Monografia
sobre Salvador Candia e a necessidade de um diálogo acadêmico
(1)
resenha de abilio guerra
Sobre a arquitetura
moderna no Brasil, durante décadas tivemos disponível pouca coisa
além dos mitológicos Brazil builds (Philip Goodwin, 1943)
e Arquitetura moderna no Brasil (Henrique Mindlin, 1956).
Contudo, o que podemos constatar agora, observando os últimos
15 anos, é uma crescente e cada vez mais sólida produção historiográfica
sobre a arquitetura brasileira do século XX (2). O surgimento
e consolidação dos cursos de pós-graduação em São Paulo e no Rio
de Janeiro, fenômeno depois acompanhado por outras importantes
capitais e cidades brasileiras, acabou permitindo que, dentre
outras temáticas igualmente relevantes, a abordagem monográfica
(3) de arquitetos brasileiros fosse reiteradamente testada e desenvolvida.
Como era o
esperado, os personagens mais expressivos de nossa arquitetura,
como Oscar Niemeyer (4), Affonso Eduardo Reidy (5), Vilanova Artigas
(6), Rino Levi (7), Oswaldo Bratke (8), Lucio Costa (9) e Burle
Marx (10), foram alvos de mestrados e doutorados, alguns deles
merecedores de duas ou mais pesquisas sobre aspectos variados
de suas obras. Estas pesquisas vieram a se alinhar àquela que
talvez seja a monografia precursora, ao menos em São Paulo – a
sobre Flávio de Carvalho, de autoria de Luiz Carlos Daher (11)
– e que viria a se transformar em livro marco de nossa historiografia.
A seguir, tivemos uma profusão de trabalhos que escrutinaram arquitetos
de nossa tradição moderna. A convergência geográfica se deu nas
capitais de Rio e São Paulo, aonde temos o adensamento do debate
cultural arquitetônico e conseqüente produção qualificada, como
também o pioneirismo dos cursos de pós-graduação na área de arquitetura,
a FAU-USP e a FAU-UFRJ.
Do universo
carioca podemos mencionar, dentre outras, dissertações de mestrado
e teses de doutorado sobre os arquitetos Attilio Correa Lima (12),
Francisco Bolonha (13), Alcides da Rocha Miranda (14), Jorge Machado
Moreira (15), Irmãos Roberto (16) e Severiano Porto (17). Do universo
paulista é possível mencionar Paulo Mendes da Rocha (18), Pedro
Paulo de Mello Saraiva (19), Abrahão Sanovicz (20), Carlos Millán
(21), Eduardo Longo (22), Eduardo Kneese de Mello (23), Artacho
Jurado (24) e Eduardo de Almeida (25). Algumas pesquisas monográficas
mereceram uma versão publicada em livro, duas delas por nossas
mãos – uma sobre o chamado Grupo Arquitetura Nova, formado
pelos arquitetos Flavio Império, Sérgio Ferro e Rodrigo Lefrève,
pesquisa de Ana Paula Koury (26); outra, de autoria de Luciana
Tombi Brasil, sobre residências de David Libeskind (27).
Mesmo arquitetos em plena atividade, como Marcelo Ferraz e Francisco
Fanucci (Brasil Arquitetura) e Marcos Acayaba, já estão merecendo
a atenção acadêmica, com pesquisas atualmente em curso (28).
Também é flagrante
o aumento quantitativo e qualitativo de centros emergentes de
pesquisa, com destaque para as pós-graduações em São Carlos (EESC-USP),
Porto Alegre (FAU-UFRGS) e Salvador (FAU-UFBA), onde é possível
se encontrar pesquisas sobre arquitetos de inserção local ou nacional
(29). Se há alguns anos o estudo de um arquiteto com atuação regional
se dava necessariamente no eixo Rio–São Paulo – caso, por exemplo,
da presença de Luiz Nunes no Recife (30) –,já há algum tempo é
possível verificar que eles são estudados na própria região, o
que melhora muito as condições de pesquisa devido à proximidade
com a obra e o acervo, como se pode verificar nos casos dos arquitetos
Fernando Corona em Porto Alegre (31), Assis Reis em Salvador (32)
e Luiz Gastão de Castro Lima em São Carlos (33).
