A
cidade como locus de reconciliação entre o homem e o seu cosmos:
Revisitando The Idea of a Town de Joseph Rykwert
resenha de fernando diniz moreira
Publicado
inicialmente nas páginas da revista holandesa Forum, editada
por Aldo van Eyck, The Idea of a Town ganhou realmente
notoriedade a partir de sua publicação inglesa revisada, de 1976.
Não é apenas um livro sobre cidades da Antigüidade, mas, como
todos os bons livros de história da arquitetura e da cidade, é
instigado por questões atuais, questões que continuam a desafiar
o arquiteto preocupado com a cidade.
Muitas vezes,
somos levados a pensar que, se o estado atual de nossas cidades
é fruto apenas das pressões de mercado, nós, arquitetos-urbanistas,
estaríamos absolvidos de qualquer culpa. Rykwert, entretanto,
não concorda em aderir a esse pacto conivente. O livro é uma crítica
aos urbanistas que consideram a cidade “exclusivamente pela perspectiva
da economia, da higiene, dos problemas de tráfego ou dos serviços”,
como sabiamente notou Van Eyck na apresentação da publicação original.
É uma crítica àqueles profissionais que reduziram a cidade a abstrações,
quando adotaram critérios estritamente funcionais, e a observaram
pelo prisma único da habitação.
Rykwert mostra
que o tecido urbano que estrutura a vida da cidade precisa ser
mais duradouro do que aquela sociedade específica que o gerou.
Os tecidos urbanos devem ser claramente reconhecíveis de modo
a permitir ao cidadão de uma época ler sua cidade, entender seus
níveis superpostos, e, o mais importante, situar-se em relação
aos seus antepassados e aos seus concidadãos. O objetivo de Rykwert
não consiste em mostrar como era o planejamento das cidades na
Antigüidade, mas sim, como os planejadores de cidade pensavam
seu ofício e como recorreram aos rituais e mitos para formar o
ambiente urbano. Longe de adotar uma visão idílica, mostra-se
ele plenamente consciente das mazelas e problemas da cidade antiga
e não advoga um retorno a uma suposta ordem antiga.
Rykwert dedica-se
primordialmente à cidade etrusca e romana como uma obra simbólica
que fazia sentido para seus cidadãos, que correspondia aos seus
anseios simbólicos. A forma da cidade, suas muralhas e entradas,
seus espaços urbanos e seus edifícios públicos principais eram
construídos tendo como base uma série de rituais e cerimônias.
Esses rituais situavam os romanos dentro de um universo reconhecível
por eles próprios.
Contrariando
os historiadores que identificam nas estratégias de defesa, no
controle de rotas de comércio e nos motivos de ordem higiênica
e econômica as razões de fundação de uma cidade, Rykwert mostra
que nem sempre esses imperativos racionais foram determinantes
na fundação das cidades. Apoiado em vários autores da era clássica,
ele detalha com precisão todo o conteúdo ritualístico de fundação
das cidades, começando pela escolha do seu local, por meio dos
exames dos augúrios, que incluíam o vôo de pássaros, o comportamento
dos animais, o exame das vísceras de animais, os trovões e outros
sinais oriundos da natureza, interpretados como mensagens divinas
que referendavam ou não a escolha dos homens.
Com o término
das cerimônias, a cidade tinha recebido as bênçãos dos deuses
que tinham demonstrado sua benevolência para com a comunidade,
mas os ritos continuavam com o gesto de arar a terra e demarcar
os limites do mundo urbano. Após estar o sítio purificado e claramente
delimitado, a comunidade apossava-se da cidade. Admitindo que
cada passo no crescimento da cidade era acompanhado de rituais,
Rykwert analisa o caráter sacro atribuído às muralhas que a protegiam
bem como, às portas que lhe guardavam o acesso e lhe marcavam
o adentrar. Os elementos defensivos (fossos, muralhas) suplantavam
sua dimensão material e adquiriam um caráter simbólico, visto
que guardavam, assistidos pelos deuses e deusas, a unidade social
e religiosa da comunidade.
