Sob
a luz da Atica: Le Corbusier e o desvelamento da arquitetura
resenha de margareth da silva pereira
A viagem
do Oriente permite múltiplas leituras e explorações: relatos
de um jovem artista sobre suas experiências de viagem; livro de
iniciação a roteiros ainda hoje pouco conhecidos através dos Bálcãs
até Atenas e Istambul; instrumento para os que desejam compreender
as formas de sensibilidade das vanguardas modernas; obra de educação
estética. Contudo, o interesse cresce quando descobrimos que este
foi, coincidentemente, o primeiro e o último texto escrito por
Le Corbusier. É preciso voltar ao verão de 1965 e às circunstâncias
de sua publicação para compreender esse paradoxo.
Naquele ano,
Le Corbusier se organiza mais uma vez para passar as férias em
sua casa de praia de Roquebrune, no Cap Martin, às margens do
Mediterrâneo. Falar de casa aqui talvez seja um excesso. Em Roquebrune
ele vive em uma simples cabana de madeira quadrada – um
cubo – ao qual ele anexou um segundo volume isolado onde
trabalha, depois de nadar, a cada manhã. Feita de ripas de madeira
à maneira das construções das favelas, desenhadas pelo arquiteto
em suas viagens ao Brasil, elas possuem uma geometria elementar
que lhe interessa desde quando era apenas Charles-Edouard Jeanneret,
na escola maternal de Chaux-de-Fonds.
Ali, sem saber,
ela já seguia o método pedagógico de Friedrich Fröbel de iniciação
da criança ao conceito harmônico de “unidade vital”
entre homem e meio ambiente e manipulava esferas, cubos, cilindros
e triângulo, desenvolvendo o conhecimento da geometria elementar
da natureza, antes mesmo do aprendizado de letras ou números.
Mais tarde, o estudo da Antiguidade, da arqueologia e as viagens
levou-o a descobrir que essa geometria à que fora iniciado era,
ela mesma, uma conquista, uma invenção. Anos a fio ele exporá
a sua tese de que a história do homem, como espécie, se confunde
com a sua capacidade de decompor o intrincado mundo natural em
termos matemáticos e, sobretudo, geométricos. Sua cabana
reatualizava, como em outras obras, esse sentido primeiro e absoluto
da forma que ele pensava ver claramente enunciado em tantos exemplos
nas culturas dos “selvagens”, dos “primitivos”
e se opor, em sua “economia”, aos aspectos “trágicos”
da civilização maquinista.
Em Roquebrune
ele ama estar assim nessa situação primeira de completo despojamento.
Andar e sentir-se nu – digno e por inteiro – como
esses primeiros homens pelos quais, não só ele se interessa onde
quer que estejam mas com os quais se identifica. Entretanto, compromissos
ainda o prendem em Paris. Não é apenas o desenvolvimento do projeto
do Hospital de Veneza ou os novos estudos para a escultura A
mão aberta para Chandigarh. Neste inicio de verão, além de
suas atividades de arquitetura no escritório na Rue de Sèvres,
ele se dedica à preparação de dois manuscritos que deseja publicar:
A viagem do Oriente e Mise au Point. Diariamente, manhã
ou tarde, homem das montanhas que aprendera a amar o mar, Le Corbusier,
leitor de Hemingway capaz de copiar em seus cadernos páginas de
seus livros, permanece em um outro “arquipélago”:
sua casa na Rua Nungesser e Coli.
No amplo volume
da sala, o verão começara com temperaturas altas e pesava. E Paris,
ora Paris, contraponto a Roquebrune, definitivamente não era agradável
nessa época do ano. No apartamento do sétimo andar, as janelas
correm de ponta a ponta e o sol acompanhado de uma leve brisa
penetram diretamente no atelier até alcançar, numa diagonal, o
grande muro de pedras rústicas. O velho muro preservado à época
da construção do edifício, embora ajudando a construir as linhas
de força e o ritmo da própria sala, tornara-se, com o tempo mais
que isso: era um companheiro, um amigo. É nessa diagonal de luz
e de forças que, neste mês de julho, Le Corbusier desenha, pinta
mas também lê, reavalia, toma notas minuciosamente e prepara o
texto definitivo de A viagem do Oriente.