No caso de
São Paulo, devido às circunstâncias específicas da imigração,
temos ainda a presença de arquitetos estrangeiros como Gregori
Warchavchik (34), Lina Bo Bardi (35), Giancarlo Palanti (36),
Lucjan Korngold (37), Hans Broos (38) e Franz Heep (39), que também
já mereceram suas teses e dissertações. Com exceção dos dois primeiros,
que contam com inserções muito específicas no universo arquitetônico
brasileiro – o papel pioneiro de Warchavchik e o imenso protagonismo
de Lina –, as pesquisas sobre as obras dos estrangeiros é mais
recente e só foi possível após uma mudança de ótica das pesquisas,
que em um primeiro momento se estabeleceu nos limites dados pela
visão de “arquitetura moderna brasileira” forjada por Lucio Costa
e difundida por décadas de forma recorrente e crescentemente empobrecedora,
ao ponto de virar axiomática (40). O processo de revisão crítica
nos anos 1990 permitiu o surgimento de novas pesquisas menos comprometidas
com um pretenso caráter nacional de nossa arquitetura, o que viabilizou
não só a presença dos arquitetos estrangeiros nas monografias
acadêmicas – corrigindo uma distorção constrangedora, pois a presença
deles é um dos dados mais flagrantes na paisagem urbana de São
Paulo –, mas também um novo olhar sobre os arquitetos brasileiros.
Com isso foi
possível se constatar as múltiplas influências sofridas por nossa
arquitetura ao longo das décadas, matizando de forma significativa
o monocromatismo inicial que enxergava de forma míope (talvez
seja mais apropriado dizer “daltônica”) apenas o filão corbusiano
original, que seria a mola propulsora de um desenvolvimento particular,
que muitas vezes ganhou os contornos de um processamento endógeno,
sem vasos comunicantes com a produção externa. O afrouxamento
inicial desses grilhões e seu posterior rompimento permitiram
a comprovação de arquiteturas brasileiras ancoradas em outras
produções do universo moderno, trazendo para a cena nacional figuras
como Frank Lloyd Wright, Richard Neutra (41), Walter Gropius,
Alvar Aalto, etc. Hoje já é corriqueiro se ouvir referências aos
wrightianos (42) ou miesianos paulistas, o que é a face mais visível
deste fenômeno ocorrido dentro das hostes acadêmicas. É nesse
pano de fundo que o episódio das bienais de São Paulo ganha vulto
e expressão, pois são momentos onde a interlocução com as idéias
estrangeiras se potencializa, graças à presença ao vivo de importantes
artistas e arquitetos da Europa e Estados Unidos. Não é possível
ficarmos impassíveis diante das presenças de Le Corbusier, Walter
Gropius, Mies van der Rohe, Marcel Breuer, Siegfrid Giedion, Kenzo
Tange, Ernesto Rogers, etc. A extrema importância das diversas
edições da Bienal tem ganhado cada vez mais presença nos trabalhos
acadêmicos recentes e se apresentam como importantes assertivas
nas argumentações centrais das hipóteses do nosso desenvolvimento
cultural.
Em processo
paralelo e provavelmente articulado a esta ampliação das referências
externas pode-se observar igualmente uma crescente ampliação dos
pontos de vista com os quais os arquitetos e suas obras são observados.
Se há alguns anos havia uma clara predileção pela cobertura horizontal
da obra de um determinado arquiteto, hoje tal atitude convive
com aportes mais específicos, que podem variar da seleção de uma
(43) ou algumas obras (44) a aportes ideológicos que elegem um
aspecto da obra do arquiteto (militância política, programa específico,
docência, etc.).
A interessante
dissertação de mestrado de Eduardo Rocha Ferroni, intitulada Aproximações
sobre a obra de Salvador Candia, pode ser inserida dentro
deste último encaminhamento. Mesmo diante da constatação de que
se trata da primeira aproximação mais sistemática da obra do arquiteto,
o autor não pretende realizar uma cobertura extensiva e aprofundada
da vida e obra do arquiteto, mas observá-la a partir de alguns
critérios específicos – relação do edifício com o contexto urbano,
a coerência formal e aspectos construtivos – e a partir de uma
clara e assumida influência exercida pela obra do arquiteto alemão
Mies van der Rohe – em especial a realizada durante seu longo
exílio nos Estados Unidos – sobre a de Salvador Candia. O autor
chega a mencionar em sua breve Considerações finais que
a obra de Candia “procura ainda estabelecer uma interlocução com
a arquitetura moderna produzida nos Estados Unidos no segundo
pós-guerra, notadamente a realizada pelos arquitetos da Bauhaus,
como Breuer, Gropius e Mies van der Rohe” (p. 221), mas acreditamos
que a relação estabelecida de uma forma mais orgânica se dê apenas
com o último.
