O
estudo dos concursos
resenha de pablo gleydson de sousa
O estudo dos
concursos, tendo em vista a relevância institucional deste instrumento
para a profissão do arquiteto bem como para a sociedade em geral,
oferece uma oportunidade singular para avaliar os valores da arquitetura
hegemônica de um período. É o que nos confirma Elisabete Tostrup,
em seu livro Architecture and rhetoric. Text and design in
architectural competitions (“Arquitetura e retórica, Texto
e projeto em concursos de arquitetura), publicado pela Andreas
Papadakis Publisher, onde a autora, através da análise da retórica
verbal e visual, analisa 36 projetos vencedores de concursos de
arquitetura para edifícios públicos em Oslo, entre 1931 e 1990.
Sua análise
considera tanto o material escrito quanto o gráfico, como peças
retóricas essenciais nos concursos, já que ambos envolvem discursos
argumentativos potentes e persuasivos nos quais, o orador, o autor
do projeto, pretende deliberadamente atrair adeptos a sua causa,
convencer com argumento visual e verbal, com desenhos e palavras.
Justificando
o seu material analítico, diz-nos a autora que a representação
em concursos deve conter as qualidades essenciais do projeto e
deve ser inteligível ao mesmo tempo ao júri e à audiência pública,
permitindo uma comparação entre o programa e o local. Porém, destaca,
apesar dos códigos gerais do desenho, cada profissional é um mediador
entre o edifício e sua representação. A autora sabe que a função
dos textos que acompanham os projetos é vista de forma diferente,
pelos diversos autores. Cita Constantin Spiridionis, para quem
os textos dos arquitetos podem ser discursos de legitimação auxiliares
aos projetos, ou meios de prover-lhes melhor compreensão, complementar-lhes
referências ou atribuir-lhes um significado. Para a sua análise,
Tostrup não considera o texto em si mas “a medida em que eles
provêm uma idéia do tipo de texto de que se valem os profissionais”.
Começando
com um breve histórico dos concursos, Tostrup nos diz que eles
pouco mudaram da renascença a atualidade, tendo sido após a revolução
francesa e a revolução industrial adaptados aos moldes de uma
instituição democrática, como extensão de uma economia de mercado.
Na Inglaterra do século XIX, onde a prática era comum até para
a clientela de classe-média, o “Royal Institute of British Architects”
(RIBA) teve de reformar o sistema das competições para combater
a eleição de projetos por júris inexperientes, que se deixavam
surpreender pela representação sem questionar características
técnicas de projeto.
Tendo em vista
o caráter publico das edificações analisadas, Tostrup destacou
nos principais capítulos da obra três aspectos chaves para apreender
seus valores dominantes: a inserção do novo frente ao antigo;
o espaço e suas concepções de uso; e as fachadas e suas interfaces.
Sobre o primeiro
tema, conclui que, de 1939 a 1990,houve uma dramática mudança
de atitudes em relação ao precedente arquitetônico. Nos primeiros
30 anos era comum a total erradicação do antigo, condenado nos
textos dos novos projetos e nas atas dos júris com termos como
sujo, velho, feio e obsoleto; devendo, portanto ser substituindo
por formas simples e marcadamente modernistas. Nos últimos 20
anos, passou-se à adaptação ao existente como forma de refinar
e enriquecer o ambiente. A retórica visual também mudou. No primeiro
período, o novo era exibido como objeto distinto e auto-suficiente,
cuja independência do ambiente era sublinhada. Posteriormente,
representa-se o novo como uma peça correlacionada ao ambiente,
integrante de um todo maior e coerente. O progresso não é mais
identificado pela remoção do velho, mas pela criação de uma totalidade
mais humana e atrativa, conforme cita Christian Norberg-Schulz:
“os edifícios são belos quando se ajustam ao lugar”, retomando
o conceito de genius loci.
Na década
de 1970, as apresentações apelam para discursos multidisciplinares
que abordam temas como política, cibernética, consumo de massa,
fisiologia animal, crises existenciais etc. Recorrendo a Elfensen,
define seis diferentes tendências na agenda arquitetônica de Oslo
na década 1980: uma nova expressão oficial que incorpora os métodos
pós-modernos em uma arquitetura pragmática; uma arquitetura de
alta tecnologia que incorpora a estética do vidro; uma busca de
aprofundamento de conteúdo e simplificação dos efeitos da estética
modernista; um interesse por uma arquitetura regional e orgânica
conectada a tradição; uma quebra consciente que inclui o pós-modernismo
como um estilo que deseja unir arquitetura de elite e um gosto
comum; e finalmente, a arquitetura e as idéias arquitetônicas
cotidianas.
Para o segundo
tema, a estrutura espacial – que Tostrup considera como a única
característica verdadeiramente arquitetural, não analisável por
nenhuma outra disciplina auxiliar – as principais fontes são plantas,
cortes, perspectivas, fotografias e maquetes.
No concurso
para o novo Edifício do Governo de 1939 o conceito dominante –
repetidamente afirmado também noutros concursos da primeira metade
do estudo – é a criação de ambientes de trabalho com iluminação
solar otimizada. Fixação que segundo a autora, ilustra um modo
estático de ver a vida, a usabilidade e o futuro: não se cogitava
a possibilidade de mudanças no decorrer da vida do edifício. Neste
concurso, a representação gráfica sublinha o abstracionismo das
propriedades espaciais e o importante não era o espaço em si,
mas o fato de haverem salas suficientes com luz ideal.
