A
nuvem financeira e o skyline
resenha
de guilherme wisnik
“A
rentabilidade do mercado financeiro com a segurança do mercado
imobiliário”, era a promessa miraculosa anunciada na euforia
da globalização dos anos 90, acompanhando a transformação de
edifícios em títulos vendidos no mercado financeiro. Como é
que, a partir de então, o capital se urbanizou em São Paulo?
Os fundamentos desse processo são brilhantemente analisados
por Mariana Fix em “São Paulo cidade global: fundamentos
financeiros de uma miragem”.
No início
da década passada, com a estabilização monetária, a desindustrialização,
a entrada maciça de capital estrangeiro e a grande transferência
patrimonial dela decorrente (privatizações), até a produção de
imóveis passou a ser regida pela busca de mobilidade e liquidez.
Na prática, as grandes empresas deixaram de estabelecer-se em
sedes próprias, pensadas historicamente como patrimônios sólidos,
e passaram a alugar andares de edifícios comerciais, podendo deslocar-se
com mais facilidade no território. Já os novos proprietários,
nesse esquema, deixaram de ser os empreendedores capitalistas
tradicionais, tornando-se, doravante, investidores anônimos, como
os fundos de pensão.
Assim, enquanto
as empresas se beneficiam com a maior flexibilidade (podem aumentar
ou diminuir seus quadros bruscamente, ou simplesmente abandonar
o local, a cidade e o país), os investidores lucram à medida que
um mercado se constitui como “novo vetor” de valorização
imobiliária, em áreas com terrenos inicialmente baratos (vizinhos
de favelas, com modesta infra-estrutura) que se tornam focos de
grandes obras do governo em Operações Urbanas e “parcerias
público-privadas”. Tal é o caso paradigmático do eixo Faria
Lima-Berrini-Marginal Pinheiros, para o qual foram canalizados
cerca de 85% dos investimentos públicos da cidade na década passada.
Esses novos
edifícios corporativos de alto padrão são, portanto, como mostra
Fix, “bases hospedeiras” para o capital transnacional
em errante migração, realizando-se muitas vezes como enclaves
globais em meio a metrópoles periféricas. Seu estudo se completa
apontando a fratura desse processo local de globalização, uma
vez que em São Paulo a aliança entre mercado imobiliário e de
capitais mostrou-se imperfeita, truncada, dada a inexistência
de um sistema de crédito efetivo no Brasil, como é o de hipotecas
nos Estados Unidos e Europa. Assim, com as crises econômicas mundiais
do final da década, mais a diminuição do ciclo de privatizações,
o mercado imobiliário corporativo de São Paulo viveu uma crise
de superoferta, assistindo a uma enorme queda nos preços e aumento
na taxa de vacância dos imóveis, afugentando os investidores –
só na nova Faria Lima 70% dos imóveis chegaram a ficar vagos.
É quando incorporadoras emblemáticas como a Birmann, por exemplo,
acabam quebrando.
O resultado
é uma paisagem fantasma que arrebenta a infra-estrutura da cidade,
num ciclo predatório em que o lucro vive do antiplanejamento.
Ironicamente, esse processo de enorme concentração de renda e
segregação espacial é financiado pelo Estado e por fundos em cuja
origem está a histórica contribuição salarial dos trabalhadores.
Guilherme Wisnik
é arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP, e mestre em História pela Faculdade de Filosofia
Letras e Ciências Humanas na mesma universidade. Publicou
diversos textos sobre arquitetura e colaborou no livro Paulo Mendes
da Rocha. Assina coluna semanal sobre arquitetura no caderno Ilustrada,
da Folha de S. Paulo.
Texto originalmente
publicado no jornal Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada,
segunda-feira, 28 maio 2007, p. E2.
Leia
também "Antigamente,
imóveis...", de Francisco de Oliveira, sobre o livro
de Mariana Fix
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