Cidade
e memória
resenha de anat falbel
“Ressurreição
de realidades enterradas, reaparição do esquecido e do reprimido
que como outras vezes na história pode desembocar em uma regeneração
. As voltas às origens são quase sempre revoltas: renovações,
renascimentos”
Octavio Paz, 1994
Em 1972 Octavio
Paz (1914-1998) observou a crise dos valores da modernidade e
a transformação de seus poderes de mudança, crítica e transgressão
em repetições rituais e retóricas.
Para um homem
de letras como Paz, a renovação que faria frente à pretendida
universalidade dos sistemas elaborados no Ocidente, não seria
encontrada entre os particularismos despertados pela modernidade
européia, mas na recuperação de significados, ou conforme a sua
metáfora poética: “as portas se abrem de par em par: o homem regressa
[...] O bosque dos significados é o lugar da reconciliação”. (1)
Fruto do mesmo
Zeitgeist, a obra escrita de Joseph Rykwert sugere algumas
aproximações com as formulações de Paz no que diz respeito ao
ocaso da modernidade. Como arquiteto e historiador da arquitetura
Rykwert empreende uma busca pessoal pelos significados que poderiam
fazer frente à uma “modernidade diagramática”.
Para Rykwert,
o tradutor de Alberti, a cidade é sentida como gostaríamos que
fosse a casa, e a casa constitui não somente o espaço da reconciliação
das constantes essenciais da existência, mas também o lugar da
memória que abriga nossas raízes e sonhos conforme escreveu Gaston
Bachelard (2), uma das fontes de sua formação humanista. Portanto
se para Paz, o poeta, “a poesia é a memória dos povos, e uma de
suas funções é a transfiguração do passado em presença viva”,
para Rykwert, o arquiteto, a casa – protótipo conceitual da cidade
– é a memória que perpetua e recompõe no tempo, os homens que
ali viveram e por ela passaram, suas vontades, pensamentos, leis
e sentimentos.
Assim, o entendimento
da A Idéia de Cidade de Joseph Rykwert, não pode ser dissociado
da trajetória e da busca – ou do reencontro – do autor pela sua
própria singularidade, assim como pelas raízes nas vivências espaciais
do seu exílio. Nesse sentido, a sugestão do arquiteto Louis Kahn
de que “uma cidade é o lugar onde um menino ao percorrê-la pode
descobrir algo que lhe diga o que gostaria de fazer com a sua
vida” (3) pode ser perfeitamente aplicada ao nosso autor pois
a cidade da memória de Kahn, aquela que o levou à arquitetura
assemelha-se aos espaços vividos por Rykwert.
Nascido em
Varsóvia em 1926, nosso arquiteto cresceu no seio de uma família
pertencente à próspera e cosmopolita classe média judaica e nesse
aspecto suas lembranças movem-se não somente pelos espaços da
intimidade familiar, mas também pelos parques, ruas e calçadas
de sua cidade natal, cruzamento de comércio e cultura secular,
cujo tecido urbano marcado por cem anos de dominação russa, desafiava
arquitetos e políticos para a construção de uma cidade moderna.
O cosmopolitismo do milieu confirma-se nas lembranças que
ultrapassam fronteiras recordando outras paisagens européias como
Marienbad e Abbazia, ou cidades litorâneas como Brighton e Bournemouth.
No entanto, se a condição de estrangeiro foi parte da sua infância
e adolescência o verdadeiro exílio inicia-se com a fuga de Varsóvia,
poucos dias antes da rendição polonesa enquanto o fantasma do
inenarrável ainda pairava sobre a Europa. A condição de exilado
permanecerá, mas a memória necessita de ancoragem, e talvez por
isso Londres, a cidade que o recebeu na infância, a mesma que
acolheu a família em sua condição de refugiada, e onde ainda iniciou
sua formação como arquiteto na Architectural Association,
será o seu porto, a cidade de onde partiu, mas sempre retornou
ao longo dos anos.
A idéia
de cidade, o livro
A primeira
versão do texto de Rykwert, foi publicada originalmente em 1963,
em um número especial da revista Forum holandesa, editada
pelo arquiteto Aldo Van Eyck. A revista tinha como cerne a formulação
da “outra idéia” de Van Eyck, elaborada no contexto da representação
holandesa do Team 10, perspectiva que vinha de encontro
à visão esquemática do modernismo, ao mesmo tempo em que estimulava
uma modernidade poética e multifacetada, propondo uma arquitetura
e um urbanismo geradores de ambientes significativos, que pudessem
refletir a identidade pessoal e coletiva do indivíduo em oposição
às idéias e métodos preconizados pelo CIAM do período do entre
guerras, voltados à solução de problemas funcionais.
