Curitiba
e Portland: ingredientes comuns, resultados distintos
resenha
de rosa moura
A despeito
de diferenças geográficas e culturais, as cidades Curitiba e Portland,
esta no Oregon, Estados Unidos, têm em comum o generalizado reconhecimento
como exemplares no planejamento e desenho urbano, apresentando
similaridades em fatores que influenciaram seu desenvolvimento
nas últimas décadas. A obra City making and urban governance
in the Americas. Curitiba and Portland aprofunda-se na análise
comparativa entre elas.
Para a autora,
as experiências dessas cidades permitem explorar dinâmicas de
governança associadas a determinadas sistemáticas de planejamento,
e seu papel na elevação dos níveis de livability urbana
e democracia. Ilustram áreas urbanas sob pressão de intenso crescimento,
tendo respondido aos desafios postos com o que pode ser qualificado
entre os mais renovados e abrangentes esforços em planejamento.
Enfrentando tendências negativas, essas cidades oferecem, com
relativa eficiência nos resultados, exemplos de tratamento integrado
de questões como crescimento populacional acelerado e suas relações
com uso do solo, transporte e sustentabilidade.
Clara Irazábal
integrou-se à vida cotidiana dessas cidades, para desmistificar
imagens impostas ao senso comum. Critica a limitação das muitas
pesquisas que se restringem a instituições de governo e à base
econômica dessas cidades, dado que assumem esses elementos como
chaves para o sucesso das políticas locais. Salienta que para
reconhecer o efetivo papel da governança e da participação cidadã
é necessário explorar temas referentes a poder, cultura e subjetividade
na produção do espaço. Admite que há uma única sinergia derivada
da combinação de três componentes que produzem extraordinários
resultados no processo de planejamento: liderança visionária,
ampla e contínua; planos e políticas abrangentes, coordenados
e efetivos; empowerment, inclusão e envolvimento sustentado
dos cidadãos. Conclui que, no caso das cidades analisadas, ambas
tiveram fortes lideranças e efetivos planos e políticas, mas pecaram
no tocante à participação, seja pelo excesso – como em Portland,
cujo exercício constante de construção e manutenção do consenso
tem por vezes se tornado exaustivo e oneroso –, seja pela ausência
– como em Curitiba, onde a preocupação de cidadãos, políticos
e ONGs é quanto à sua não inclusão na dinâmica de planejamento
–, seja ainda pela má administração dos processos participativos
– situações que colocam os modelos em risco.
Uma introdução
remete ao debate teórico da convergência ou divergência, sob argumento
de que a discrepância entre as duas teorias está mais na aparência
que na essência. Para a autora, um dos elementos considerados
na convergência é a presença de traços da arquitetura e do urbanismo
da globalização, independentemente da localização das cidades,
perceptíveis na concentração espacial dos negócios internacionais,
na gentrificação de áreas centrais, na fragmentação de espaços
públicos, resultando na fortificação de condomínios e na guetificação
de segmentos excluídos da população, entre outras características.
O mesmo elemento tem potencial na formação de novas identidades,
influindo no teor das contestações sociais e políticas da cidadania,
alimentando assim a divergência.
Resgata de
Cohen, sobre a convergência, que fatores econômicos, sociais,
infra-estruturais, ambientais e institucionais vêm criando problemas
similares em áreas urbanas, independentemente do nível de desenvolvimento
das cidades. O que difere são as condições desiguais para enfrentar
problemas, determinadas pela cultura local, capacidade de manejo
financeiro e gestão, recursos disponíveis e organização política.
Paradoxalmente à globalidade, a grande similaridade não deixa
de advir do fortalecimento do fenômeno de afirmação do local no
contexto geográfico internacional.
Das correntes
contestadoras, destaca argumento de AlSayyad, de que não há um
significado único que condicione distintas expressões do local.
Ele questiona os indicadores socioeconômicos citados por Cohen
e a extrema importância do meio construído, apontando que as similaridades
desse meio são meras aparências, e que é imprescindível considerar
as diferenças entre os processos históricos da colonização e pós-colonização,
a condição de dependência, independência e nacionalismo, assim
como discernir os condicionantes culturais e históricos que explicam
o desenvolvimento físico das cidades.