Como é natural
e esperado em trabalhos monográficos, o autor se preocupa em trazer
à tona as vicissitudes particulares da trajetória do arquiteto,
atendendo às expectativas de relacionar vida e obra ao longo do
tempo. É possível assinalar aqui certa timidez no desenvolvimento
das várias questões levantadas, que poderiam render – provavelmente
– algumas constatações interessantes. Apenas para exemplificar,
poderíamos citar a erudição do arquiteto – mencionada por algumas
vezes ao longo do trabalho –, que poderiam render diversas relações
intelectuais e afinidades eletivas, amparando inclusive a explicação
para preocupações recorrentes e decisões estéticas particulares.
Vale ainda realçar que tal erudição nem sempre é visível nos textos
escritos pelo próprio arquiteto (em anexo no trabalho), alguns
deles marcados pela extrema superficialidade e, em alguma medida,
dogmatismo. Também sua sugerida vida de asceta não é comentada
em suas derivações imediatas e mediatas que tal condição em geral
implica. Nesse sentido, as abordagens do âmbito pessoal não vão
muito além das curiosidades biográficas, e sua importância se
concentra no rol de relações pessoais, aonde se verificam as presenças
de nomes de arquitetos e artistas com os quais vai estabelecer
vínculos profissionais de colaboração.
Vale assinalar
que a intenção manifesta pelo autor de “compreender o processo
de formação do arquiteto” só se realiza na acepção prosaica do
termo, não se enveredando pela acepção culta consagrada entre
nós pelas linhas de pesquisa inauguradas por Antonio Candido ou
pela psicanálise de extrato freudiano. Também é flagrante a ausência
de uma veia marxista na análise da origem de classe social (somente
mencionada) e sua importância na conformação da visão de mundo
pessoal do arquiteto. Não se trata de uma crítica específica ao
presente trabalho, mas uma constatação de que há muito a ser feito
neste tópico nas pesquisas em arquitetura no Brasil. Se houvesse
uma preocupação mais transversal no balanço do ambiente cultural,
talvez não passasse despercebida, no editorial “As quatro bestas”
do primeiro número da revista Pilotis (da qual Candia foi
um dos editores), a tardia discussão de quase três décadas acerca
do papel da arte moderna, o que denuncia um ambiente intelectual
um tanto desatualizado, ao menos na redação da revista.
Associando
metaforicamente aspectos da visão retrógrada às quatro bestas
do Apocalipse, –aqui denominadas de “Má fé”, “Presunção”, “Ignorância”
e “Desonestidade” – o editorial do primeiro número da revista
Pilotis, de 1950, afirma que “o barulho de suas patas ainda
nos aborrece, aclamando pela arquitetura que nunca existiu, as
do Grand Prix de Rome, pela única pintura à qual os ignorantes
estão habituados, aquela que se assemelha à natureza por eles
vista sem fantasia, sem coração e sem cérebro” (p. 35). A expressão
parece ser uma paródia consciente ou inconsciente de famosa passagem
de Oswald de Andrade no Manifesto da Poesia Pau-Brasil,
de 1924: “Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo,
não prestava”. Não deixa de ser extemporâneo que uma temática
tão antiga ainda sobreviva como preocupação intelectual um quarto
de século depois...
De qualquer
modo, as passagens sobre a vida estudantil de Salvador Candia
joga muita luz sobre a compreensão da conformação dos grupos de
arquitetos que vão se constituindo a partir dos bancos escolares
das duas faculdades de arquitetura – o Mackenzie, aonde se forma
o arquiteto homenageado, e a USP. A relação de arquitetos e futuros
arquitetos daquele período e que são vinculados ao Mackenzie aponta
para uma qualidade intelectual surpreendente dos alunos – Oswaldo
Bratke, Roberto Carvalho Franco, Plinio Croce, Miguel Forte, Roberto
Aflalo, Jacob Ruchti, Carlos Millán, Jorge Wilheim, Carlos Lemos,
etc. – e o papel de liderança de um professor, o excepcional Franz
Heep. Esta “turma” se articula em contraponto à turma do outro
lado, liderada por Vilanova Artigas, conformando um litígio que
atravessa os anos e as décadas. Conflito que se mostra estéril,
como de forma consistente assinala Julio Katinsky: “e assim perdeu-se
grande parte da consciência de que suas utopias eram partes complementares
de uma mesma generosa visão da cultura e da sociedade” (p. 50).
