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Resenha 213 / agosto 2008
Livro resenhado
ROCHA, Paulo Mendes da. Maquetes de papel. São Paulo, Cosac & Naify, 2007, 64 p. ISBN 978-85-7503-625-9 [imagem: Plano Diretor do Campus da Universidade de Vigo, maquete de Paulo Mendes da Rocha, p. 24-25]

 

Modelos de solidão
resenha de artur rozestraten

Em um pequeno livro, com cuidadoso projeto gráfico de Flávia Castanheira, Paulo Mendes da Rocha nos apresenta seu entendimento sobre seu próprio processo de projeto. Por meio de suas “maquetes de papel” o arquiteto nos oferece uma perspectiva privilegiada sobre a consciência do arquiteto criador, em meio aos meandros e ambigüidades das idéias vigentes entre nós quanto à criação arquitetônica.

A aula de Paulo Mendes da Rocha começa, justamente, com uma reflexão sobre a concepção da arquitetura:

“A questão fundamental que navega entre nós arquitetos é imaginar as coisas que ainda não existem. Como esta casa, por exemplo, aqui em Curitiba, que antes saiu inteira na mente de um de nós, o arquiteto Vilanova Artigas”. (p. 19)

Haveria aqui apenas uma força de expressão ou uma afirmação conceitual? Será que o projeto de arquitetura chega a existir inteiro em nossa mente? E essa suposta existência precederia sua expressão material em desenhos e modelos? Ou não?

Mais à frente, Paulo sonda novamente esse terreno movediço referindo-se à modelagem:

“É a maquete como croquis... A maquete que você faz como um ensaio daquilo que está imaginando...Como o poeta quando rabisca, quando toma nota...A maquete aqui é um instrumento que faz parte do processo de trabalho; são pequenos modelos simples.” (p. 22)

Com essa afirmação, o arquiteto se alinha com a tradição de modelagem inaugurada por Brunelleschi, registrada por Alberti no seu De Re Aedificatoria (2), e revista no curso básico da Bauhaus.

Se a maquete é ensaio do que se está imaginando então, pode-se supor, que há um diálogo entre modelos e idéia que conduz – aproveitando a analogia com o poeta – ao poema completo, ou projeto acabado. Paulo deixa claro que está se referindo a um processo de trabalho, que avança gradativamente, valendo-se de representações materiais: os croquis e modelos do arquiteto, como as anotações do poeta.

“A graça disso...é que existe, nessa extensão do raciocínio, o objeto já um tanto quanto configurado na nossa mente.” (p. 22)

Um tanto quanto configurado” é bem diferente de inteiro na mente. Entre a idéia, como coisa do pensamento, e as representações materiais, como coisa visível e tangível há uma interação – nas palavras do arquiteto uma “extensão” –, que caracteriza o processo de projeto como algo integral, uno, no qual pensamento e matéria dialogam. As maquetes físicas são modelos que proporcionam um “momento de experimentação” por meio do qual “é possível ver melhor aquilo que se está querendo fazer, e isso é insubstituível” e mais: “indispensável”. (p.26)

Nesse ponto o pensamento do arquiteto aproxima-se da teoria da Formatividade de Luigi Pareyson (1918-1991):

“o formar...no próprio curso da operação inventa o modus operandi, e define a regra da obra enquanto a realiza, e concebe executando, e projeta no próprio ato que realiza. Formar, portanto significa “fazer”, mas um fazer tal que, ao fazer, ao mesmo tempo inventa o modo de fazer.” (2)

E há algo encantador em torno dessa ação criativa e da concretização de idéias, nas palavras do arquiteto: “Nós estamos falando de algo muito particular, que é a materialidade da idéia...Portanto, para nós, arquitetos, ver e tocar já é materializar essas idéias no pequeno modelo.” (p. 27)

Valendo-se de outra analogia com o universo poético, Paulo designa o processo de projeto como construção. O que conforma uma imagem riquíssima, mas expressa de modo ambíguo: “a idéia de construir aquilo que você tem na mente é uma coisa sublime e particular do gênero humano.” (p. 28)

