Cinco
minutos num processo em solidão
resenha de andré teruya eichemberg
Pensar o processo
de criação e seus desdobramentos intuitivos é uma tarefa, ao mesmo
tempo, escassa e difícil no universo da arquitetura e urbanismo.
O que surge freqüentemente é o resultado final, a obra pronta,
uma arquitetura imagética pronta a ser vendida, desejada, codificada.
Dificilmente temos acesso ao exercício processual do arquiteto,
salvo croquis e anotações, em que há algo a mais a ser apresentado.
É nesta proposta
rara, do pequenino livro Maquetes de Papel, que o arquiteto
Paulo Mendes da Rocha nos apresenta esse algo a mais, e nos permite
um vôo a outras dobras da arquitetura, uma singela pérola para
aqueles que intencionam pensar o que é o projetar. Para isso,
o arquiteto apresenta através de uma aula e de uma oficina de
confecção de maquetes sua metodologia de projetar. Através de
maquetes realizadas rapidamente, se aproximando assim, da dinâmica
do croqui enquanto traço inicial nos mostra o exercício da arquitetura
enquanto movimento. Como coloca Paulo Mendes da Rocha:
“É
a maquete como croqui. A maquete em solidão! Não é para ser mostrada
a ninguém. A maquete que você faz como um ensaio daquilo que está
imaginando. O croqui, o boneco, um conto“.
Tal processo
metodológico confere a arquitetura uma certa instabilidade no
pensar, pois a própria matéria prima – papel, arame, durex, pequenos
pedaços de madeira, fitas – são corpos sensíveis, no limiar de
sua durabilidade temporal, prestes a se desfazerem, a sumirem.
Como num jogo silencioso e inquieto, o que emerge são não somente
as relações básicas da arquitetura no espaço como volumetria,
sombras, escalas, vazios, transparências – mas principalmente
as condições existenciais de um arquiteto prestes a entrar no
objeto.
Há certamente
um design, mas este é virtual, levando o pensamento do arquiteto
a outros devires, perambulando entre um espaço e outro, negociando
o edifício e a cidade. “Imaginar as coisas que ainda não existe”,
diz o arquiteto.
É exatamente
esse fluxo de pensamentos com que o arquiteto apresenta suas idéias
que possibilita aos estudantes e arquitetos uma compreensão metodológica
do seu fazer na arquitetura. Ora poético e romântico, ora racional
e descritivo, este texto-ensaio de Paulo Mendes da Rocha nos fala
da singularidade perceptiva de um arquiteto e sua inserção no
mundo, antes mesmo de falar sobre o projeto em si.
Paulo Mendes
da Rocha nos conduz, na parte referente a sua aula, com uma descrição
preciosa do projeto enquanto matéria bruta, não-estratificada,
pré-objeto em formação, revelando minuciosamente, através das
“maquetinhas”, plano a plano dois de seus projetos não edificados
– Praça dos Museus da Universidade de São Paulo e Reservatório
Elevado em Urânia. Para Paulo Mendes:
”A
maquete, muito simples, está realizando uma coisa que você quer
ver. O diâmetro certo, a altura certa, a escala humana. Você consegue
ser esse personagem, ajoelha no chão para ver dentro da maquete,
é muito bonito! Fecha a janela, espera de noite, tira o abajurzinho
da mesa de luz e traz perto da maquete, vê os efeitos da luz no
cilindro, até ficar imerso naquele espaço”.
É esse desenho
como um processo de conhecimento, capturado em solidão, que está
sendo apresentado, desvelando um processo único, cujo arquiteto
e objeto tornam-se momentaneamente um só. Único, pois de certa
forma, o agenciamento - entre arquitetura, modelos, solidão, existência,
processo tátil - proposto pelo arquiteto serve-se a ele. Não seria
passível de tornar-se modelo ou método a todos os arquitetos,
ou pelo menos, não com esses termos. O próprio processo de pensar
a arquitetura torna-se também um exercício ético do homem na cidade,
da importância da leitura da história e das questões da filosofia
no mundo atual.
Sua aula torna-se
um exercício crítico na tentativa de compreender as perspectivas
teóricas, conceituais e práticas da arquitetura no mundo atual.
Uma brincadeira de cinco minutos defronte a uma poeira iluminada.
André
Teruya Eichemberg é arquiteto e urbanista formado pela Unesp –
Campus Bauru e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.
Atualmente é professor do curso de Arquitetura e Urbanismo, e
Comunicação do Centro Educacional de Votuporanga UNIFEV.
Leia
também "Modelos
de solidão", de Artur Rozestraten sobre o livro
de Paulo Mendes da Rocha
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