Em um dos
últimos capítulos, Rykwert transcende os exemplos romanos e etruscos
e procura paralelos em outras sociedades ditas ‘primitivas’, já
que o ser humano sempre procurou se reconciliar com seu cosmos
e seu espaço. Ele foi bem sucedido ao encontrar nesses exemplos
uma poética de construir moradas e espaços comuns que conectariam
a comunidade ao seu cosmo. Rykwert mostra como a disposição de
aldeias de tribos ditas primitivas refletiam uma forma de interpretar
o mundo e de se estruturar socialmente, como os Dogon na África
ocidental, que tanto fascinaram Aldo Van Eyck, e as tribos Bororó
do Alto Xingu, estudadas por Claude Lévi-Strauss, dentre outros
povos. No caso brasileiro, Rykwert utiliza as conclusões de Lévi-Strauss
em Tristes Tropiques para mostrar como a reorganização
espacial proposta pelos missionários, alocando os Bororós em vilas
formadas por série de filas paralelas, destruiu totalmente a organização
social da tribo baseada em uma disposição circular que estava
em harmonia com sua visão de mundo. Além de Lévi-Strauss, Rykwert
serviu-se exaustivamente de textos clássicos das ciências sociais,
como os de Fustel de Coulanges, em seus estudos sobre como a estrutura
da cidade antiga era entendida e transformada por seus cidadãos,
e Mircea Eliade, em seus estudos das crenças religiosas, dos mitos
e da dimensão sacra.
Os ritos de
fundação de cidades, portanto, estavam muito próximos das experiências
religiosas. Cada fundação de uma cidade romana, por exemplo, reiterava
a fundação da própria Roma que, por sua vez, representava a própria
criação do mundo. De fato, a construção de uma cidade, ou mesmo
de uma casa, em muitas culturas é feita à semelhança de uma instituição
divina que simboliza o centro do mundo. Os rituais de fundação
detinham uma importância capital para a vida de uma comunidade,
pois afirmavam que a estrutura urbana estava em harmonia com as
forças que regem o cosmo. Esses rituais eram constantemente rememorados
em seus monumentos e templos. Rykwert mostra como esses rituais
sobreviveram, embora transformados e atenuados, até a o fim da
Idade Média e o início da Era Moderna.
O que preocupa
Rykwert é a perda de uma atitude sacra diante do ambiente e do
mundo devido ao advento da razão iluminista e do progresso científico
a partir do século XVIII. O fim das cosmologias e das religiões
tradicionais parece ter privado o homem de se situar dignamente
em relação ao universo, tendo efeitos desagregadores sobre a forma
como nós nos comportamos em sociedade e como nos sentimos em nossas
cidades. O que Rykwert sugere é que as pessoas só se sentem parte
de uma comunidade se há uma correspondência entre seu cosmo e
o mundo construído que as rodeia.
The Idea
of a Town faz parte de um conjunto de livros publicados entre
o final dos anos 50 e a década de 60, os quais criticaram os ambientes
produzidos no pós-guerra. Adotando diferentes perspectivas, autores
como Jane Jacobs, Herbet Gans, Kevin Lynch, Gordon Cullen, Aldo
Van Eyck, Henri Lefébvre e Aldo Rossi contribuíram para transformar
a maneira de se pensar as cidades. Apesar de The Idea of a
Town fazer parte desse conjunto, consegue, mais do que eles,
transcender o contexto no qual foi feito.
O lançamento
desse livro acontece em um momento oportuno no Brasil, sobretudo
para as nossas escolas dominadas por um pragmatismo que se recusa
a olhar para a própria cidade se esse olhar não for forjado por
critérios ou metodologias pretensamente científicas. Quando pensamos
em nossas cidades – engolfadas em um violento conflito social,
assustadas pelo crime organizado, comprometidas pela falta de
infra-estrutura e sacrificadas cada vez mais por estacionamentos,
muros, guaritas e anúncios – as discussões presentes nesse livro
parecem estar muito distantes de nossa realidade. No entanto,
cabe a nós pensar em como dar um novo significado às nossas cidades,
um significado que transponha o prosaico objetivo do cumprimento
de nossas obrigações do dia-a-dia. Um tema que transparece em
vários daqueles rituais analisados por Rykwert é o tema da reconciliação:
a reconciliação entre o cosmo e a terra, o sacro e o mundano,
a cidade e a natureza, os cidadãos e as suas instituições, e entre
seus próprios cidadãos. Esse tema parece surgir como uma chave
de leitura para que se restabeleça a cidade como o grande locus
da experiência do homem enquanto ser civilizado, uma parte inalienável
de nossa cultura.
O presente
texto é um trecho adaptado da introdução do livro.
Fernando
Diniz Moreira, Ph.D. em Arquitetura pela Universidade da Pensilvânia
e Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE).
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