Morte
e vida de uma revista de arquitetura
resenha de aline ollertz
“Morte
e vida de uma revista de arquitetura”
Eduardo Corona, no último editorial da revista em nov./dez.
1971
Passaram-se
34 anos desde o fechamento da revista Acrópole para que
sobre tal importantíssimo documento histórico fosse feito um estudo
a fundo sobre sua trajetória. Fernando Serapião, arquiteto e assistente
editorial da revista Projeto Design, folheou seus 391 exemplares
num árduo levantamento de enorme significado tanto para aqueles
que conhecem a revista e sabem da sua importância, como para aqueles
que ainda virão a descobrir.
O estudo resultou
na sua dissertação de mestrado sobre edifícios de apartamentos
na cidade de São Paulo, o que por um momento quase levou Serapião
a seguir um outro caminho: “nós achávamos – mesmo
trabalhando na redação de uma revista do gênero –, que os
fatos e os edifícios publicados já estão registrados e não mereceriam
um segundo olhar. Por isso analisando sob este ponto de vista,
não haveria motivo para compilar ou mesmo recortar uma publicação
periódica – como faz grande parte dos trabalhos acadêmicos.
Ledo engano. Uma revista como a escolhida tem dentro das 27.542
páginas publicadas, um universo a ser decifrado que esta dissertação
está longe de esgotar.” (1).
A busca pelos
edifícios de apartamentos e o levantamento sobre a revista, mostrou
a importância daquela publicação no período de sua existência
e não é a toa que é uma referência tão buscada por estudiosos
até hoje. “Além de ser o periódico que mais edições publicou
no país, dentro de nosso subtema – o prédio de apartamentos
–, ela é imbatível: dos 134 edifícios do gênero, indexados
pelo Índice de Arquitetura Brasileira 1950/70, a Acrópole
registrou 97 exemplares, ou seja, possui o invejável alcance de
72,38%. Para comparar, em segundo lugar, está a revista Habitat
(com 19 exemplares publicados, ou seja, 14,17%) e em terceiro,
a AD – Arquitetura e Decoração, com 13 prédios indexados,
o que representa um alcance de 9,70% dos prédios de apartamentos
publicados no período.” (2). Mesmo que o assunto dos edifícios
residenciais paulistanos não tenha sido eliminado da pesquisa,
esta terminou como um inédito e belíssimo trabalho sobre o percurso
da revista Acrópole.
A revista
Acrópole teve duas direções durante sua existência, o que
resultou em significativas diferenças notadas pelo autor. Serapião
divide sua dissertação em dois períodos, de acordo com o caminho
percorrido pela revista: a primeira fase, correspondente á direção
editorial de Roberto Corrêa Brito, período que vai de maio de
1938 até a edição nº 171, em 1952; e a segunda fase, sob editoria
de Max Grunwald, de 1952 até dezembro de 1971, com o derradeiro
exemplar nº 391 (3).
Segundo Serapião,
o primeiro proprietário, Roberto Corrêa Brito, dirigia o Cadastro
Imobiliário de São Paulo e queria publicar volumes sobre a obra
recente do arquiteto Eduardo Kneese de Mello. Foi diante desse
convite que Kneese de Mello incentivou Corrêa Brito a editar uma
revista de arquitetura. Além de Kneese de Mello há outros engenheiros
envolvidos na criação dessa revista: Walter Saraiva Kneese, primo
de Kneese de Mello, Alfredo Ernesto Becker e Henrique Mindlin.
A “velha
Acrópole”, como Carlos Lemos se referiu ao primeiro
período da revista na conferência de abertura do Docomomo em 2005,
tinha características distintas do segundo período, desde a capa
até o conteúdo. Sobre a capa, na primeira fase, vinha ilustrada
sempre com a mesma imagem, o Erecteu, um dos templos da acrópole
grega, com exceção dos três primeiros números. A única coisa que
mudava era a cor da mesma, no entanto sempre monocromática. Serapião
destaca que havia nessa época uma nítida confusão entre editoriais
e publicidade, fato notado em inúmeras situações, dentre elas
na proximidade da revista com o mercado imobiliário, exemplificada
pela publicação no final da revista de um caderno com todas as
vendas de imóveis registradas no cartório da cidade. Há também
indícios de inúmeras matérias pagas, pois junto ao projeto havia
propagandas com logotipos e telefones das empresas vinculadas
àquela construção.
Em números,
a revista de Roberto Corrêa Brito publicou a maioria dos projetos
do Estado de São Paulo, 88,86%. Quanto ao programa, a revista
publicou 50,35% de matérias sobre residências unifamiliares; em
segundo lugar vem os prédios de apartamentos, com 14,84%. Em terceiro
lugar vêm os edifícios de escritórios (5,91%), seguido de hotéis
(5,03%), escolas (3%) e os edifícios com fins esportivos (2,56%).
