As
propostas das vanguardas modernas
resenha de renato anelli
A recente
publicação dos livros de Ozenfant e Jeanneret e de Gregori Warchavchik
abre a série “Fontes da Arquitetura Moderna”, concebida e organizada
pelo professor Carlos Ferreira Martins para a editora Cosac Naify,
quem também assina os respectivos prefácios. Trata-se de textos
fundamentais para o entendimento do processo de formação da arte
e arquitetura moderna no entre-guerras europeu e brasileiro.
No primeiro,
Le Corbusier e o pintor Amedée Onzenfant apresentam suas concepções
estéticas para a superação da crise do Cubismo em 1918. No segundo,
acompanhamos os embates de Warchavchik pela difusão das propostas
das vanguardas européias no Brasil. Esta é a primeira publicação
de “Depois do Cubismo” em português, enquanto a reunião dos textos
de Warchavchik é inédita, pois estavam dispersos em jornais ou
outras coletâneas parciais. A editora anuncia para breve o lançamento
de títulos de Mondrian e Terragni na série.
Estas publicações
procuram superar as dificuldades de acesso em língua portuguesa
ou em edições contemporâneas destes textos de referência para
a história da arte e da arquitetura moderna. Seu significado deve
ser buscado em meio aos esforços do seu organizador em promover
uma reflexão crítica sobre as propostas das vanguardas modernas
iniciada em meados da década de 1980, no auge do impacto do pós-moderno
no Brasil.
Na apresentação
da série o coordenador editorial da série alerta para o fato do
seu interesse se dar “menos pela permanência de suas respostas
que pela atualidade das questões que apresentam”. Eis uma abordagem
que ainda foge à compreensão de muitos que se dedicam à arte e
arquitetura contemporânea. Se os pós-modernos tornavam a arquitetura
moderna uma caricatura para facilitar a aceitação das suas posições,
a cristalização dogmática dos modernos impedia-lhes uma defesa
substantiva e a construção de novos caminhos. Naquele momento,
a opção pelo aprofundamento dos estudos sobre a arquitetura moderna
procurava construir uma história que fosse menos operativa, como
defendia Tafuri (1), portanto menos cúmplice do seu objeto, mas
que permitisse a identificação de sua complexidade, riqueza, limites
e contradições.
A leitura
de Le Corbusier em “Depois do Cubismo” desmonta o estereótipo
do frio propositor da “máquina de morar” e revela um artista envolvido
com os desafios da permanência da arte na história, empenhado
em conceber uma arquitetura do seu tempo, mas que pudesse emocionar
as gerações subseqüentes. Como ressalta Martins no prefácio, um
Jeanneret que via na crítica ao cubismo “a possibilidade de conciliar
o seu ingresso nos meios de vanguarda com o ‘retorno à natureza’,
tema central de preocupação desde os tempos de sua formação em
La Chaux-de-Fonds”. Neste manifesto fundador do Purismo, encontramos
um Le Corbusier onde o principal do caráter clássico não está
na recuperação retórica de certas estruturas compositivas, como
queria Colin Rowe (2), mas no pensar a máquina como o instrumento
capaz de produzir na matéria a perfeição da idéia transcendente.
Trata-se do Le Corbusier que veio ao Brasil e concebeu uma arquitetura
que enfrentasse, de forma quase sublime, o esplendor da sua paisagem
natural.
Os textos
de Warchavchik trazem outras questões. Para acompanharmos seus
esforços de produção de uma arquitetura de raiz geométrico-abstrata
no Brasil dos anos 20 e 30, Martins propõe que é necessário entendermos
as particularidades da construção histórica da Arquitetura Moderna
Brasileira. Iniciada em 1943 com a publicação do livro Brazil
Builds, essa trama perdura ao longo de cerca de 50 anos, constituindo
uma historiografia engajada na construção de uma linha hegemônica
entre as variadas produções modernas do período. Uma historiografia
que restringe o papel de Warchavchik, quando muito, ao de pioneiro,
com suas casas paulistanas no final da década de 20.
A revisão
dessa historiografia, em especial na procura daquilo que foi excluído
ou teve seu valor diminuído, tem sido o mote de um grande número
de pesquisas contemporâneas, em sua maioria sediadas nos programas
de pós-graduação em arquitetura. Concebida para informar essa
produção, a publicação desta coletânea se distingue desse conjunto
por enfrentar o núcleo central da trama historiográfica. No seu
prefácio Martins situa com rigor o debate entre Geraldo Ferraz
e Lúcio Costa sobre o papel histórico de Warchavchik, acompanha
a fortuna crítica da sua obra em Goodwin (3), Mindlin (4), Bruand
(5) e Lemos (6), e contextualiza cada texto publicado. A afirmação
das qualidades da contribuição de Warchavchik não depende da diminuição
da importância da corrente hegemônica.
A coletânea
de textos traz as palavras do autor aos nossos dias. Os textos
originais vêm se somar a outros trabalhos recentes que têm se
dedicado a analisar a obra projetada e construída de Warchavchik,
demonstrando que seu engajamento pioneiro não se resume a uma
epiderme decorativa de aparência moderna, como querem alguns autores.
Warchavchik constata e enfrenta os limites de um parque produtivo
brasileiro, que combina o uso de avançadas técnicas construtivas,
como as estruturas de concreto armado, com a ausência completa
de sistemas e sub-sistemas industrializados ou mesmo de organização
racional do trabalho. No debate com Dacio de Moraes e Christiano
das Neves, Warchavchik enfrenta a nascente estrutura profissional
dos arquitetos, onde os acadêmicos ecléticos reagiam com veemência
à nova arquitetura. Em 1930 relata para o III CIAM os limites
e potencialidades da arquitetura moderna no Brasil e na América
do Sul, levando Siegifried Giedion a comparar tal situação com
a da Finlândia, dois países que se tornariam protagonistas importantes
da arquitetura moderna do segundo pós-guerra.
São textos
que expressam um momento no qual o debate sobre os rumos da arquitetura
não se restringia à mídia especializada, tendo como objetivo a
conquista de um público amplo e a construção de um campo de atuação
profissional, o que hoje poderíamos chamar de mercado. Hoje são
republicados para enriquecer a formação de graduação e de pós-graduação
em arte e arquitetura.
Muito oportuna
a publicação desta série neste momento em que novas gerações se
destacam na retomada do moderno, em especial em São Paulo. Tais
leituras apontam que se algum sentido há em pensarmos a permanência
do moderno hoje, ele estaria no vigor de uma atitude frente ao
mundo e não na reprodução de um repertório formal.
Notas
Leia
também "Uma
oportuna recuperação das origens do pensamento moderno
brasileiro", de Mônica Junqueira de Camargo, sobre
o livro de Gregori Warchavchik; e "O
elogio da plástica", de Luiz Armando Bagolin, sobre
o livro de Ozenfant e Jeanneret
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