Prevaleceu
nas décadas de 1940 e 1950 o principio de edifícios esbeltos com
plantas as mais simples possíveis, e amplos espaços exteriores.
Nos anos de 1960, o foco foi a criação de ambientes que atraíssem
atividades e usuários diversos, como exemplifica o concurso do
Karl Johan Kvartelet, de 1962, no qual, para o júri, a verdadeira
competição foi travada quanto a solução interna do bloco. Venceu
aquele que conseguiu criar a ambiência mais humana, vivida e economicamente
viável possível. O júri sublinhou ainda a permeabilidade do complexo
aos transeuntes, assim como a homogeneidade como os espaços são
tratados em planta, que fortalece ao senso de grandiosidade e
unidade interna.
Nos anos 1970,
no concurso para o Banco da Noruega, o júri focou a estrutura
interna, resolvida pelo primeiro colocado num sistema xadrez de
grande versatilidade, que permite uma livre disposição dos ambientes.
Dadas as regras da organização em malha, o interior é opcional,
em espaços que são dominados por uma hierarquia abstrata ortogonal
e regular.
Na década
de 1980 os espaços são marcados pela diversidade tectônica, e
a diferenciação espacial e a sofisticação tecnológica típicas
são vistas como resposta a uma crescente requisição por pluralidade,
na mesma linha do desenvolvimento arquitetônico que confirma a
importância do problema espacial como o foco e direção essencial
em arquitetura.
A análise
textual dos espaços afirma o papel da metáfora em fortalecer a
mensagem do locutor: expressões como “nenhum escritório voltado
para o norte”, “solução liberatória”, “ótima configuração espacial”,
etc. são expressões que expandem a percepção criando associações
com referências que o leitor aplica ao contexto do projeto.
O último tópico
concerne às fachadas e interfaces arquitetônicas. Conclui que
ao longo dos 51 anos de projetos analisados as fachadas parecem
notavelmente similares, compondo um cenário dominado por paredes
leves com grelhas modulares retangulares de numerosos componentes
idênticos agrupados numa textura retangular. De 1950 a 1970, a
fachada como uma “pele” torna-se mais leve e esbelta, a distinção
entre sólido e leve, fechado e aberto é apagada, e as fachadas
parecem cada vez mais homogêneas. O desenho é marcado por um alto
grau de ambigüidade visual em relação à transparência da membrana,
e as linhas da grelha indicam somente ritmos modulares para subdivisões.
O design hegemônico é caracterizado pela uniformidade modular,
na qual há uma latente tendência a favor das fachadas suaves,
finas e ambíguas. Homogeneidade que Tostrup encara como representativa
da igualdade e do anonimato que espelham a moderna sociedade democrática
onde a malha repetitiva expressa o anonimato do setor privado
e da burocracia pública. Apesar da emergência de um design figurativo
na década de 1980, a única mudança no período diz respeito à proporção
e às particularidades desta configuração retangular.
Esta homogeneidade
é questionada por Tostrup: diante das paredes espelhadas, nossos
olhos podem vagar sem descanso em espaços intermináveis, nossas
mentes podem flutuar entre os reflexos, que juntamente com as
nuvens, o sol e os fragmentos ópticos dissolvidos das construções,
criam uma ilusão do paraíso se aproximando. As fachadas respondem
a nossos sonhos de levitação com uma retórica que pretende ser
modesta, quase inexistente no contexto terreno, impossível de
se confrontar. Elas não nos encontram, não podem ser tocadas,
e suas imagens se desintegram num perpétuo ato de desaparecer.
Uma expressão adequada de uma cultura narcisista, como se a criação
tecnológica fosse uma projeção humana de si mesma, perpetuamente
reproduzida.
A retórica
visual utilizada no desenho das fachadas enfatiza diferentes qualidades
e a inicial tendência de representação que sublinhava a novidade,
independência e auto-assertividade das novas fachadas, é substituída
nas décadas mais recentes pela de subjugar o impacto do novo exagerando
na suavidade e transparência.
Tostrup conclui
que há uma clara continuidade e homogeneidade nos concursos estudados.
As propostas vencedoras exibem bons projetos, muitos dos quais
executados com elegância e consistência, reforçam a noção dos
concursos como palco dos valores centrais prevalecentes na profissão.
A retórica dos concursos relaciona a arquitetura e sociedade.
Tanto verbal como visualmente a retórica apresenta o novo estado
de bem-estar e a alienação da arquitetura antiga no primeiro período,
enquanto mais tarde, a adaptação do novo ao antigo é enfatizada.
Fica-nos a
inquietação de que, apesar de publicado em 1999 o livro de Tostrup
segue praticamente desconhecido no Brasil, aonde a temática dos
concursos vem suscitando cada vez mais interesse dos profissionais
e dos pesquisadores de arquitetura. Tanto mais que sua abordagem
oferece um suporte teórico potencial, e um método de pesquisa
bastante claro, àqueles interessados no estudo da arquitetura
mediante o estudo da retórica gráfica e textual que compõem o
projeto de arquitetura.
Pablo
Gleydson de Sousa é Arquiteto e Urbanista pela UFRN (2005) e desenvolve
mestrado acadêmico no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura
e Urbanismo PPGAU/UFRN(2007) pesquisando na área de Teoria da
Arquitetura, especificamente na Teoria do Projeto com estudo de
caso em Projeto e Representação Gráfica.
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