A
cidade em jogo
resenha de fredy massad e alicia guerrero yeste
tradução
ivana barossi garcia
Fundamentalmente
planejadas para acolher o ócio infantil, as zonas de entretenimento
público são possivelmente algumas das menos estudadas no momento
de ser projetadas. Seu desenho tende a se transformar na acumulação
de elementos mobiliários totalmente estereotipados ou caprichosamente
ultradesenhados, que oferecem umas mínimas possibilidades de variação
e improvisação para o jogo e para a interação social, tanto para
crianças como para adultos com uma idéia vaga das necessidades
e desejos de seus usuários. Espaços conceitualmente abordados
e resolvidos de modos excessivamente elementares, pese à relevância
que os discursos cívicos querem lhes outorgar. E, no entanto,
se trata de espaços que intrinsecamente possuem um enorme potencial
para constituir-se como pequenas ágoras pelas quais catalisar
e consolidar a idéia de comunidade que paulatinamente está desaparecendo
do sentimento urbanista contemporâneo. Sobre este fator tratam
de chamar a atenção, oferecendo ao mesmo tempo ensaios de resposta,
a historiadora Liane Lefaivre e a equipe de arquitetos dirigida
por Henk Döll (www.dollab.nl) através do projeto
de pesquisa The World is my Playground – reunido no livro
Ground-Up City. Play as a design tool (www.010publishers.com)
– que implicou na proposição de um modelo teórico e sua subseqüente
aplicação em diferentes áreas do tecido de diferentes capitais
holandesas.
Sua pesquisa
reivindica a necessidade de recuperar um significado amplo para
o conceito do jogo na hora de criar este tipo de âmbitos urbanos:
que o arquiteto realize seu trabalho de criação a partir da disposição
mental com a que se pratica o jogo e que seus usuários –crianças,
jovens e adultos – encontrem nestes âmbitos um espaço que lhes
permita uma experiência lúdica e imaginativa com seu entorno.
“O jogo representa a liberdade mental, e uma oportunidade para
desviar-se das regras. O lugar de jogo tem também significado
como margem física que permite o movimento entre os diferentes
componentes de uma construção ou de uma máquina” propõe Lefaivre
desde uma perspectiva que trata de enfatizar a importância crucial
das zonas de recreio como parte da engrenagem social da cidade.
Destacando as reflexões de artistas atuais cujo trabalho explorou
a vertente lúdica do espaço urbano livres do complexo de seriedade
de que sofre a arquitetura; e constatando os diferentes modos
de apropriação livre deste como campo de diversão por parte dos
cidadãos (tais como o free-running, a agricultura urbana,
a criação de áreas de banho público…) reinterpretando as infra-estruturas
urbanísticas e arquitetônicas disponíveis, Lefaivre argumenta
a necessidade de repensar sobre como e para que criar esses ambientes
de expansão para o homo ludens contemporâneo.
Enfatizar
nos atributos pedagógicos, terapêuticos e civilizadores atribuídos
ao ato de jogar por pensadores como Schiller, Gross, Freud ou
Huizinga (e que simbolicamente eram já tema de numerosas pinturas
de cenas de costumes na pintura holandesa do século XVII); e recuperar
o respeito ao poder subversivo e libertador do jogo sustentado
pelos dadaístas como guias para essa reformulação necessária e
que deve distanciar-se ideologicamente das fantasias ingênuas
e tecnocráticas com que Le Corbusier, Mumford, Kahn ou Noguchi
idealizaram nos anos subseqüentes ao fim da Segunda Guerra Mundial
o conceito das áreas lúdicas urbanas como eixos para o renascimento
de uma sociedade harmônica é o que propõem Lefaivre e Döll. Retomam
a consciência com que arquitetos como Jane Jacobs e os Smithsons
discreparam dessas concepções sofisticadas e utópicas das zonas
de recreio, centrando seu interesse em preservar os espaços intersticiais
urbanos de pequena escala com este fim, como um meio para manter
a comunidade.
Um conceito
que na Holanda encabeçaram durante o período de pós-guerra na
Holanda, Aldo van Eyck, Cornelius van Eesteren, Jacoba Mulder
que criaram toda uma nova série de espaços de recreio integrados
no tecido urbano tradicional de Amsterdã, em pequenos espaços
intersticiais deste, sem necessidade de estabelecer expressamente
uma área ex-nova para eles. Se tratava de parques não impostos
pela administração local e sim parte de um processo participativo
do ‘poder popular’ que envolvia os cidadãos e o departamento de
Desenvolvimento Urbano de Amsterdã, criando uma rede policêntrica
estreitamente tecida graças à que se incrementava o número destes
espaços que permitiam uma reconstrução social.
Baseando-se
neste modelo, o estúdio Döll – Atelier voor Bouwkunst analizou
e propôs possíveis intervenções nas vizinhanças de Het Oude Westen
e Hoogvliet (Rótterdam) com o objetivo de analisar as repercussões
positivas que a geração de uma rede de pequenos espaços de recreio
pode oferecer na cidade contemporânea. A premissa é não delimitar
a idéia da criação de uma área de jogo (playground), exclusivamente
dedicada a jogos infantis e juvenis, mas gerar um conceito mais
amplo do espaço de jogo (playspace), onde o projeto urbano
se aproxima à noção de homo ludens, propondo que a cidade
contemporânea se transforme inteiramente numa área potencialmente
lúdica. Assim, se define “jogo” como a possibilidade de intervir
sobre o tecido da urbe semeando-a de pequenos lugares onde quebrar
a dinâmica frenética da cidade, contrapondo-se às teorias que
patrocinam grandes empreendimentos e que acabam ameaçados a transformar-se
em não-lugares. A proposta de Döll tende à ativação pontual de
espaços em desuso para inserir dentro da trama urbana uma rede
de espaços lúdicos, âmbitos multifacetados que respondam à exigência
de espaços recreativos adequados ao ar-livre – lugares onde as
crianças e jovens possam patinar, jogar futebol, balançar-se,
dançar, grafitar… – mas que mesmo assim estejam à serviço dos
adultos. Zonas de funcionamento fluido intergeneracionais que
mesmo assim fiquem abertos a usos temporais e improvisações que
se desenvolveram da mesma forma de um jogo de reconhecimento e
descobrimento do território no qual participaram arquitetos e
moradores.
Na
análise histórica de Lefaivre e no projeto de Döll sub-existiu
a vontade de encontrar uma forma efetiva de estimular uma utilização
coletiva e democrática do espaço público. O projeto inicial deu
motivo a uma série de debates, exposições e outras atividades
através das quais se envolvam outros setores envolvidos na definição
da identidade da cidade atual, de forma que se assuma a necessidade
de tirar do anonimato as zonas de entretenimento público para
transformá-las em lugares integradores, criadores de um sentido
de comunidade entre os indivíduos de diferentes gerações, diferentes
classes sociais e diferentes procedências culturais que habitam
hoje a cidade européia, algo que – como sustentam Lefaivre e Döll
– é possível através da construção de uma nova visão sobre como
jogar na cidade.
Artigo
originalmente publicado no Diário de ABC, 21 jul. 2007.
Fredy
Massad e Alicia Guerrero Yeste, são titulares do escritório
¿btbW, e autores do livro "Enric Miralles: Metamorfosi
del paesaggio", editorial Testo & Immagine, 2004.
|