Mesmo considerando que talvez haja uma exagerada acomodação das
diferenças, tais palavras apontam para o beco sem saída da disputa.
E o fato de serem tratados sem qualquer preconceito nesta dissertação,
assinada por um arquiteto formado na FAU-USP e defendida na FAU-USP,
merece a devida atenção, pois assinala por si só o ambiente atual
de mútuo reconhecimento, que felizmente está ultrapassando períodos
anteriores de pequenos e grandes ódios desagregadores fundados
na intolerância ideológica.
Esta propensão
“ecumênica” de Eduardo Ferroni, que identificamos como algo extremamente
positivo, pode ser constatada em uma excelente passagem do trabalho,
onde faz uma exegese corajosa das palavras de Christiano Stockler
das Neves. A partir de um texto que uma leitura mais apressada
só enxergaria um reacionarismo intelectual sem salvação (e é bom
que se diga que em grande parte trata-se de uma visão verdadeira
do personagem em questão), merece de Eduardo Ferroni a observação
de que “as suas preocupações se mostraram até certo sentido pertinentes”,
pois de fato o despojamento estilístico da arquitetura moderna
implicou para o arquiteto, em alguma medida, a perda de conhecimentos
específicos e de prerrogativas no campo profissional, como a própria
vida profissional do odiado (pelos arquitetos modernos) diretor
da FAU-Mackenzie acabou demonstrando.
Ainda sobre
o grupo – ou “grupos” – de arquitetos mackenzistas, Eduardo Ferroni
detecta uma interessante propensão ao trabalho colaborativo, com
a pouca incidência de trabalhos individuais, uma vez que os projetos
são quase sempre assinados por dois, três ou mais arquitetos.
Tal propensão talvez explique também a maleabilidade com que se
portam tais arquitetos, Candia dentre eles, na absorção das influências
de arquitetos brasileiros mais velhos e dos arquitetos estrangeiros,
como já comentamos acima. O autor menciona tais relações de forma
enfática, afirmando que este grupo de arquitetos, buscando alternativas
à forte presença carioca, tentava firmar “suas bases em um repertório
distinto daquele empregado de forma hegemônica pelos cariocas,
indo buscar suas referências nos Estados Unidos através de Wright,
Mies, Gropius, Breuer, Neutra, e se aproximando de Oswaldo Bratke,
Franz Heep e Rino Levi no Brasil” (p. 64). Tal comportamento gera
situações de enorme importância cultural em São Paulo, não só
na arquitetura, mas também em áreas contíguas, como é o caso do
design, enriquecido com o surgimento do estúdio Branco e Preto,
de propriedade de vários ex-mackenzistas (45).
As considerações
apresentadas acima foram em grande parte sucitadas pelo primeiro
capítulo da dissertação – “Formação e parcerias de trabalho” –,
mas os outros três capítulos – “Emergência de novos programas”,
“Questões recorrentes” e “Leitura de três projetos” – contam com
diversos pontos de contato com os trabalhos mencionados, tanto
na busca de uma conexão dos fenômenos arquitetônicos específicos
com o pano de fundo histórico, econômico, social e cultural (relações
transcendentes do objeto com o mundo), como no estabelecimento
de critérios e juízos que permitam a compreensão do edifício arquitetônico
em suas questões internas (relações imanentes do objeto artístico).
Como Eduardo
Ferroni se propõe a estudar com especial cuidado três projetos
de autoria de Salvador Candia – a Galeria Metrópole (co-autoria
de Gian Carlo Gasperini), o Edifício Joelma e o conjunto de Perdizes
(co-autoria de Plinio Croce e Roberto Aflalo) –, todos eles edifícios
altos, se vê obrigado a relacioná-los ao processos de verticalização
e metropolização da cidade de São Paulo, munindo-se de informações
buscadas em bibliografia secundária contidas em trabalhos acadêmicos,
em especial os de Regina Meyer, Nadia Somekh, Candido Malta Campos,
Renato Anelli e Mario Figueroa. Neste ponto o trabalho fica mais
sólido, pois as questões presentes nestes textos permitem ao autor
circunscrever com mais acuidade os “novos problemas” detectados
pela revista Pilotis n. 4, de 1950, ocasião na qual Salvador
Candia e colegas editores descrevem os “novos programas” engendrados
pelos processos de verticalização e metropolização e que caberiam
aos arquitetos resolver: o “grande prédio de escritórios”, a “grande
loja de departamentos” e o “grande prédio de apartamentos” (p.