Dos projetos publicados pela revista Acrópole de Corrêa
Brito, 90,10% são privados, enquanto apenas 9,9% são públicos.
É no final
do ano de 1952 que Max Grunwald, funcionário da revista desde
1939, se torna diretor da Acrópole. Já na primeira edição
da nova fase, a capa vem ilustrada por um projeto residencial
desenhado pela equipe da Construtécnica, e traria a partir de
então uma ilustração diferente a cada número. Uma das grandes
diferenças entre a direção anterior para essa, segundo Serapião,
é a maneira de selecionar os projetos para a publicação: “é
perceptível, com esta mudança de postura, a diferença de qualidade
de projetos publicados, mesmo que, durante um período considerável,
ainda sejam vistos alguns projetos, os quais observados a partir
do ponto de vista atual do que seja um material adequado, destoam
do restante”. Este processo, segundo Manfredo Grunwald,
filho de Max Grunwald, “aconteceu automaticamente, a gente
selecionava, mas não foi consciente”, no entanto segundo
Manfredo, eles realmente limitavam mais a apresentação dos materiais
na revista, tendo em vista o processo adotado anteriormente.
A revista
de Max Grunwald, também publicou a maioria dos seus projetos do
Estado de São Paulo (78,91%), “por força da circunstância”,
segundo Manfredo Grunwald, já que havia grande dificuldade em
conseguir projetos de outros Estados, por causa da necessidade
de viagens e outras questões que dificultavam esse processo. Nessa
fase, há um predomínio de obras vinculadas ao movimento moderno,
e a publicação de projetos públicos passa a aumentar, enquanto
diminuíam as obras privadas.
É desse período
também a aproximação da revista com o Instituto dos Arquitetos
do Brasil – IAB. Tal aproximação pode ser notada em algumas
passagens, como quando Max Grunwald junto com Oswaldo Bratke,
no início da década 50, inauguraram no térreo do prédio do IAB
estandes de vendas de materiais de construção, o que permitiu
o término da construção do prédio daquele instituto e a entrada
de Max na direção da revista. É também a partir do nº 184 da revista
que o IAB passa a publicar na Acrópole o Boletim oficial
do IAB, inteiramente realizado pelo instituto. “O Instituto,
no meu tempo, a protegeu [a revista Acrópole] na medida do possível
[...] ele [Max Grunwald] deveria ter seu nome gravado no IAB”,
afirma Oswaldo Bratke em entrevista a Hugo Segawa (4).
É junto com
o declínio do número de páginas comerciais que se inicia o declínio
da revista, que vem a fechar em 1971. Segundo o autor, a relação
de páginas editoriais e comercias no início do período dos Grunwalds
era de 1/1, enquanto que após o ano de 1967 essa proporção chega
a 2/1.
Ainda naquela
época existiam algumas outras revistas de arquitetura que eram
publicadas como: Arquitetura e Engenharia (1946-1965),
Brasil Arquitetura Contemporânea (1953-1957), AD Arquitetura
e Decoração (1953-1958), Módulo (1955-1965), Brasília
(1957-1961) e Arquitetura (1961-1969) (5). Mas nenhuma
perdurou tanto tempo e publicou tantas edições como a revista
Acrópole. Até dezembro de 2005, quando do término do trabalho
de Serapião, a Acrópole era a revista com maior número
de exemplares (391), já que as revista em circulação no momento
– a Projeto Design e a AU – Arquitetura
e Urbanismo – marcavam até aquele momento 311 e 141
exemplares, respectivamente.
Em conclusão,
cabe ressaltar que a revista foi demasiadamente importante para
a publicação da arquitetura da época e para o registro do vertiginoso
crescimento da cidade de São Paulo. “Então, assim como não
se deve creditar em demasia a imparcialidade da revista, –
que, de fato, não existia –, não dá também para desconsiderá-la
como veículo que registrou tal produção com tamanha freqüência”.
(6).
“Acabou-se
então a Acrópole. E ficamos por muito tempo sem uma revista”
Oswaldo Bratke (7)
Nota
1
SERAPIÃO, Fernando Castelo. Arquitetura Revista: a Acrópole
e os prédios de apartamentos em São Paulo. 1938-1971. São
Paulo, 2005.
2
Idem, ibidem.
3
A coleção de exemplares da revista Acrópole, de Manfredo
Grunwald, foi doada para a biblioteca da Fundação Armando Álvares
Penteado.
4
SEGAWA, Hugo. A arte de bem projetar e bem construir. Entrevista
de Oswaldo Bratke. Projeto, n. 106, p. 162, dez. 1987 / jan. 1988).
5
SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil 1900-1990. EDUSP.
São Paulo, 1997.
6
SERAPIÃO, Fernando Castelo. Op. Cit..
7
SEGAWA, Hugo. Op. Cit., 1987.
Aline
Ollertz é estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro do Grupo de Pesquisa
O Desenho da cidade e a verticalização: São Paulo de 1940 a 1957.
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