Brasília,
a cidade além do desenho
resenha de nanah s. vieira
O texto “Fragmentos
para um discurso sociológico sobre Brasília” apresenta,
como diz o próprio título, diversos fragmentos sobre possibilidades
de pesquisa sociológica e uma relação de fontes bibliográficas
sobre a capital do país, Brasília. A idéia central do texto gira
em torno do fato de não haver ainda um discurso e um número relevante
de pesquisas sobre o aspecto social da cidade. Assim, o objetivo
do autor, um habitante da cidade, é dar os passos iniciais na
tentativa de construção desse discurso que visa analisar de que
forma se estrutura nessa cidade pensada e desenhada uma vida social
com sentido, um cotidiano, uma tradição, folclores típicos, uma
cultura local, ou seja, uma realidade palpável no lugar do sonho.
Nunes trabalha
com os conceitos de espaço urbano, interação social, inclusão/exclusão
social, imagem e imaginário, identidade social, cultura urbana,
espaço social e comportamento social.
O texto em
questão é composto pelas reflexões do autor acerca da jovem capital.
As questões abordadas por ele relacionam a curta existência da
cidade planejada, “um patrimônio cultural da humanidade”,
e a intenção de dar os primeiros passos na construção de um discurso
que relacione a sua existência com os seus significados sociais.
No início
do texto, Nunes exprime alguns sentimentos com relação ao território
da cidade, estranhando, por exemplo, o vazio que se mantém na
cidade com poucas pessoas nas ruas e muitos terrenos sem construções.
Para ele, o vazio que existia no cerrado antes da construção da
capital, e que ainda se mantém, deve ter causado tanto um fascínio
como uma angústia perturbadora nos responsáveis pela criação da
nova capital. Assim, nesse primeiro momento, Nunes aponta as duas
dimensões para se pensar o aspecto social de Brasília: de um lado,
o fato de a capital ter sido construída a partir de um planejamento
urbano idealizado e, no lado oposto, a questão de como esse espaço
pode agregar as pessoas se tornando um referencial simbólico da
sociedade brasileira.
Nunes mostra
como o par dicotômico atração e repulsa é uma forte
característica de Brasília, válida tanto para seus habitantes
como para os que nela não vivem. Se, por um lado, a arquitetura
da cidade é diferente de tudo o que se vê no resto do país, por
outro, a cidade é citada nos meios de comunicação diários sempre
que o assunto é a política nacional. Assim, a cidade se torna
ao mesmo tempo estranha e presente. Essa dualidade também é marcante
no próprio território da capital resultando na falta de interação
social entre o Plano Piloto e as cidades satélites. Soma-se a
esses exemplos, o fato de a maioria dos moradores da cidade não
terem nascido nela e, portanto, não terem em Brasília suas raízes
culturas e sociais. Dessa maneira, o morador da cidade não sente
que pertence nela. De acordo com o autor, a imagem de Brasília
está intrinsecamente associada aos políticos e suas práticas,
como se apenas não existisse o brasiliense comum. Da mesma forma
também são excluídas as oportunidades de saber quem é esse brasiliense
ou o que ele pensa. O que se sabe de Brasília além de sua arquitetura
moderna e da vida política? Para o autor, resgatar o discurso
do candango seria uma forma de construção de uma identidade social
e de uma cultura local, pois essa característica multi-regional
e multi-cultural, a distância entre o Plano Piloto e as cidades
satélites e a própria organização do espaço social e físico resultam
em uma cidade que parece não possuir uma cultura própria. Porém,
como o próprio autor nos mostra: “uma cidade com trinta
anos de existência é suficientemente jovem para se dar ao luxo
de uma certa ausência de identidade. Ao mesmo tempo, essa falta
de identidade vai ser sua marca registrada. [...] Brasília não
é terra de ninguém” (p. 18). Ou pelo menos não há trabalhos
voltados para esse tipo de compreensão, adverte o sociólogo.
Outra característica
da nova capital é, ainda na dimensão das dualidades, a existência
do par opulência e miséria no mesmo território. Enquanto o espaço
do Plano Piloto choca pela sua excelente infra-estrutura (quadras
de esporte, áreas verdes, parquinhos para crianças, asfalto de
primeira qualidade, trânsito razoavelmente tranqüilo etc), as
cidades satélites incomodam pela desorganização e pobreza. Assim,
é óbvio que a forma como se dá a organização do espaço social
e físico no Distrito Federal influenciam o comportamento do habitante
do Plano Piloto e das satélites. Na opinião do autor, é possível
que o funcionamento do Metrô possibilite maior interação entre
esses indivíduos, tornando o Plano Piloto algo mais heterogêneo
e com menos aspecto de uma “ilha da fantasia” alienada
e alienante.
A sensação
monótona de vazio é tão forte em Brasília que ela não chega a
ser considerada um grande centro urbano. Sua vida cultural está
longe de atrair tanto quanto cidades como Rio de Janeiro, São
Paulo ou Nova York, por exemplo. O estrangeiro que vem a Brasília
vem a trabalho e nada mais. A relação que ele cria com a capital
é a de quem vive uma situação provisória demais para valer a pena
o esforço da integração e, assim, poder viver intensamente a cidade.
O texto resenhado
é de fundamental importância para se pensar a capital. Ele atinge
seu objetivo porque aguça os sentidos, estimula a curiosidade
e provoca a indignação por apontar “fragmentos” de
problemas que passam desapercebidos pelo olhar acostumado com
o cotidiano de quem vive na cidade. Porém, como o texto é de 1997,
algumas questões apresentadas por ele já foram modificadas –
como a questão do metrô, por exemplo - e alguns dados se mostram
ultrapassados, o que traz a necessidade da atualização da problematização.
O texto não considera a existência de uma geração de brasilienses
porém atualmente é comum um morador adulto da cidade ter nascido
e crescido em Brasília e junto com ela. Assim, essa geração pode
ser um excelente material para pesquisa na busca da construção
de um discurso sociológico sobre Brasília. Vejo também que, apesar
de o texto citar a importância do jovem na capital, acredito que
essa passagem tenha sido muito rápida em vista de que é o jovem
que busca com maior intensidade a integração. Com ele, surgem
os grupos sociais, as galeras chamadas “tribos urbanas”,
tão típicas da cidade. Mesmo quando são filhos de diplomatas,
políticos, funcionários públicos ou prestadores de serviços, esses
jovens acabam se misturando nas escolas, nos clubes, nas quadras,
nas festas etc. Para entender Brasília deve-se ouvir o que a juventude
brasiliense tem a dizer: seus sonhos, perspectivas, medos, preconceitos
etc.
Minha crítica
com relação ao texto é na falta de consideração com a mulher candanga.
No geral, fala-se do resgate do discurso do candango mas pouco
se fala das mulheres candangas. Aquelas que, ou vieram acompanhar
seus maridos nas aventuras da nova capital, ou que vieram sozinhas
para também conseguir melhores oportunidades de vida. Como essas
mulheres foram recebidas? Quais as dificuldades encontradas por
elas na nova capital? São muitas as questões que poderiam ser
esclarecidas sob essa perspectiva.
Nanah S. Vieira é estudante
de graduação em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília
– UnB e atua como colaboradora no projeto Laboratório Brasília,
do Grupo de Pesquisa “Cidades e Sociabilidades” do
Departamento de Sociologia da UnB.
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