75).
As diversas
abordagens contidas na bibliografia manipulada – processos econômicos,
evolução da legislação, mercado imobiliário, ação do Estado, etc.
– explicam, em um sentido geral, o pertencimento do fenômeno arquitetônico
aos processamentos mais amplos no âmbito da sociedade. Assim,
a Galeria Metrópole se alinha tanto ao lado dos outros grandes
edifícios multiuso dos anos 1950, como junto a uma série de galerias
do centro da cidade. Com isso, as grandes qualidades verificadas
no projeto de Candia e Gasperini – mix amplo de programas e permeabilidade
ao nível do solo – são compartilhadas com outros edifícios da
cidade, dando um caráter mais universal a características específicas.
Contudo, é também visível uma carência bibliográfica da qual se
ressente o trabalho em diversas passagens (a bibliografia que
citamos até aqui está praticamente toda ausente), em especial
nas observações referentes ao edifícios multiuso e galerias do
centro da cidade, situações onde não se verifica o mesmo ecumenismo
já destacado no trabalho ao se referir às gerações de arquitetos.
Nesse ponto específico se detecta uma excessiva endogenia bibliográfica,
com o argumentos retirados de dissertações recentes de um grupo
muito estrito de arquitetos. Parece até que a relevância desses
edifícios – Conjunto Nacional, Copan, Nações Unidas e outros –,
das galerias – Metrópole, Califórnia, Ipê, etc – e até mesmo de
diversos projetos ícones da cidade só foi notada por este grupo
de jovens pesquisadores (46).
Há também
algum descuido em relação à discussão internacional em voga no
âmbito da arquitetura moderna, o que acaba prejudicando um tanto
a passagem da quantidade constatada no processo de verticalização
e metropolização para a qualidade contida nas discussões intestinas
da arquitetura moderna. A total ausência da discussão presente
no VIII CIAM, que discute o conceito de “coração da cidade” (Hoddesdon,
1951), impede uma compreensão mais funda das novas relações entre
arquitetura moderna e cidade tradicional a partir dos anos 1950
e que na cidade de São Paulo terá como cena a necessidade de se
construir em lotes estreitos e profundos, herança da divisão territorial
fragmentária de períodos anteriores, e tendo como contexto um
centro tensionado entre uma breve história consolidada e as forças
de transformação constante.
A ausência
desta discussão permite que fique apenas delineada a distinção
entre a arquitetura moderna erigida dentro do lote urbano consolidado
e no terreno livre, que poderiam – ou “deveriam”, no nosso entendimento
– estruturar um estudo mais comparativo entre a Galeria Metrópole
e o conjunto de Perdizes (dois dos três estudos de caso do quarto
capitulo), pois estes são projetos que ilustram procedimentos
urbanísticos completamente distintos: a intervenção na cidade
consolidada (ou em processo de consolidação), cheia de referências,
interferências e condicionantes de toda ordem; e a intervenção
na cidade nova, da gleba livre, com ausência de referências urbanas
mais fortes. A opção pelas torres livres neste último caso permitem
a concepção do magnífico edifício João Ramalho, leitura específica
dos arquitetos Candia, Aflalo e Croce para os encaminhamentos
propostos por Le Corbusier e Mies van der Rohe para o chão desimpedido.
Ao contrário, Candia e Gasperini tomarão outro caminho para resolver
as múltiplas interferências presentes no terreno aonde será construído
a Galeria Metrópole, chegando a um grau surpreendente de comprometimento
com o existente. Sob esta ótica, o Edifício Joelma – o terceiro
dos três estudos de caso e mais conhecido pela marca trágica do
incêncio ocorrido em 1980 – torna-se mais desinteressante, pois
trata-se de um projeto mais voltado para resoluções formais e
programáticas e sua relação com a cidade se dá quase que exclusivamente
por sua presença totêmica. Parece que o próprio autor não está
convencido de sua importância protagônica, pois lhe dedica muito
menos atenção, com breves comentários (47).