Por outro
lado, a formulação da “outra idéia”, ainda compreendia o conceito
da configuração do “entre-lugar” (in-between), uma metáfora
espacial que tinha como origem as elaborações do filósofo Martin
Buber, que Van Eyck interpretava como qualquer relação entre o
homem e seu semelhante, ou então entre o homem e as coisas, ou
o espaço da reconciliação das polaridades e das ambivalências
da mente humana: “um espaço feito à imagem do homem [...] no qual
este último pudesse se reconhecer”. (4)
Se podemos
afirmar que na literatura arquitetônica textos produzidos em um
mesmo período tendem a refletir temas e obsessões similares, no
cenário dominado pela arquitetura homogênea e diagramática das
agências do governo para a reconstrução da Europa – o encontro
entre dois arquitetos como Rykwert e Van Eyck, ou mesmo Louis
Kahn, se fizeram na contramão de seus pares, a partir do entendimento
de que as experiências do passado arquitetônico deveriam ser incorporadas
ao pensamento projetual contemporâneo. Sob uma perspectiva moderna
– e sem o risco das reproduções ecléticas – o passado fortificaria
o presente pelo aprofundamento temporal e pela perspectiva associativa
que Van Eyck definiria como “a interiorização do tempo ou o tempo
que se fez transparente” (5) e Rykwert explicitaria através da
impossibilidade de dissociação da arquitetura da história.
Em tal contexto,
a publicação do ensaio de Rykwert a respeito da cidade etrusca-romana,
no último número da Forum, confirmava através de um sólido
estudo de caráter arqueológico e antropológico que a implantação
e o desenho das cidades antigas do ocidente não eram fundamentadas
em princípios funcionais ou utilitários, mas em uma visão cosmológica
presente como um fenômeno universal entre todos os povos. Rykwert
buscava demonstrar a concepção de cidade dos antigos romanos figurada
como reflexo do universo, de modo que a fundação de cada novo
assentamento constituía um ritual da afirmação da cosmogonia,
ou da criação original do mundo. O ritual consistia basicamente
no estabelecimento da intersecção de dois eixos o cardo
e o decumanu que alinhados com os eixos primevos do universo
pretendiam evocar – juntamente com o plano no qual se articulavam
os edifícios institucionais e os monumentos da cidade – o drama,
a estrutura e o equilíbrio cósmico, que por sua vez eram comemorados
pela renovação do ritual que se dava em festividades recorrentes
e regulares. O paralelismo encontrado nas civilizações mediterrâneas,
no oriente e nas sociedades tribais da África e das Américas no
tocante às correspondências entre assentamentos e cosmos, implicava
para o autor na existência de um modelo fundamental do pensamento
humano enraizado na estrutura biológica do homem, e cuja essência
estaria na reconciliação do indivíduo com seu próprio destino.
Nesse sentido,
a proposição de Rykwert de que qualquer moradia humana ou edifício
comunal e como conseqüência a própria cidade constituía de certa
forma uma anamnésia, ou a memória da fundação do centro do mundo
inseria-se perfeitamente no âmbito maior da formulação da “outra
idéia” de Van Eyck a partir das pesquisas deste último a respeito
dos povos dogon no Sudão ou dos zuni no Novo México
do mesmo modo que o entendimento dos rituais de passagem como
o mundus ou o pomoerium, poderiam ser interpretados
paralelamente ao conceito de “soleira”, entendido como a materialização
do “entre-lugar”.
Comprometida
com a revisão do movimento moderno, a hipótese levantada por Rykwert
– de que toda forma apresentava um significado simbólico – questionava
a eficácia da manipulação da estrutura física e estética da cidade
moderna desvinculada dos significados simbólicos que teriam sido
transformados ou perdidos com o aprofundamento da sua complexidade
física e social, propondo um modelo que pudesse ser aplicado na
contemporaneidade.
A crítica
antifuncionalista nada mais era que a continuidade no plano da
cidade dos argumentos levantados durante a metade da década de
1950 em textos como Meaning and Building e The Sitting Position-A
question of method nos quais o autor propunha a recuperação
do elemento inconsciente no homem e seus arquétipos como critério
de viabilidade do espaço como habitat sugerindo que a história
e a memória coletiva deveriam ser entendidas como método e instrumento
de trabalho do arquiteto. Nesse aspecto, a atuação do historiador
e particularmente do historiador da arte seria desvendar os significados
contidos no ambiente de formas simbólicas em seu contexto social
e temporal, a partir do discurso que os gerou.
O “aluno
rebelde” e seus mestres
A análise
de A Idéia de cidade de Rykwert permite identificar algumas
das principais influências na formação intelectual de seu autor.
A primeira delas vincula-se ao historiador e crítico Siegfried
Giedion (1888-1968) que Rykwert conheceu durante o encontro do
CIAM 7 em 1949. Desde Space, Time and Architecture (1941)
Giedion já apontava para uma relação entre o passado e o presente
na escritura da narrativa histórica, como condição fundamental
do fazer a história. Em Mechanization Takes Command (1947)
– – Giedion estendia suas hipóteses alertando para o papel do
historiador no despertar do sentimento de continuidade histórica
e destacando a importância das inter-relações entre os eventos
históricos e seus desenvolvimentos para o entendimento das tendências
e dos significados de um período. Entretanto, a maior incidência
de Gideon sobre Rykwert diz respeito ao seu método – a sua “perspectiva
tipológica” cujo exercício Rykwert iniciou nos anos 50 (Meaning
and Building, The Sitting Position), continuando a
empregar em textos como A Idéia de Cidade (1963), A Casa de Adão
no Paraíso (1972) e A Coluna Dançante (1996).
