Utopia
como solução
resenha de denise teixeira
Sugerir um
Projeto Utópico como proposta de intervenção na cidade de São
Paulo pode parecer idéia de lunático. Mas, o que é a utopia se
não o “não-lugar” – o qual não existe –, ou uma sociedade ideal
desejada por todos nós? Falar de utopia na atualidade parece discutir
o impossível, aquilo que está distante e não trata da realidade.
Mas, vive-se hoje num mundo cada vez mais individualista, e os
problemas das cidades, qualquer que seja seu tamanho só se avolumam,
quando deveria ser tratado por todos. Questões como más condições
de habitação, transporte e meio ambiente degradado, marginalidade,
violência, baixa escolaridade, precário atendimento à saúde, entre
outros, são comuns a maioria dessas concentrações humanas, especialmente
nos países do terceiro mundo. Ou seja, as reflexões não estão
sendo suficientes para solucionar os problemas urbanos crescentes
e o que se constata são inúmeras produções acadêmicas descritivas
da problemática, com nenhuma ou sumárias indicações do que possa
amenizar o estado caótico crescente das cidades.
Utopia
e cidades: proposições de Denise Falcão Pessoa é uma ousada
proposta para pensar possíveis caminhos e enfrentar as dificuldades
que assistimos. E não sem razão ela trilha um caminho de muitos
arquitetos considerados utópicos ao longo da história, sempre
atentos à qualidade de vida na terra, pensando a cidade e sua
relação com a natureza, a habitação, a tecnologia, esboçando um
sonho de cidade ideal.
Existia um
rio chamado Tietê com leito sinuoso, profundo onde habitavam índios
nos seus arredores. Alguns homens acamparam na sua proximidade
e deram início a uma vila em 1554. Três séculos se passaram e
esse pequeno lugarejo começou a expandir, conseqüência de uma
lavoura próspera, o café. O Rio além de abastecedor de água abriga
portos de areia, importante atividade econômica,. A vila cresceu,
se transformou em cidade e trechos das margens dele foram ocupados
por espaços de lazer com clubes recreativos, onde se praticava
regatas e funcionavam inúmeros campos de futebol. Ao longo dos
anos, as grandes áreas de várzea, susceptíveis a inundações, foram
ocupadas pela população mais pobre que assistia suas casas serem
alagadas nos períodos de enchentes. Com as águas vinham também
sujeiras, que instauravam mau cheiro e disseminação de doenças,
acarretando sérias epidemias. Essas regiões precisavam ser saneadas,
pois passavam também a fazer parte da expansão da cidade.
São Paulo
já via desde 1842, as retificações dos seus principais rios –
Pinheiros, Tamanduateí e Tietê – como solução para os problemas
das enchentes freqüentes na cidade que crescia galopante. Porém,
a retificação do Rio Tietê só acontecerá nas décadas de 1950 e
1960, tentando resolver esta questão, mas também gerando grandes
lucros dos investidores nas áreas novas criadas na antiga várzea.
A Light (The São Paulo Tramway Light and Power Company Limited)
é o bom exemplo das vantagens obtidas durante anos, resultado,
inicialmente, do monopólio da produção e distribuição de energia,
como também dos lucros advindos da posse das terras adquiridas,
conseqüência da sua atuação nas retificações dos rios Tietê e
Pinheiros, o que comprova como determinados interesses obrigam
a execução de obras, nem sempre tidas como necessárias.
Com as mudanças,
o rio se descaracteriza. Ao longo dele, avenidas marginais são
implantadas, isolando-o da cidade. Problemas como o assoreamento
e o desassoreamento para retirar o material que se acumula no
seu trecho urbano, degradação ambiental e a persistência das enchentes,
entre outros fatores, levaram a questionar a retificação do rio.
