Ars
longa, vita brevis?
resenha
de fernando lara
Obituário
arquitetônico: Pernambuco modernista de Luiz Amorim inaugura
um doloroso gênero no nosso campo do conhecimento: o desafio de
documentar a morte da arquitetura. Mas morte não é algo fácil
de lidar, apesar de ser a única certeza que temos na vida. Morreremos,
todos, de morte morrida ou morte matada. Em comum existe o pranto.
Choramos copiosamente a falta que já nos faz o ente querido cujo
corpo repousa, frio e duro a nossa frente, assim como choramos
a nossa própria morte que sabemos inevitável. E o texto de Amorim
chora cada uma destas mortes. Acontece que em meio ao pranto temos
sempre a ilusão de que a memória permanecerá, como descendentes
a continuar nossa sempre curta existência. Livros, desenhos e
principalmente edifícios hão de permanecer como que guardando
nossa presença na eternidade. Doce ilusão. Livros se rasgam, se
perdem, se queimam, viram comida de traça e apoio de mesas mancas.
Desenhos então nem se fala, pobres papeis enrolados como pergaminho,
não duram mais que poucas gerações sem o cuidado e o investimento
custoso em conservação. Digitalizados então resistem menos ainda,
feitos ilegíveis pela atualização constante dos softwares ou bombardeados
pelos diversos campos magnéticos que nos rodeiam normalmente.
Restaria a
arquitetura, esta materialidade que vai nos moldando aos poucos
pela sua presença calada e maciça, e cuja durabilidade espera-se
que nos sobreviva. Mas nem as maiores e mais pesadas arquiteturas
sobrevivem ao abandono ou à demolição. Se existe uma lição primeira
no pequeno (15 x 15 cm) mas intenso livro de Amorim, é a idéia
clara de que a arquitetura morre. Luiz Amorim registrou em detalhes
22 destas mortes, contando suas estórias, documentando em desenhos
seus corpos agora inexistentes e mostrando ainda os corpos que
os substituíram.
Vita
Brevis, ars quoque brevis
E são tantas
as mortes, morridas e matadas. Temos a morte prematura que espalha
esqueletos estruturais nunca dantes ocupados pelas nossas cidades.
A morte de nascença em que o processo de arruinamento é por algum
motivo acelerado e o objeto arquitetônico deixa de existir pouco
tempo depois de habitado. A triste morte por vaidade, tão contemporânea
do silicone e do botox, em que o uso indiscriminado de intervenções
superficiais ou nem tanto acaba por assassinar a essência espacial
da edificação que morre pensando estar se tornando mais bela.
A morte por parasitas, esta tão comum que quase passa desapercebida,
tantas são os acréscimos exógenos e endógenos de que nos fala
Amorin. As cruéis mortes por abandono em que a obsolescência não
programada de edifícios como salas de cinema se desmontam a olhos
vistos antes de serem parcialmente revividos na forma de templos
ou até estacionamentos. E por fim a morte anunciada, resultado
da obsolescência programada da dinâmica imobiliária que vive de
decretar valores artificialmente inchados ou maldosamente esvaziados
e em ambas as modalidades retirar dali o que existe de vida arquitetônica
a ser substituído num ciclo sem fim e não menos perverso que a
própria morte.
Nesse caso
cabe perguntar o que fazer com os corpos cuja lenta decomposição
infesta o nosso olhar. A presença de tantos corpos arquitetônicos
espalhados pela cidade me lembra o ritual do Quarup, no qual o
corpo é enterrado em cova rasa, coberto com pouco mais de um palmo
de terra de forma que o cheiro da decomposição seja sentido por
todos na aldeia durante semanas. Enquanto durar a fedentina a
tribo inteira chora a perda de seu ilustre membro. Acabada a carne,
acaba o cheiro e acaba o luto.
Seria este
o mais nobre destino da arquitetura? Resistir às intempéries e
se fazer ruína mesmo quando ainda construção como canta Caetano
Veloso? Ou ser reciclada mais rapidamente para voltar à vida na
forma de matéria prima?
O livro de
Luiz Amorim inaugura uma pergunta importante para todos nós. Como
é que a cultura arquitetônica deveria lidar com a morte de seus
objetos, os espaços construídos? A tomar por este inovador obituário,
temos lidado muito mal com nossas mortes, apesar de a história
da arquitetura estar repleta de corpos sem vida.
Acontece que
diferentemente da morte humana, a morte arquitetônica pode ser
reversível, edifícios podem ser restaurados ou reconstruídos e
assim voltar da morte para o reino dos vivos. Que o diga o Pavilhão
de Barcelona de Mies, ressuscitado 50 anos após sua morte programada.
Ou seria o atual edifício remontado por Bohigas e Solá-Morales
apenas um clone sem alma?
De qualquer
forma, Obituário Arquitetônico: Pernambuco Modernista cumpre o
nobre e sempre doloroso dever de registrar a altíssima taxa de
natalidade que aflige nosso patrimônio moderno. Passado o luto,
a batalha da vida continua e se um edifício apenas for salvo da
morte ou restaurado de volta a vida em decorrência do esforço
de Luiz Amorim, terá valido a pena o pranto.
Fernando Lara, arquiteto,
doutor em arquitetura, docente da University of Michigan, EUA.
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