Essas idéias
são aferidas na leitura comparativa do decorrer do trabalho. Na
parte I, Cidadãos e suas Cidades-Estado: uma abordagem da governança
para o desenvolvimento urbano, uma reflexão teórica sobre
governança urbana e participação nas definições dos modelos aprofunda
a discussão conceitual sobre governança, como um processo que
transcende o Estado. É proposto seu uso, juntamente com o de participação
cidadã, como ferramenta para compreensão dos processos urbanos
e instrumento de inclusão de agentes da sociedade no planejamento
e gestão da cidade.
A parte II,
Governança e a prática do urbanismo nas Américas (1960 e 2003):
Curitiba e Portland, discorre acerca da perspectiva de políticas
de desenvolvimento urbano e regional. Para desvendar Curitiba,
além de explorar os determinantes do regime político vigente e
do seu projeto hegemônico de planejamento, a autora contrapõe
a aclamação internacional do modelo à voz quase isolada de alguns
pesquisadores e ativistas nacionais, combinada a evidências empíricas
de seu trabalho de campo. Identifica fatores que fragilizam o
modelo de planejamento e governança, e que podem resultar na erosão
do grau de reconhecimento conquistado.
Sobre Portland,
destaca elementos que permitiram a transformação recente do meio
ambiente urbano, conjugando a ação dos diferentes níveis de governo
à contínua participação da sociedade civil. Juntos, definiram,
defenderam e implementaram planos locais e regionais destinados
a acomodar crescimento com sustentabilidade do meio natural, livability
urbana, e a lograr destaque econômico da cidade na região. Ação
esta que não esteve isenta do clima de tensão da instabilidade
crônica dos programas urbanos em estruturas mais fechadas do poder
municipal, incorrendo às dificuldades inerentes às negociações
e construção do consenso – premida entre grupos pró-crescimento,
anticrescimento, ou a favor do crescimento smart, qual
seja, aceitando sua inevitabilidade, mas alegando que o mesmo
deve ser conseqüentemente planejado para provocar o mínimo de
danos ao meio e ao desenvolvimento da metrópole como um todo.
Na parte III,
O meio construído na Era da Globalização: o fazer a cidade e a
(re)produção da desigualdade social e espacial em Curitiba e Portland,
são destinados capítulos específicos às temáticas contemporâneas
do debate urbano, alternando-os entre essas cidades. É dada centralidade
à importância que as metrópoles vêm assumindo na economia global
e na nova ordem social, e aos impactos, no meio construído, resultantes
das dinâmicas desse processo fortemente competitivo. A autora
antecipa que a oferta de moradia não apenas reflete as desigualdades
socioespaciais como as determina, atribuindo-lhes especificidades
conforme a cultura local. Mostra como alguns produtos da arquitetura
são destinados a criar uma imagem contemporânea da cidade, ampliando
seu grau de competitividade no mundo globalizado. A análise observa
como as formas globais de dominação são mediadas pelas lutas e
cultura locais.
Particulariza
em Curitiba a leitura sobre as cidades muradas e edge-cities,
expressivos elementos do design urbano da globalização,
tornando-se as novas formas de produção e consumo do espaço, sob
comando do capital imobiliário internacional. Formas que provocam
mudanças no caráter do espaço público e na participação dos cidadãos
na vida pública, impactam as escalas regional e metropolitana,
introduzindo elementos de alienação, porém, paradoxalmente, permitindo
recriar a possibilidade da vida em comunidade – positividade posta
em dúvida por autores como Bauman.
Analisa a
arquitetura e a construção da imagem, abordando detidamente a
evocação da tradição versus transnacionalismo crítico.
Discute a configuração simbólica e espacial de Curitiba como cidade
multicultural no tocante à formação étnica, preservação e representação,
invenção e commodificação da tradição no meio construído,
assim como as reivindicações e contestações que se sobrepõem à
subjetividade social e ao espaço urbano. Demonstra como a tematização
de instalações que exploram o vernacular é uma das práticas mais
usadas oficialmente pelo município, evocando tradições arquitetônicas
do Primeiro Mundo em prol da construção da imagem urbana e do
turismo. A criação dos inúmeros (e seletivos) memoriais étnicos
se insere no processo singular de reinventar a tradição, no qual
uma definição do futuro é contemplada na reconstrução editada
do passado.