A partir da
aproximação e conhecimento da história do Tietê, Denise Pessoa
relata de que forma o rio chegou ao estado deplorável em que se
encontra. Como solução para o enorme desastre ecológico e portanto
perverso para os habitantes de São Paulo ela propõe um projeto
utópico para o rio Tietê, considerando que “a abordagem baseada
em tecnologia, em custos, estatísticas etc., não está dando conta
de transformar o ambiente urbano, é necessário mudar esse olhar,
tirar o foco de um ponto próximo e voltá-lo para longe” (p. 186).
Projeto utópico, ousado, portanto idealizado e difícil de ser
alcançado, mas a autora argumenta que sendo a situação tão caótica,
sem possíveis soluções até então “há que se recorrer a utopia
para que se possa vislumbrar uma perspectiva que norteie o pensamento
e a ação” (p. 173).
Para chegar
ao seu projeto, ela investiga conceitos e pensadores visionários
que, diante das necessidades humanas, propuseram soluções ao longo
dos séculos que trariam aos homens melhores condições de vida,
com uma sociedade mais harmônica, onde o valor máximo seria a
sabedoria, a cultura, o conhecimento e a inteligência – como é
o caso da Cidade do Sol idealizada por Tommaso Campanella. O texto
faz um breve histórico sobre a origem da palavra utopia, referências
a Platão (Crítias é uma ilha Atlântida localizada entre a Líbia
e a Ásia, onde uma sociedade vive em harmonia, onde todos têm
um mesmo padrão de vida), aos renascentistas, como Thomas More
(Utopia descreve Amaurot, uma cidade do sonho, cidade nas
nuvens, castelo no ar, onde tudo é pensado chegando a detalhes
de materiais e dimensões), a Francis Bacon (Nova Atlântida) e
Johann Valentin Andreae (Cristianópolis – sociedade e cidade ideal,
baseada em religião, justiça e aprendizado).
A autora transita
também pelas utopias urbanas do século XVIII, destacando os visionário
Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), Etienne-Louis Boulée (1728-1799)
e Claude-Nicolas Ledoux (1736-1778), os quais tem como pressuposto
que “a cidade faz parte de um todo, e esse todo engloba não só
o sistema solar, mas todo o universo” (p. 34).
Referências
são feitas aos primeiros socialistas utópicos modernos, com suas
construções-modelos, como Robert Owen (1771-1858), propositor
do primeiro plano urbanístico moderno, desenvolvido no plano político,
econômico e financeiro, Saint Simon (1760-1825), elaborador de
uma teoria que propõe uma sociedade voltada para a classe trabalhadora,
e Charles Fourier (1772-1837) criador do falanstério (grande edifício
onde seriam realizadas todas as funções da cidade).
As cidades
Jardins, de Ebenezer Howard (1850-1928), a Ville Radieuse, de
Le Corbusier (1887-1965) e Brasília, de Lúcio Costa(1902-1998)
como representantes da idéia de um país utópico, são referenciados
e discutidos.
Ela trata
também do Manifesto Metabolista de 1960, uma proposta recente
para um Novo Urbanismo, tentativa de encontrar soluções para os
problemas decorrentes do crescimento da industrialização, considerando
questões de mobilidade, crescimento populacional, habitat, individualidade,
universalidade, comunicação e tecnologia. Este grupo, formado
por Kenzo Tange, Kiyonori Kikutake, Noriaki Kurokawa, Masato-Otaka,
Kiyoshi Awazu entre outros, considerava as grandes estruturas
urbanas preexistentes para reformular as cidades e não seus grandes
vazios. Com esse panorama das grandes metrópoles sugeriram projetos
arrojados, muitas vezes utópicos que vão de construções sobre
o mar até ocupações no espaço aéreo.
Após percorrer
os diversos projetos utópicos ao longo da história, ela chega
até a situação desastrosa em que vive o rio Tietê e comenta a
diversidade dos treze projetos propostos para sua recuperação.
