Retrospectiva
verde
resenha
de guilherme mazza dourado
Há menos de
duas décadas, quem percorresse as melhores livrarias em buscar
de publicações brasileiras de paisagismo já se daria por contente
se encontrasse um ou dois títulos nas prateleiras. Eram tempos
em que o paisagismo passava longe dos interesses do mercado editorial
e também nem despertava a atenção dos estudiosos. Felizmente esse
momento passou e hoje existem editoras que cada vez mais apostam
na área – caso da Editora Senac. Um de seus recentes lançamentos
é Rosa Kliass: desenhando paisagens, moldando uma profissão
– primeiro livro sobre a obra de uma das figuras de frente
da 2ª geração de paisagistas modernos brasileiros, escrito pela
crítica de arquitetura Ruth Verde Zein, com a colaboração da jornalista
Denise Yamashiro.
Já não era
sem tempo haver uma publicação sobre Kliass, tendo em vista seu
respeitável papel no cenário da cultura paisagística nacional,
ao longo dos últimos cinqüenta anos. Basta recordar inicialmente
que algumas propostas emblemáticas voltadas à qualificação ambiental
em várias cidades brasileiras saíram de sua prancheta e, mais
recentemente, da tela de seu computador. É o caso da Estação das
Docas (1999-2000), que reabilitou uma antiga faixa portuária em
Belém do Pará; o Parque do Abaeté (1992), que nasceu para proteger
um dos cartões-postais de Salvador; o Plano Preliminar Paisagístico
de Curitiba (1965-66), que influiu para que a capital paranaense
encontrasse um modelo de crescimento sem descurar do verde; o
Projeto Paisagístico da Avenida Paulista (1973-74), que ofereceu
um dos mais belos passeios em mosaicos que São Paulo conheceu,
mas que infelizmente foram corrompidos ao longo dos anos e, hoje,
o pouco que restou está com os dias contados, por força de um
despautério da prefeitura.
Essa disposição
de abraçar desafios peculiares não foi impulso circunstancial
ou inclinação temporária que despontou e depois feneceu em algumas
etapas do percurso de Rosa Kliass. Ao contrário, revelou-se marca-registrada
de toda sua carreira, manifestando-se desde as vésperas da formação.
Na contramão das perspectivas de futuro alimentadas pela maioria
de seus colegas da FAU-USP, Kliass abraçou o caminho mais improvável
- foi ser arquiteta paisagista. Encantou-se pela profissão no
convívio com o paisagista norte-americano Roberto Coelho Cardozo,
que ministrava uma recém-criada disciplina de noções gerais de
paisagismo na faculdade, em 1954. Figura marcante nesta etapa
inicial de sua formação intelectual, Cardozo foi artífice de outra
significativa descoberta que marcará o futuro da jovem: apresentou-lhe
a escola californiana, com seus repertórios plásticos de matriz
abstrata geométrica (especialmente os de Garrett Eckbo), com suas
composições vegetais privilegiando bem mais a expressão de formas
e texturas das folhas do que o cromatismo pronunciado de maciços
de flores, com sua ênfase no cuidadoso desenho dos elementos tectônicos
(muros, pisos, volumes, pérgulas, espelhos d’água e piscinas).
No final da
década de 1960, chegou o momento em que Kliass pode examinar ao
vivo a produção californiana e inteirar-se, pela experiência direta,
sobre o que de melhor acontecia em paisagismo nos EUA. Dispondo
de uma bolsa do governo de lá obtida com a ajuda de Francis Violich
e municiada com contatos e roteiro por ele preparados, Kliass
viajou de costa a costa do país, entre setembro e novembro de
1969. Excursionou por Washington, Baltimore, Filadélfia, Nova
York, Boston, Detroit, Louisville, Saint Louis, Los Angeles, San
Francisco, entre outras cidades. Visitou obras, escritórios, faculdades
e organismos públicos de paisagismo, como o National Park, em
Washington. Esteve com a nata da intelectualidade paisagística
norte-americana: Thomas Church, Garrett Eckbo, Lawrence Halprin,
Paul Friedberg, Robert Royston, todos sócios titulares de alguns
dos mais importantes escritórios do país, Ian MacHarg, uma das
autoridades em planejamento paisagístico, e Grady Clay, editor
da Landscape Architecture Magazine (1).
Difícil avaliar
o saldo completo das experiências e idéias que essa peregrinação
trouxe à etapa madura da obra da paisagista. No entanto, é possível
rastrear alguns desdobramentos. O trabalho de MacHarg forneceu
uma visão sistêmica das questões ambientais e uma metodologia
de coleta, cruzamento e avaliação de dados para planejamento paisagístico
que se tornou instrumental constante nas propostas de grande escala
de Kliass, como no Plano da Paisagem Urbana de São Luís (2003).
Justaposta à influência anterior de Eckbo, a obra de Halprin trouxe-lhe
outras possibilidades de experimentação plástica, manifestando-se
no desenho de pisos e volumes com formas angulosas, por exemplo,
no Vale do Anhangabaú (1981-1990) e nos pátios do Laboratório
Fleury (1996-97), cujo projeto arquitetônico é dos escritórios
de Eduardo Martins de Mello e Piratininga e não como registrado
na página 43, conforme me informou Ruth Verde Zein. O contato
com faculdades, professores e associações profissionais daquele
país também não passou em brancas nuvens para Kliass. Foi ele
que inspirou certamente a busca pelo aprimoramento do ensino e,
sobretudo, pela regulamentação da arquitetura paisagística no
Brasil, defendida pela paisagista a partir da década de 1970.
Além disso, ainda é possível identificar como efeitos dessa viagem
o germe que levou à criação da Associação Brasileira de Arquitetos
Paisagistas (ABAP), em 1976.
Rosa Kliass
retornou outras vezes aos EUA. Mas a viagem de 1969 permaneceu
como um momento especial e marcou o início de seu período criativo
central, cujos frutos mais seletos estão reunidos e documentados
nesta publicação. São 29 projetos que contemplam das maiores às
menores escalas, apresentados individualmente por meio de textos
e imagens, embora alguns careçam de mais desenhos técnicos para
serem bem compreendidos. De todo modo, o livro é um registro ímpar
para conhecer a obra e o pensamento da paisagista e simultaneamente
alimentar a reflexão sobre o papel da geração posterior a Burle
Marx.
Nota
1
Entrevistas com Rosa Kliass realizadas pelo autor em 21/7/1998
e 11/8/1998.
Guilherme
Mazza Dourado é arquiteto e historiador de paisagismo.
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