Arquitetura
e lógica: análise e métodos computacionais
generativos
resenha de sergio pastana righetto
Às vezes deparamos
com algumas oportunidades que nos surgem para que, a partir da
leitura de um livro, nossa concepção sobre determinado assunto
passe por transformações que nos fazem reavaliar posturas há tempos
adotadas sobre arquitetura, teoria e método de projetar. Pode-se
dizer que esta obra de William Mitchell é um destes livros, que
pode contribuir muito na reavaliação do que entendemos como qualidade
em obras de arquitetura. Afinal, já que o objetivo do autor é
apresentar uma maneira sistemática de se avaliar a qualidade de
uma obra arquitetônica, melhor seria constatar mesmo como isto
pode se dar, pois a crítica sobre o que é bom em arquitetura muitas
vezes pode ser vazia pela falta de uma estrutura lógica que considere
organizadamente todos os parâmetros de qualidade.
Outro aspecto
que chama a atenção nessa importante obra é a presença de bases
teóricas do “computational design” com o objetivo
de oferecer suporte ao desenvolvimento de programas destinados
a auxiliar o arquiteto no processo de projeto. Termo causador
de grande confusão, “computational” nos leva automaticamente
a considerá-la somente no uso do computador, quando pode ser também
entendida no sentido de uso de operações lógico-matemáticas para
se atingir determinado objetivo em “design” (palavra
também de espectro muito amplo, que pode variar desde a criação
de uma caneta até a concepção de toda uma cidade).
A partir da
clássica discussão sobre a forma e a função dos edifícios –
advinda da também clássica frase de Louis Sullivan de que “a
forma deveria seguir a função”, onde nem forma, função ou
seguir são termos precisos –, o autor pretende definir melhor
esses termos, elucidando assim a estrutura do pensamento arquitetônico.
Como? Mostrando
como as linguagens arquitetônicas podem ser estabelecidas, interpretadas
e interligadas. Não apenas no aspecto funcional, o que pode tornar
o ato de projetar em simplesmente construir edifícios, mas também
com uma intenção retórica e uma preocupação com qualidades formais,
o que torna o ato de projetar em também fazer arquitetura. Daí
o interesse do autor pelos usos práticos e poéticos das linguagens
arquitetônicas.
A abordagem
do autor parte de algumas idéias da lógica moderna, acrescentando
informações sobre pesquisas em Inteligência Artificial e Ciência
Cognitiva. No início, o autor demonstra como os edifícios podem
ser descritos com palavras e como essas descrições podem formalizar-se
com a utilização da notação de cálculo de predicados de primeira
ordem, objetivando a busca de uma linguagem crítica na descrição
da qualidade dos edifícios. Também é abordada a questão da representação
por meio de desenhos e maquetes, desenvolvendo a questão de mundos
projetuais de acordo com determinadas regras gramaticais.
Como o próprio
autor afirma na introdução do livro, e parece ser esta a essência
da obra, o processo projetual é apresentado como “um processo
de operações lógicas dentro de mundos projetuais, tendo como objetivo
satisfazer predicados de forma e função declaradas em uma linguagem
crítica”.
As três partes
principais de sua tese estruturam-se de forma que, em primeiro
lugar propõe-se que a relação entre crítica e projeto arquitetônico
seja entendida como uma questão de semântica de uma linguagem
crítica em um mundo projetual, semântica verdadeira e funcional.
Depois o autor demonstra como mundos projetuais podem ser especificados
por gramáticas formais. E em terceiro lugar demonstra que “as
regras de tais gramáticas são uma codificação da maneira de se
gerar edifícios que funcionam adequadamente, mostrando desta forma
que a relação entre forma e função é fortemente influenciada pelas
regras sintáticas e semânticas sobre as quais o projetista opera”,
conforme palavras do autor no prefácio do livro.