O primeiro deles foi proposto por Jorge Wilheim (1967), seguido
de Cândido Malta Campos Filho (1973), Ruy Othake (1977), Paulo
Mendes da Rocha (1980), Oscar Niemeyer (1986), Décio Tozzi (1988),
Alexandre Delijaicov (1998), Marcos Acayaba (1990), Roberto Loeb
(1990), sendo o último de Bruno Padovano (1996). Contudo, o que
a autora avalia com muita propriedade é o fato da maioria não
tocar no cerne da questão, “que é o isolamento do rio, provocado
pelas avenidas marginais que secionam o espaço da várzea. Essa
fragmentação do espaço impede o uso das águas e margens como área
de lazer, impossibilitando o contato das pessoas com a natureza”
(p.125). Faz exceção ao Projeto de Niemeyer que suprime a Avenida
Marginal em um dos lados, próxima ao centro.
A autora constata
que a partir da década de 1970, os projetos utópicos escasseiam,
apesar dos problemas nas grandes metrópoles se agravarem, e coloca
uma questão: que utopia deve ser formulada hoje? A partir desta
pergunta, ela propõe a utopia como metodologia de projeto, “como
diretriz para orientar o desenvolvimento e as transformações da
cidade” (p.154). Considera o projeto utópico como o melhor, porque
inicia o trabalho de forma ideal deixando o pensamento livre.
Tendo como pressuposto teórico a utopia ela aponta um projeto
utópico: “O Retorno do Rio Tietê ao seu Desenho Original” para
que se possa recuperar a natureza perdida para dentro da cidade,
melhorando a qualidade de vida dos seus habitantes, resgatando
o percurso do rio, fazendo com que ele volte a ser fonte de vida,
de água potável, saúde e lazer e envolver toda a população da
cidade, levando-a a compreender e participar de toda a proposta.
Essa proposta
é baseada em três níveis de críticas: primeiro, aponta a manipulação
do solo urbano; segundo, mostra o descaso dos elementos naturais
do sítio urbano, como “os rios as várzeas, morros e matas apagados
da cidade para dar lugar a ruas, avenidas, edifícios, estacionamentos”
(p.179) que poderiam estar convivendo em harmonia com eles; e
a terceira crítica é quanto ao transporte urbano, que privilegia
o veículo particular em detrimento do coletivo, onde mostra a
estreita relação entre o uso do automóvel e a degradação da cidade.
A recomposição
do traçado original do rio, e assim sua recuperação e utilização,
parte da idéia de que com a retirada das avenidas marginais, as
áreas de várzea formarão um grande parque, e trarão a cidade para
conviver com o rio. Além disso, a autora sugere criar diques e
canais no encontro dos rios afluentes com o Tietê para conter
as águas das cheias e manter o nível do rio constante, recuperar
os campos de futebol de outrora, construir um sistema viário local,
ampliar a rede de metrô subterrâneo e de superfície, criar uma
rede cicloviária integrada ao metrô, implantação de edifícios-torre
residenciais, comerciais e institucionais, manter algumas indústrias
que empregam muita mão-de-obra na área do parque, criar um sistema
de segurança e, por último, construir um coletor tronco para captar
o esgoto da cidade e levá-lo para uma estação de tratamento adequada.
Utopias surgem
em períodos de grandes incertezas e são sempre proposições para
melhorar uma perversa realidade. Segundo a autora “é a utopia
que torna o mundo suportável”. Ela recorre ao conceito de sonho,
como a expressão do desejo aflorado do inconsciente, na interpretação
de Freud, e faz uma analogia com o sonho coletivo, que seria a
utopia de uma cidade ideal. Nesse trabalho tão bem ilustrado,
Denise Pessoa recupera a utopia como possibilidades de solução
não só para o Rio Tietê, mas para os grandes problemas que vivemos
nas cidades brasileiras e no mundo.
Denise
Mendonça Teixeira, arquiteta, mestre em Arquitetura e Urbanismo
pela Universidade Mackenzie com a dissertação “Plano Diretor do
Município de Ipiaú – BA: limitações e possibilidades”.
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