Mais de meio
século havia se passado desde maio de 1911, quando partira de
Berlim com seu colega Auguste Klipstein, rumo à Oeste buscando
refazer, às avessas, a história da cultura do Ocidente. Berlim,
Dresden, Praga, Viena, Budapeste, Constantinopla, Monte Athos,
Atenas… A meta era o Egito, mas a viagem, por razões de
saúde, acabou sendo encurtada – Brindisi, Nápoles, Pompéia,
Roma…Desde o inicio do século XIX, a rota para o Oriente
atraía cada vez mais escritores e artistas e Le Corbusier não
só admira as odaliscas de Ingres como os ambientes de cores densas
de Delacroix. Lê também os romances de Pierre Loti e de Claude
Farrère sobre o Nilo e Istambul, pede conselho a amigos e prepara-se,
lentamente, naqueles anos, para encontrar no Oriente a unidade
vital que muitas vezes lhe parecia já perdida na Europa.
O manuscrito
sobre esta sua viagem já estava pronto há décadas. Capítulo por
capítulo, ele fora redigido durante os mais de cinco meses em
que atravessou com Auguste paisagens desconhecidas e insólitas,
sentindo o peso da história diante de formas diferenciadas de
celebração da vida ou de gestos construtivos simples. Perdidos
no isolamento de aldeias, diante da violenta beleza de cenários
naturais ou de ruínas de civilizações inteiras. Tinha 23 anos
e este havia sido seu primeiro esforço em ordenar e registrar
suas observações e impressões pensando em um potencial leitor.
Alguns capítulos foram publicados como uma espécie de novela em
um jornal de Chaux-de-Fonds. Mas ele se aborrecera com as críticas
do editor à sua escrita metafórica e sobretudo com as “correções”
feitas no texto e que desvirtuavam, sistematicamente, suas tentativas
de fazer a mediação com palavras de um mundo que se apresentava
como de puros efeitos visuais e reações sensíveis. A publicação
acabou sendo interrompida.
Três anos
mais tarde, em 1914, um editor parisiense decidiu publicar o texto
na íntegra. ‘A época o jovem Jeanneret introduziu alguns
parágrafos, esclareceu um pouco mais esta ou aquela idéia, mas
veio a guerra e a publicação foi abandonada. Nos anos 20, já travestido
em Le Corbusier, a defesa da nova arquitetura lhe pareceria mais
urgente. Mas os ecos do Oriente continuariam a percorrer seus
livros-manifestos como Vers une architecture, Urbanisme, L’art
decoratif d’aujourd’hui, Almanach d’architecture
moderne, e as páginas dedicadas a tantas outras viagens –
como, em Précisions, por exemplo.
Antes da viagem
ficara seduzido com as vistas da velha Constantinopla pintadas
por Paul Signac, quase tanto quanto com a economia do traço de
Cézanne ou com as cores de Matisse. Reconheceria a paleta de uns,
reproduziria o traço rápido do outro diante de diversas situações
neste Oriente que começou a revelar seus contornos luminosos desde
que começou a descer com o Danúbio as planícies da Hungria. Voltara
com centenas de imagens de vilarejos perdidos na Sérvia, na Bulgária,
na Romenia, de monumentos e de paisagens mediterrâneas. Um conjunto
de desenhos e de fotos, estas tiradas com sua moderníssima câmara
Cupido que o acompanhara em suas incipientes experimentações fotográficas.
Nessa época a câmara fotográfica serviria como um instrumento
de trabalho: ela lhe auxiliava a aperfeiçoar seu próprio olhar
na identificação rápida, sintética e seca da forma.
Recordava
como se encantava naqueles anos, com a magia que a fotografia
possibilitava de fixar a forma imediatamente, graças à velocidade
de seu obturador. É verdade, à medida que foi aprendendo a desenhar
ainda com maior rapidez, traçando apenas planos, superfícies,
pontos e linhas, aposentara a velha e tão útil Cupido em um dos
armários, declarando que a fotografia “levava à preguiça”.
Entretanto, talvez tivesse sido aqui nesta viagem que ele havia
estabelecido a diferença capital entre ver e olhar e estabelecido
um mesmo método de observação da arquitetura quer se tratasse
de casas camponesas com seus caramanchões coloridos e suas varandas
treliçadas ou de monumentos consagrados.
Eis que guardara
por mais de cinqüenta anos não só a câmara e as fotos, mas também
as suas aquarelas e croquis com os efeitos amarelos e vermelhos
dos crepúsculos de Atenas ou com o branco azulado das mesquitas
de Istambul. Em Constantinopla, seguindo as lições da velha Bizâncio,
as construções encarapitadas nas colinas, chegavam a um grau de
compactação, que sua geometria como que desfalecia para guardar
apenas a forte impressão de silhuetas ritmadas pelos minaretes…
A arquitetura atingia então uma operação de transmutação violenta
e de pura matéria, nessa intensificação, ela se tornava puro espaço,
ritmo, música. Mas o apogeu seria o Partenon. Lendo a Oração
sobre a Acrópole de Ernest Renan, obra que comprou em Atenas,
ele cultuaria a luz da Ática e inspirando-se em Paul Valéry e
Nietzsche, se questiona sobre a força moral “necessária”
ao artista para atingir a perfeição da forma.
