Recapitulações brasileiras traz um conjunto de entrevistas
e textos dispersos, alguns inéditos e outros pouco conhecidos,
que respondem a diversas solicitações de estudantes, arquitetos,
e pesquisadores brasileiros em temas e condições específicas.
São uma contribuição de sua memória e de sua história no Brasil.
Integram este segmento a importante entrevista concedida a Marlene
Acayaba no final da década de 80 e as entrevistas concedidas a
Pedro Fiori Arantes e Guilherme Wisnik. Em Considerações finais,
Ferro faz um balanço sobre O canteiro e o desenho realizado
para a Escola de Arquitetura de Grenoble, quando da sua aposentadoria
em 2003 e conclui com um texto novo, uma espécie de dialogo com
os jovens arquitetos, conselhos para um desenho que inclua a condição
de transformação de suas determinações pelos produtores da arquitetura,
um desenho aberto e não autoritário. Um fecho que é uma abertura
para a construção de uma arquitetura libertária.
O livro é
concluído com um instigante posfácio de Roberto Schwartz – Saudação
a Sérgio Ferro, escrito especialmente para a cerimônia de homenagem
realizada na FAUUSP 18 e 19 de abril de 2005, que compreendeu
a entrega pela Câmara Municipal da medalha Anchieta e do Diploma
de Gratidão de São Paulo ao arquiteto e duas mesas de discussão
sobre sua obra. Roberto Schwartz apresenta de modo sintético a
contribuição de Ferro e com a sua ironia machadiana tenta decifrar
o significado do resgate da obra de Sérgio Ferro. Em Arquitetura
e Trabalho Livre o leitor de poderá encontrar várias contribuições
de Ferro ao pensamento crítico brasileiro.
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O percurso
do pensamento e da prática de Ferro mostra bem que, ao contrário
do que afirmaram muitos dos que, nos anos 70 e 80, combateram
o posicionamento de Sérgio Ferro – chamado por alguns de traidor
–, sua ação prática e teórica construiu uma visão crítica que
transformou radicalmente a percepção de nossa atribuição profissional.
Ao desmistificar os principais conceitos manipulados na ação projetual,
a arte e a técnica, Ferro cobra dos arquitetos a conseqüência
imediata desta ação na produção do espaço, da arquitetura à cidade.
Sua crítica,
difundida principalmente através do livro O Canteiro e o Desenho
, onde Ferro aprofunda a análise da exploração do trabalhador
e da expropriação de seu saber no canteiro de obras, foi entendida
como paralisante por alguns arquitetos defensores de uma prática
projetual baseada no "subjetivismo" (1) da beleza não
mais identificada aos cânones do passado, mas sim à valorização
incondicional de uma suposta técnica industrial de produção da
arquitetura e seu universo visível- a estética da máquina.
É certo que
não cabe no escopo da atuação profissional do arquiteto “resolver”
todos os processos de exploração da força de trabalho e todos
os mecanismos de reprodução do capital instalados em sua prática.
Esta impossibilidade, no entanto, não invalida a critica, não
a transforma em traição e tampouco é impeditiva da própria atuação
profissional. Mas a crítica de Sérgio Ferro – num contexto de
crise da arquitetura que se tornou inevitável no pós-64 – foi
tomada como paralisante e as reações possíveis dividiram-se de
modo bastante maniqueísta em adesão e abandono da prática profissional
ou recusa do engajamento político e defesa de uma ação projetual
“autônoma”.
Em 1964, com
o golpe militar, as perspectivas de integração dos projetos de
esquerda ao Estado se tornaram inquestionavelmente mais complicadas.
Arquitetura Nova, junto ao texto de Roberto Schwarz Cultura
e Política 1964-1969 (2) expressam com clareza o momento de expectativa/
frustração pelo qual passam os arquitetos, no caso do texto de
Ferro, e os intelectuais e artistas, no caso do texto de Schwarz,
frente ao destino trágico de sua efetiva participação no Estado.
A crítica
de Ferro situada no apogeu e crise da participação dos arquitetos
no Estado nos trouxe mais do que um efeito paralisante, mas uma
saída bastante concreta de re-construção das relações entre os
arquitetos, a sociedade e o estado. Não o modelo do exercício
demiúrgico estatelado no bojo das políticas de desenvolvimento
do país mas sim um modelo de atuação pública baseada na interferência
possível realizada a partir das demandas de uma sociedade que
buscamos participar, organizar, representar, propor e sobretudo
ouvir.
Notas
1
O termo é definido por seu companheiro, Rodrigo Lefèvre em
Notas de um estudo sobre objetivos do ensino da arquitetura e
meios para atingi-los em trabalho de projeto, FAU USP 1977.
Neste texto o autor diferencia as atitudes subjetivas potencialmente
transformadoras da realidade daquelas subjetivistas, oriundas
de pré-conceitos estéticos que determinam a frustração do potencial
transformador do sujeito para a reprodução da realidade existente.
2
Arquitetura Nova de Sérgio Ferro foi publicado pela revista teoria
e prática em 1967 e Cultura e Política 1964-1969 de Roberto Schwarz,
foi publicado em publicado em O pai de família e outros estudos
em 1978.
Resenha
publicada originalmente na revista Teoria e Debate, nº
66. São Paulo, NERU, abr./maio/jun. 2006, São Paulo
Nabil
Bonduki, é arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da USP. Foi vereador pelo PT em São Paulo e autor do
Projeto de Resolução que propôs a concessão do Diploma de Gratidão
de São Paulo ao arquiteto Sergio Ferro.
Ana Paula
Koury é arquiteta e professora do curso de arquitetura da Universidade
São Judas Tadeu Doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP é autora do livro Grupo Arquitetura Nova, Flávio Império,
Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro.
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