Portanto assim
como Giedion que fez uso de peças aparentemente insignificantes
como uma fechadura, ou então um hábito como o banho, para demonstrar
o processo de transformações de um tipo ao longo de vários períodos
e campos, simultânea e panorâmicamente, Rykwert acompanha as transformações
de uma cadeira, uma cidade, uma casa ou então uma coluna, revelando
o seu compromisso com o reconhecimento da longa aculturação das
formas arquitetônicas.
A segunda
personalidade importante na formação de Rykwert é Rudolf Wittkower
(1901-1971) cujas conferências ele começou a freqüentar ainda
estudante secundário. O historiador de arte alemão parece ter
sido o mais importante intermediário entre Rykwert e os historiadores
de Warburg, cuja ascendência pode ser reconhecida no cuidado do
uso das fontes originais, e na busca pelo sentido dos seus objetos
nos escritos que lhes foram contemporâneos. No entanto, também
devemos destacar o modelo metodológico do Principles of Architecture
in the Age of Humanism cuja interpretação da arquitetura como
a materialização de uma Weltanschauung – ou de uma relação entre
arquitetura e sociedade – foi instrumental não somente para Rykwert,
mas para uma geração de críticos de historiadores entre os quais
Colin Rowe, Alan Colquhoun, Stanford Anderson, e historiadores
como Reyner Banham e William Jordy, todos discípulos de Wittkower,
e que durante as décadas de 1950 e 1960 questionaram a interpretação
e os limites dos textos seminais do Movimento Moderno – International
Style de H. R. Hitchcock e P. Johnson (1932), Pioneers
of the Modern Movement, de N. Pevsner (1936), Space, Time
and Architecture de S. Giedion (1941) – propondo a análise
da arquitetura dos anos 20 e 30 no quadro mais complexo e significativo
de uma cultura própria envolvendo as aspirações e os desenvolvimentos
culturais, sociais e políticos da sociedade que a promoveu e projetou.
Conclusão:
um método para o reexame da arquitetura moderna
Assim, é no
contexto do modelo metodológico sugerido por Wittkower que poderíamos
inserir a proposição de Rykwert a partir de sua interpretação
do desenho das cidades pré-modernas como a materialização de uma
visão cosmológica segundo os arquétipos que permitiram a legitimação
da cultura urbana. Neste sentido, o conceito de anamnésia de Rykwert
aproxima-se da hierofania de Mircea Eliade (6) mais uma entre
as fontes da formação humanista de nosso autor que as dispõe de
modo consciente para desenvolver uma história cultural a partir
da qual de forma diacrônica e sincrônica busca “algum fundamento
para [...] dar forma ao ambiente humano” (7). No entanto, se para
Wittkower, o mestre, os conceitos de ordem em civilizações adiantadas
como a nossa revelavam-se apartados do constructo de significados
da cultura que os havia gerado, desvinculados da religião, e nesse
aspecto devendo assumir uma nova ordem essencial, a partir da
relação entre a natureza e o intelecto do homem, para Rykwert,
o “aluno rebelde”: “perdemos todas as belas certezas acerca de
como o universo funciona [...] [o que] nos obrigará a buscar o
sentido dentro de nós mesmos, na constituição e na estrutura do
ser humano”. (8)
Essa “busca
do sentido dentro de nós mesmos” encontra-se subjacente no âmago
da obra de Rykwert, apresentando-se como um fio que perpassa sua
notável elaboração teórica que projeta num plano mais elevado
o significado da arquitetura como resultado ou fruto de um diálogo
interior que não exclui o transcendental, mas que se inspira
numa filosofia da liberdade.
Notas
1
PAZ, Octavio. “La casa de la presencia”. In: Obras Completas
Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 1994.
2
BACHELARD, Gaston. La terre et les raveries du repos. Paris,
Librairie José Corti, 1963.
3
SCULLY, Vincent J. Louis Kahn. Nova York, George Braziller,
1962.
4
STRAUVEN, Francis. Aldo Van Eyck. The shape of relativity.
Amsterdam, Architectura & Natura, 1998.
5
VAN EYCK, Aldo. “La Interioridad del tiempo”. In: El significado
em arquitectura. Org C Jencks e G. Baird. Madri, Hermann Blume,
1975.
6
ELIADE, Mircea. El mito del eterno retorno: arquétipos y repetición.
Buenois Aires, Emecé, 1968.
7
RYKWERT, Joseph. A idéia de cidade: a antropologia da forma
urbana em Roma, Itália e no Mundo Antigo. Coleção Estudos
nº 234. São Paulo, Perspectiva, 2006.
8
Idem, ibidem.
O presente
texto é uma versão resumida da introdução ao livro.
Anat Falbel,
engenheira, doutora em arquitetura pela FAU-USP, professora do
IFCH UNICAMP. |