Certamente
foi amadurecendo a idéia do manuscrito de Mise au point
– grande balanço autobiográfico de sua vida e obra, como
já dizia o título – e mexendo em seus velhos desenhos e
notas que Le Corbusier também decide retirar A Viagem do Oriente
do esquecimento. Afinal era curioso como se reconhecera à leitura
daquele manuscrito de 1911 e publicar o conjunto desses textos
de juventude à luz de sua própria vida, agora, aos 77 anos, fazia
sentido. Mise au Point era a resposta às questões que formulara
e deixara em aberto em 1911 sobre o futuro da arte e da arquitetura.
Não, a decisão
de Le Corbusier em publicar, 54 anos depois, em 1965 A viagem
do Oriente, não foi guiada pelo desejo de trazer a público
as suas hesitações e descobertas de jovem, como chegaria a pensar
até mesmo seu amigo, o editor Jean Petit. Trata-se de publicar
lado a lado, dois livros: um de impressões e perguntas, outro
de respostas – as respostas que conseguira dar a elas.
O primeiro
livro, era como a enunciação de uma possibilidade de definir a
prática da arquitetura como um entregar-se a um fazer construtivo,
à geometria e à luz. No Oriente, pela primeira vez, diante do
pensamento evolucionista ainda persistente na sua Europa, ele
compreendeu que essa atitude marcava atemporalmente a arquitetura,
tanto a antiga quanto a nova que buscava construir. Era uma atitude
interna, moral como dirão alguns, que prescindia de fronteiras,
de Oriente ou Ocidente, sequer de classificação dos povos entre
mais ou menos civilizados, ou em estilos. O avanço do Ocidente,
se havia algum, era relativo.
Já no manuscrito
da viagem percebe-se esta segunda tese de Le Corbusier enunciada
em Vers une Architecture, que o acompanharia toda sua vida:
não existe homens primitivos, os homens são sempre os mesmos,
o que muda são as suas situações objetivas de existência, os meios
de que dispõem para agir.
O leitor mais
familiarizado com o pensamento de Le Corbusier encontrará até
mesmo nas suas descrições de plátanos vibrando solitários no Monte
Athos frases que o farão lembrar de imagens visuais que povoam
o seu universo de invenção e sonhos como artista, arquiteto ou
urbanista. Afinal como não ver ecoar, mais de meio século depois,
os seus relatos de solitários troncos de um tom “cinza,
como um mármore negro lavado pela chuva” e de “grossos
ramos como mão aberta, repleta da ourivesaria esmeralda de suas
folhas” na célebre escultura do Capitólio de Chandigarh?
Se Mise
au Point é uma espécie de summa do que ele mesmo fez
ou deixou de fazer a partir desse esboço de programa juvenil que
ele fixou para si e para sua arquitetura, A viagem do Oriente
é o texto que mais explicitamente dá a chave – como nos
romans a clé, tão caros à cultura francesa – para
a compreensão de sua obra, em suas recorrências, em suas evoluções
e involuções, em seus limites, em sua intrigante e instigante
potência.
Alfa e ômega
– o começo e o fim. Em meados de julho Le Corbusier conclui
a leitura do manuscrito de 1911, faz mudanças tópicas e acrescenta
frases que indicam claramente o elo entre os dois livros que prepara.
Entrega os originais revisados de um, e organizados, do outro,
ao editor. E parte de férias para Roquebrune. Sem pressenti-lo,
nesse mês de julho, Le Corbusier organizava seu primeiro e último
livro que não são opostos um ao outro. São, antes, modos diferentes
de narrar uma mesma entrega à arquitetura e à vida que a cerca
e a engendra. Vida a qual se deu com a intensidade religiosa com
que se experimenta a fluidez do mar, dos rios, das nuvens e dos
homens e à qual a sua arquitetura procurou trazer um horizonte,
alguma estabilidade, um ponto de pausa. Numa manhã do final de
agosto de 1965, o arquiteto franco-suíço, morria em Roquebrune,
no mar, enquanto nadava. A viagem do Oriente foi parte
de seu testamento como arquiteto, mas sobretudo como homem.
Margareth
da Silva Pereira é autora de livros e artigos sobre a história
critica da arquitetura e do urbanismo no Brasil e Professora do
Prourb-FAU/UFRJ.
Leia
também "Se
oriente, rapaz...", de Artur Rozestraten, sobre o livro
de Le Corbusier
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