Anhangabaú
resenha de aline ollertz
Anhangabaú,
como sugere o título do livro, não é o único objeto a ser abordado
por Geraldo Simões Júnior. O processo de construção e transformação
do centro, o surgimento de bairros nos séculos XX e XXI, também
são aspectos discutidos. Ainda são apresentados os primeiros estudos
de melhoramentos para a cidade e o primeiro plano urbanístico
de São Paulo. A apresentação de seu livro é rica em fotos, mapas
e detalhes sobre a evolução do centro da cidade, resultado de
extensas pesquisas desenvolvidas pelo autor quando da elaboração
de sua tese de doutorado sobre o tema.
O Vale do
Anhangabaú marcou a formação do centro da cidade de São Paulo,
sendo inúmeras vezes citado em relatos históricos. Inicialmente
era tido como quintal de fundos das casas que o circundavam, o
que o configurava como uma imensa horta urbana. Mais tarde, nos
anos 1910, no entanto, foi principal objeto de estudo onde foram
aplicados os primeiros tratados urbanísticos da cidade. É a partir
dessa sua confirmada importância, que o autor toma o vale como
núcleo organizador de sua pesquisa sobre melhoramentos realizados
na área central da cidade de São Paulo. Assim em uma primeira
parte de seu livro, o autor relata como o Vale do Anhangabaú veio
a consolidar sua importância, quando a estrutura do centro de
São Paulo migrou da várzea do Tamanduateí para o vale do Anhangabaú,
demarcando três períodos dentro desse processo.
Esses períodos
são demarcados pelo autor através de um ponto de vista diferente
(novo), muito interessante e mostra que as maneiras de contar
a evolução da cidade de São Paulo (especialmente do centro), não
estão esgotadas. O próprio autor Benedito Lima de Toledo, em seus
livros, por exemplo, já experimentou duas famosas maneiras de
periodização, como aquela em que os governos municipais foram
mote e outra vez quando a técnica de construção era o elemento
estruturador. É assim que o autor escolhe a palavra “polarização”
para contar a evolução do centro através de migrações ocorridas
no final do século XX e início do Século XXI.
Em uma primeira
etapa, São Paulo – local escolhido pelos índios por sua
localização estratégica na região – começou a se desenvolver
no alto de uma colina circundada pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú.
Durante os séculos XVI e XVII ainda foram ocupados três pontos
dessa colina, por três ordens religiosas, a dos beneditinos, a
dos carmelitas e a dos franciscanos, com seus respectivos conventos.
Esses três pontos acabaram por definir três vértices de um triângulo,
assim, as principais ruas centrais foram determinadas como conexão
desses vértices. Logo as ruas 15 de Novembro, São Bento e Direita
determinavam o triângulo histórico. Ainda sobre esta etapa da
história cabe destacar a importância das ruas da Glória e do Carmo,
porta de entrada da cidade, respectivamente, para tropeiros vindos
de Santos e de enviados da corte ou viajantes vindos do Rio de
Janeiro.
Em uma segunda
etapa, há uma “polarização” do centro da cidade rumo
ao norte, com as estações ferroviárias se localizando nessa direção.
Isso demarcou, então, a nova porta de entrada da cidade. As principais
conexões do centro com a estação da Luz eram a Florêncio de Abreu
e a Brigadeiro Tobias, tais ruas então passaram por um acelerado
processo de modernização e valorização, o que culminou em inúmeros
melhoramentos para o bairro da luz, empreendidos pelo presidente
João Teodoro. Como decorrência desse processo, as ruas do Carmo
e da Glória sofrem uma perda de valor significativo, em razão
da ocorrência de uma nova porta de entrada para a cidade, mas
não perdem total importância, já que passam a interligar o centro
da cidade com a zona industrial e os bairros operários da zona
leste.
É no final
do século porém que grandes empreendedores imobiliários laçaram
loteamentos de alto padrão que se situavam na vertente oeste da
cidade, nos Bairros Campos Elíseos e Higienópolis. Tais bairros
passaram a ser preferência da elite paulistana pois possuíam um
“clima mais saudável”, ruas largas, lotes amplos e
ainda contavam com abastecimento de água e tratamento de esgoto.