Deixamos para
o fim a menção à maior qualidade que enxergamos na dissertação
de mestrado de Eduardo Ferroni e que somada aos outros aspectos
positivos já elencados conformam um trabalho de pesquisa que merece
atenção. No trecho específico sobre a Galeria Metrópole são manipuladas
informações de diversas instâncias – projetos anteriores de Gasperini
e Candia, influências arquitetônicas, visões sobre urbanismo,
agenciamento de programas, modificações em obra, relações com
os agentes imobiliários, etc. –, gerando uma aprofundada compreensão
da sua realização. Ao final da leitura do subcapítulo temos um
panorama muito completo da sua qualidade arquitetônica e da sua
importância para a cidade. Nas palavras de Roberto Piva e Maria
Adelaide do Amaral se nota o simbolismo de sua presença na cena
cultural dos anos 1960. Na descrição cuidadosa dos dois projetos
iniciais, apresentados de forma independente por Candia e Gasperini,
podemos observar as idéias principais que se materializarão posteriormente
no conjunto construído, realização conjunta dos dois arquitetos,
por imposição do júri do concurso, que os premiou igualmente com
o primeiro lugar. Mais ainda: é possível constatar como a somatória
das idéias gera um projeto que é muito melhor do que os dois originais
– um pouquinho mais de água no moinho do trabalho coletivo e a
recusa, por parte de Ferroni, em elevar em demasia seu objeto
de estudo... Nas referências às obras dos arquitetos alemães Mies
van der Rohe e Egon Eiermann podemos constatar não só o nível
da interlocução estético-cultural em curso naquele momento, como
também as predileções do arquiteto estudado. Na discussão sobre
as soluções técnico-construtivas propostas pelos arquitetos e
as que foram de fato assumidas pelos promotores temos um excelente
desenho da cena civilizacional, onde as idéias esbarram em impossibilidades
tecnológicas e financeiras. Tudo isso aliado a uma rica documentação
iconográfica, com croquis, desenhos, fotografias de época, diagramas
atuais, etc., que tornam a leitura do projeto não só possível,
mas um prazer. A fartura documental é possível por ser Eduardo
Ferroni o responsável pela organização inicial do acervo de Salvador
Candia, que se encontra atualmente na Escola da Cidade. Sua intenção
é, segundo suas próprias palavras, “constituir uma mostra organizada
para consulta, e subsidiar a curadoria do material a ser posteriormente
restaurado, digitalizado e disponibilizado ao público” (p. 15).
Com isso, o autor acabou sendo responsável por uma pesquisa ampla,
cujo escopo é muito maior do que os projetos efetivamente abordados
em sua dissertação. Trata-se de uma qualidade que se pode observar
em alguns poucos trabalhos pioneiros, merecendo portanto um reconhecimento
especial, afinal ele se presta àquilo que todo trabalho acadêmico
deveria se prestar: peça na montagem coletiva do conhecimento
histórico e subsídio para futuros trabalhos de pesquisa.
Entre prós
e contras, o trabalho tem um balanço bem positivo, o que justifica
uma leitura atenta por parte dos interessados em um painel mais
variado sobre nossa arquitetura moderna.
Notas
2
O rol de teses e dissertações mencionado a seguir não é fruto
de um levantamento exaustivo, mas do conhecimento prévio a partir
de participação em bancas, de indicações de colegas e de consultas
feitas por motivos diversos. Um levantamento mais sistemático
seria necessário para um balanço mais preciso, o que poderia implicar
em alguma correção nas afirmações aqui presentes, talvez excessivamente
impressionistas. Também é bom destacar que há uma excessiva hegemonia
de trabalhos desenvolvidos em São Paulo, cidade onde desenvolvemos
nosso trabalho.
7
MACHADO, Lúcio Gomes. Rino Levi e a renovação da arquitetura
brasileira. Tese de doutorado. Orientador Benedito Lima de
Toledo. São Paulo, FAU-USP, 1992; ANELLI, Renato. Arquitetura
e cidade na obra de Rino Levi. Tese de doutorado. Orientador
Bruno Roberto Padovano. São Paulo, FAU-USP, 1995; ARANHA, Maria
Beatriz de Camargo. Rino Levi : arquitetura como ofício.