Como objetivo
de ordem mais prática, o autor levanta algumas questões relevantes
no sentido de se desenvolver uma teoria computacional do projeto
que seja mais abrangente e rigorosa para fornecer uma base adequada
para o desenvolvimento de implementações, em contraponto às atuais
bases teóricas do CADD (Computer Aided Architectural Design) que
são raramente explicitadas, ou quando o são, acontecem de forma
frágil e inconsistente.
A preocupação
em alicerçar fundamentos teóricos na área de arquitetura e design
é evidente, porém, ao contrário do que é afirmado na introdução
do livro, o conhecimento prévio de conceitos de lógica (de antiga
origem na filosofia e que atualmente aproxima-se muito da matemática),
de Inteligência Artificial, de Ciência Cognitiva e de Computação
Gráfica, ajuda muito na clara compreensão dos conceitos apresentados.
Nas referências acrescentadas ao final de cada capítulo encontram-se
ricas informações que possibilitam ao leitor se aprofundar nos
temas referidos. Se por um lado certo conhecimento prévio destes
temas é desejável, o problema fica resolvido nas notas de tradução
introduzidas a medida que surgem termos que requerem algum conhecimento
prévio que são de muita valia na compreensão e aprofundamento
do livro (1).
Percebe-se
também a intenção didática ao citar como exemplos, acompanhado
de fartas ilustrações, as linguagens aplicadas a edifícios clássicos
como templos gregos e romanos, assim com as vilas Paladianas.
São exemplos onde o autor demonstra e sistematiza as intenções
de projeto, além de também mostrar como elas se repetem como repertório
aplicado às obras de determinados arquitetos. No capítulo final
o autor chega até a citar a obra de Le Corbusier, numa demonstração
de que a arquitetura moderna e contemporânea também possui regras
de composição arquitetônica.
Do estilo
literário adotado pelo autor, complementado por ilustrações as
vezes simples porém precisas, conclui-se que há formas criativas
de escrever sobre temas usualmente difíceis de serem tratados
apenas com palavras. Pode-se afirmar então que a interação entre
texto e imagens favorecem a atingir os objetivos a serem alcançados
pelo autor. A leitura flui e ao mesmo tempo nos faz buscar as
figuras para ilustrar o que se lê, além da busca pelas referências
sugeridas.
Quanto à contribuição
desta obra à teoria arquitetônica no que diz respeito ao ensino
da arquitetura no Brasil, vem ocupar um espaço muito pouco explorado
por nossos pesquisadores e que abre campo àqueles que desejem
aprofundar mais os estudos da lógica na arquitetura e também,
considero mais importante ainda, àqueles que queiram explorar
mais a fundo a questão do uso da Computação Gráfica na produção
arquitetônica nacional, a qual ainda se manifesta de forma muito
primitiva em comparação à produção internacional que faz uso da
Computação Gráfica de forma intensa e generativa, em contrapartida
à produção nacional que na sua maioria ainda faz uso da Computação
Gráfica de forma representativa apenas.
Uma amostra
da contribuição que este livro de Mitchell pode dar ao desenvolvimento
do uso mais intenso da tecnologia informatizada na produção nacional,
está nas imagens do projeto de visual topológico que ilustram
esta resenha, de autoria do escritório norte-americano Eric Owen
Moss Architects. Um exemplo de arquiteto escultor que parece reforçar
a via escultural de seus projetos com o uso intenso da tecnologia
informática, conforme observado por James Steele em seu livro
Arquitectura y revolucion digital (2).
Arquitetos
escultores de qualidade o país já possui. Imagina-se com as ferramentas
informatizadas de desenho e manufatura de modelos disponíveis
ou a serem desenvolvidas, como se enriqueceria a arquitetura da
já qualificada produção nacional.
Notas
1
A resenha foi feita para a disciplina “Lógica do Projeto
Arquitetônico IC-058”, do curso de pós-graduação da Faculdade
de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual
de Campinas, a partir da tradução inédita da professora responsável
pela disciplina, Gabriela Cellani.
2
STEELE, James. Arquitectura y revolucion digital. Barcelona,
Gustavo Gilli, 2001.
Sergio
Pastana Righetto é arquiteto formado pela FAU PUC-Campinas.
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