A partir dessas condicionantes e com a construção do viaduto do
chá, que facilita a conexão do centro com os bairros à oeste,
se inicia a terceira etapa definida pelo o autor com uma nova
”polarização” do centro rumo a oeste, atravessando
o viaduto e vindo a formar o centro novo, onde se situam as ruas
Barão de Itapetininga, Conselheiro Crispiniano, 24 de Maio e Dom
José de Barros. Diante disso, o Anhangabaú passa a ser o espaço
mais valorizado no setor central, situação que vem a ser reforçada
com a construção do teatro municipal (1903-1911) e com projetos
para sua remodelação.
Após esse
processo de periodização que conta a história do centro de São
Paulo até se transformar o Vale do Anhangabaú um importante pólo
da cidade, José Geraldo traz informações sobre os projetos de
remodelações apresentados e alguns até mesmo concluídos no local,
já que diante a sua importância, o Anhangabaú se tornou objeto
de inúmeros programas urbanos da maior parte do período em questão.
Os projetos
de remodelação do vale passaram a ser elaborados em 1906 quando
melhoramentos para a área foram sugeridos pelo vereador Silva
Teles e detalhados pela Diretoria de Obras Municipais, sob coordenação
do engenheiro Vítor Freire. Mas somente em 1910 concluiu-se um
projeto de intervenções, no qual é proposto para o vale um parque
ajardinado. No entanto, para tal, seria necessário a desapropriação
de imóveis situados nas ruas Líbero Badaró e Formosa, isso gerou
conflitos, já que nessa época, essa região havia se valorizado.
Assim são apresentadas outras versões para o projeto de intervenção
na área, a exemplo, o projeto do engenheiro Samuel das Neves para
o governo estadual, que privilegiou a questão viária e não pensou
nas questões urbanas como um conjunto. Tal projeto é tido como
descabido por Vítor Freire que o critica.
É diante dessa
situação que Vítor Freire elabora uma conferência onde faz um
diagnóstico da cidade de São Paulo e apresenta um plano de remodelação
para o centro. Esse plano elaborado com bases em bibliografias
de Camillo Sitte e Georges-Eugène Haussmann, marca o início do
urbanismo em São Paulo. Como sugestão do próprio Vítor Freire,
Joseph-Antoine Bouvard é convidado para formular um projeto para
a prefeitura de São Paulo e assim o faz. Seu projeto se volta
inúmeras vezes as propostas de Vítor Freire e tinha quatro linhas
de atuação: 1. O parque do Anhangabaú; 2. A várzea do Carmo; 3.
O centro cívico; 4. A avenida de comunicação do centro com os
bairros. Em 1920 o projeto para o Vale do Anhangabaú é concluído,
consolidando a inversão da polaridade da colina.
Com o fim
das obras no Parque do Anhangabaú esse passava a ser novo cartão
de visitas da cidade, servindo de “fachada para esse novo
centro”. A expansão do centro rumo oeste que se iniciou
no começo do século XX só seria concretizada em 1930, quando da
construção do novo Viaduto do Chá, bem mais largo que o anterior.
O autor ainda
apresenta o estudo de caso de remodelação de três logradouros:
1) a Líbero Badaró, que antes possuía um aspecto de viela sombria
e muito desvalorizada , tornando-se nesses anos de 1910 uma das
mais importantes ruas comerciais paulistanas. 2) a Avenida São
João que se tornou então, importante avenida de interligação entre
a área central e a região oeste, dando acesso às estações e; 3)
a Praça da Sé que se viu deixada em segundo plano em detrimento
dos melhoramentos feitos no parque do Anhangabaú, onde havia maior
procura imobiliária.
O texto é
claro e o livro é apresentado de forma simples e concisa, pontuando
precisamente como foi o processo de formação do centro de São
Paulo e como surgiu o embrião do urbanismo dessa imensa megalópole
que hoje se apresenta.
Aline
Ollertz é estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro do Grupo de Pesquisa
O Desenho da cidade e a verticalização: São
Paulo de 1940 a 1957.
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