Dissertação de mestrado. Orientadora Fernanda Fernandes da Silva.
São Paulo, FAU-USP, 2003.
8
CAMARGO, Monica Junqueira de. Princípios de arquitetura moderna
na obra de Oswaldo Arthur Bratke. Tese de doutorado. Orientador
Paulo Júlio Valentino Bruna. São Paulo, FAU-USP, 2000.
9
GUERRA, Abilio. Lúcio Costa, modernidade e tradição – montagem
discursiva da arquitetura moderna brasileira. Tese de doutorado.
Orientadora Maria Stella Martins Bresciani. Campinas, IFCH-Unicamp,
2002; CARRILHO, Marcos. Lucio Costa, patrimônio histórico e
arquitetura moderna. Tese de doutorado. Orientador Nestor
Goulart Reis Filho. São Paulo, FAU-USP, 2003; RIBEIRO, Otávio
Leonídio. Carradas de razões: Lucio Costa e arquitetura moderna.
Tese de doutorado. Orientador João Masao Kamita. Rio de Janeiro,
PUC-Rio, 2005. Esta última tese se transformou no livro: LEONÍDIO,
Otavio. Carradas de razões. Lucio Costa e a arquitetura moderna
brasileira. Coleção Ciências Sociais nº 38. Rio de Janeiro/São
Paulo, Editora PUC-Rio/Loyola, 2007.
11
DAHER, Luiz Carlos. Arquitetura e expressionismo: notas sobre
a estética do projeto expressionista, o modernismo e Flavio de
Carvalho. Dissertação de mestrado. Orientador Nestor Goulart
Reis Filho. São Paulo, FAU-USP, 1979. Esta dissertação se transformou
no seguinte livro: DAHER, Luiz Carlos. Flávio de Carvalho:
arquitetura e expressionismo. São Paulo, Projeto, 1982. Temos
dois outras pesquisas importantes sobre o arquiteto: LEITE, Rui
Moreira. A experiência sem número: uma década marcada pela
atuação de Flávio de Carvalho. Dissertação de mestrado Orientador.
Walter Zanini.São Paulo, ECA-USP, 1988; LEITE, Rui Moreira. Flávio
de Carvalho entre a experiência e a experimentação. Tese de
doutorado. Orientador Walter Zanini. São Paulo, ECA-USP, 1995.
26
KOURY, Ana Paula. Grupo Arquitetura Nova. Dissertação de
mestrado. Orientador Carlos Alberto Ferreira Martins. São Carlos,
EESC-USP, 1999. Esta dissertação se transformou no livro: KOURY,
Ana Paula. Grupo Arquitetura Nova. Flávio Império, Rodrigo
Lefèvre e Sérgio Ferro. Coleção Olhar Arquitetônico, volume
1. São Paulo, Romano Guerra Editora / EDUSP, 2003.
27
BRASIL, Luciana Tombi. A obra de David Libeskind : ensaio sobre
as residências unifamiliares. Dissertação de mestrado. Orientador
Luis Antônio Jorge. São Paulo, FAU-USP, 2004. Esta dissertação
se transformou no livro: BRASIL, Luciana Tombi. David Libeskind
– ensaio sobre as residências unifamiliares. Coleção Olhar
Arquitetônico, volume 2. São Paulo, Romano Guerra Editora / EDUSP,
2007.
33
BERNARDI, Cristiane Kröhling Pinheiro Borges. Luiz Gastão de
Castro Lima: trajetória e obra de um arquiteto. Dissertação
de mestrado. Orientador Renato Anelli. São Carlos, EESC-USP, 2008.
43
Caso, por exemplo, das seguintes dissertações de mestrado, que
envolvem um único edifício dos arquitetos Álvaro Vital Brazil
e David Libeskind, mas fazendo considerações sobre suas trajetórias
profissionais: ATIQUE, Fernando. Memória de um projeto moderno:
a idealização e a trajetória do Edifício Esther. Dissertação
de mestrado. Orientadora Telma de Barros Correia. São Paulo, FAU-USP,
2002; VIÉGAS, Fernando Felippe. Conjunto Nacional: a construção
do espigão central. Dissertação de mestrado. Orientador Eduardo
Luiz Paulo Riesencampf de Almeida. São Paulo, FAU-USP, 2003.
Abílio
Guerra, arquiteto, professor da FAU Mackenzie, editor do Portal
Vitruvius.
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