Em Portland
situa a reflexão sobre controle do crescimento e oferta de moradia,
com suas tipologias arquitetônicas contrastantes e pontos de vista
conflitantes sobre planejamento. Foca a análise nos projetos Street
of Dreams e Cascadian Tower, divergentes na retórica
da qual derivam e nos seus impactos nos planos oficiais da cidade.
Tais projetos subvertem ou reinterpretam planos desenhados sob
visão das estratégias de gestão do crescimento e na compreensão
urbana do Oregon, representando pontos de vista opostos sobre
a necessidade de densificação e refletindo os debates sobre preservação
ou expansão das fronteiras do crescimento metropolitano. Trazem
ainda elementos para a discussão de cyber comunidades ou
experiências simultâneas de vida espacial e a-espacial.
No capítulo
Nike vis a vis Adidas: espacializando o planejamento regional
investiga em que contexto as sedes desses complexos corporativos
foram concebidas e se instalaram em Portland, enquanto produtos
de ou reações às principais posturas do discurso do
planejamento na metrópole. A comparação incorpora a tensão entre
a tríade de premissas em oposição ao planejamento: criação de
tipologias suburbanas X tipologias urbanas; produção ou proteção
da natureza X comunidade; e processo de design imposto
autoritariamente (top-down) X discutido pelas bases (botton-up).
A arquitetura da sede da Nike foi conceitualmente concebida com
base nas premissas de proteção e enaltecimento do meio ambiente
e desejo de incorporá-lo no cotidiano das pessoas, afeto aos objetivos
conservacionistas da agenda de planejamento das metrópoles dos
anos 1960/1970. Diferentemente, a arquitetura da Adidas Village
justifica-se na criação de comunidades sociais mais densas, mais
habitáveis, meios físicos urbanos mais inclusivos, correspondendo
ao movimento recente do planejamento socialmente-orientado e à
agenda social da metrópole, voltada à inclusão e promoção.
Todas essas
idéias se articulam no epílogo Governança Urbana e o Fazer
a Cidade na América. Inicialmente são sumarizadas as semelhanças
e diferenças entre os processos de planejamento e governança das
duas cidades, postulados alguns desafios que devem ser enfrentados
e alguns ensinamentos a serem aprendidos em prol de seus modelos.
Seguidamente, são enumeradas as implicações de uma análise eclética
da governança urbana para avaliar processos de planejamento, design
e arquitetura urbana, e anotadas propostas e direcionamentos de
pesquisas.
Quanto aos
desafios de Curitiba e Portland nas próximas décadas, as conclusões
de Clara Irazábal sugerem que serão determinados pela interação
com o mundo global, cabendo evitar riscos maiores de fragmentação
e de perda de identidade local – efeitos estes entre os mais negativos
do processo. Como essa interação pressupõe tecnologia, fluxos
de informação e poder financeiro, Portland estaria apresentando
melhores chances que Curitiba, dada sua inserção em segmentos
da indústria eletrônica e condições para o desenvolvimento de
estratégias de inovação tecnológica. Curitiba, além de se apoiar
em atividades centradas em segmentos industriais não estratégicos
à nova ordem, teria ainda de enfrentar as contingências econômicas
e financeiras do País.
Com otimismo,
salienta que as forças da globalização, entretanto, não são tão
fortes a ponto de excluir a autonomia de iniciativas locais. Perante
problemas urbanos, experiências de governança, planejamento e
produção arquitetônica e urbanística, se aplicadas eficazmente
como mediadoras das forças globais, colocando em vigor especificidades
das culturas locais, podem promover mudanças substantivas, reavivando
a esperança nos resultados positivos da participação democrática
no processo de fazer a cidade.
Uma versão
mais pormenorizada desta resenha foi publicada na Revista Paranaense
de Desenvolvimento. Curitiba, IPARDES, n.109, p. 165-171,
jul./dez. 2005.
Rosa
Moura, geógrafa do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico
e Social (IPARDES), pesquisadora do Observatório das Metrópoles
– Projeto Institutos do Milênio – CNPq.
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