Construir aquilo que se tem na mente depois de construí-lo como projeto em representações materiais, ou construir aquilo que se tem na mente pois a idéia é o projeto acabado? E as ambigüidades continuam a aflorar:

“Você tem a idéia sobre certa questão, consegue imaginá-la em sua integridade e totalidade, entende que é preciso construí-la, então submete essa idéia ao modelo, à maquete, como extensão da própria mente”. (p.30)

Mais uma vez, no discurso do arquiteto, delineia-se o debate entre a idéia de que a imaginação resolveria o projeto de maneira integral e completa, e outra idéia de que o projeto é processo contínuo e integrado de imaginar e representar, pensar e experimentar, mentalizar e visualizar, sonhar e tocar.

No texto, esses aspectos são clareados conforme o arquiteto apresenta seu processo de trabalho a partir de exemplos reais.

No início do projeto “não existe maquete, não há nada ainda, é pura mente, como se eu fosse escritor, poeta! Não tem nada que ficar rabiscando, porque eu ainda não sei o que fazer.” (p.34)

É só após “saber o que fazer” que se inicia o processo de representações materiais: croquis e modelos tridimensionais. Esse saber inicial tem algo definido e algo intuído, a ser elaborado. É preciso organizar as “justas questões” para transformá-las em problemas e, então, resolvê-los. E essa elaboração mental antecede a materialização como uma imagem em pensamento:

“Tudo isso você tem que ver, senão não sabe que papelzinho cortar. Depois vai fazer o primeiro ensaio volumétrico, mas, antes de chegar à nossa maquetinha, tem que prever tudo isso.” (p.36)

A maquete é um momento posterior ao pré-dimensionamento, ou seja, há uma idéia de forma, com medidas básicas, proporções, espaçamentos que precede a materialização no modelo. E os modelos são ensaios, aproximações, essencialmente estruturais, portando simples, “maquetes de papel”.

Como no projeto para a praça do Patriarca: uma maquete de papel, feita em cinco minutos, para o diálogo consigo mesmo, “aquela pra ninguém ver, feita em solidão”. (p.45) Ou no projeto do reservatório de Urânia-SP: uma maquete de cartolina e papel sulfite com durex. Dessas maquetes, mostram-se apenas as fotos porque a imagem fotográfica, no entender do arquiteto, parece qualificá-las como algo mais do que apenas o “delírio de alguém que se pôs a cortar papel” (p. 46).

“A maquete, muito simples, está realizando uma coisa que você quer ver. O diâmetro certo, a altura certa, a escala humana. Você consegue ser esse personagem, ajoelha no chão para ver dentro da maquete, é muito bonito! Fecha a janela, espera de noite, tira o abajurzinho da mesa de luz e traz perto da maquete, vê os efeitos da luz... você vê o tamanho das coisas, a sua proporção, vê as transparências.” (p. 58-59)

Quem dera as reflexões dessa aula pudessem ecoar em todas as faculdades de arquitetura para que não olhássemos apenas os edifícios de Paulo Mendes da Rocha, mas também, e principalmente, seus procedimentos, seu fazer projetual. Pois ele não define um método restritivo, ao contrário, professa uma liberdade compositiva fundada na consciência ética da história, e na noção de modelagem investigativa como meio de diálogo entre pensamento e matéria. Paradoxalmente, o arquiteto nos apresenta, com mão generosa, seus modelos mais íntimos, seus “modelos de solidão”, seus interlocutores secretos que nunca teve a pretensão de mostrar a ninguém.

Notas

1
ALBERTI, L. B. De Re Aedificatoria; prólogo de Javier Rivera; tradução de Javier Fresnillo Núñez. Torrejón de Ardoz (Madrid) : Akal, 1991.

2
PAREYSON, L. Estética: Teoria da formatividade; tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 59.

Artur Rozestraten é arquiteto e urbanista (FAUUSP, 1995); Doutor pelo Depto de História da Arquitetura e Estética do Projeto (FAUUSP, 2007); professor nos cursos de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Moura Lacerda e das Faculdades COC, em Ribeirão Preto, SP.


Leia também "Cinco minutos em um processo em solidão", de André Teruya Eichemberg sobre o livro de Paulo Mendes da Rocha
 

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