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Resenha 186 / dezembro 2007
Livro resenhado
FIX, Mariana. São Paulo cidade global: fundamentos financeiros de uma miragem. São Paulo, Boitempo Editorial, 2006, 192 p. ISBN 9788575590898 [imagem: imagem: recorte da quarta capa]

 

A nuvem financeira e o skyline
resenha de guilherme wisnik

“A rentabilidade do mercado financeiro com a segurança do mercado imobiliário”, era a promessa miraculosa anunciada na euforia da globalização dos anos 90, acompanhando a transformação de edifícios em títulos vendidos no mercado financeiro. Como é que, a partir de então, o capital se urbanizou em São Paulo? Os fundamentos desse processo são brilhantemente analisados por Mariana Fix em “São Paulo cidade global: fundamentos financeiros de uma miragem”.

No início da década passada, com a estabilização monetária, a desindustrialização, a entrada maciça de capital estrangeiro e a grande transferência patrimonial dela decorrente (privatizações), até a produção de imóveis passou a ser regida pela busca de mobilidade e liquidez. Na prática, as grandes empresas deixaram de estabelecer-se em sedes próprias, pensadas historicamente como patrimônios sólidos, e passaram a alugar andares de edifícios comerciais, podendo deslocar-se com mais facilidade no território. Já os novos proprietários, nesse esquema, deixaram de ser os empreendedores capitalistas tradicionais, tornando-se, doravante, investidores anônimos, como os fundos de pensão.

Assim, enquanto as empresas se beneficiam com a maior flexibilidade (podem aumentar ou diminuir seus quadros bruscamente, ou simplesmente abandonar o local, a cidade e o país), os investidores lucram à medida que um mercado se constitui como “novo vetor” de valorização imobiliária, em áreas com terrenos inicialmente baratos (vizinhos de favelas, com modesta infra-estrutura) que se tornam focos de grandes obras do governo em Operações Urbanas e “parcerias público-privadas”. Tal é o caso paradigmático do eixo Faria Lima-Berrini-Marginal Pinheiros, para o qual foram canalizados cerca de 85% dos investimentos públicos da cidade na década passada.

Esses novos edifícios corporativos de alto padrão são, portanto, como mostra Fix, “bases hospedeiras” para o capital transnacional em errante migração, realizando-se muitas vezes como enclaves globais em meio a metrópoles periféricas. Seu estudo se completa apontando a fratura desse processo local de globalização, uma vez que em São Paulo a aliança entre mercado imobiliário e de capitais mostrou-se imperfeita, truncada, dada a inexistência de um sistema de crédito efetivo no Brasil, como é o de hipotecas nos Estados Unidos e Europa. Assim, com as crises econômicas mundiais do final da década, mais a diminuição do ciclo de privatizações, o mercado imobiliário corporativo de São Paulo viveu uma crise de superoferta, assistindo a uma enorme queda nos preços e aumento na taxa de vacância dos imóveis, afugentando os investidores – só na nova Faria Lima 70% dos imóveis chegaram a ficar vagos. É quando incorporadoras emblemáticas como a Birmann, por exemplo, acabam quebrando.

O resultado é uma paisagem fantasma que arrebenta a infra-estrutura da cidade, num ciclo predatório em que o lucro vive do antiplanejamento. Ironicamente, esse processo de enorme concentração de renda e segregação espacial é financiado pelo Estado e por fundos em cuja origem está a histórica contribuição salarial dos trabalhadores.

Guilherme Wisnik é arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e mestre em História pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas na mesma universidade. Publicou diversos textos sobre arquitetura e colaborou no livro Paulo Mendes da Rocha. Assina coluna semanal sobre arquitetura no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo.

Texto originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada, segunda-feira, 28 maio 2007, p. E2.


Leia também "Antigamente, imóveis...", de Francisco de Oliveira, sobre o livro de Mariana Fix
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