História
do jardim moderno
resenha de ramón rodríguez llera
tradução
ivana barossi garcia
Por que não
existia até o presente texto uma visão geral e “desapaixonada”
da arquitetura do século XX contemplada a partir da importância
do desenho do jardim como parte da mesma, ignorada sistematicamente
nas histórias “oficiais” sobre a matéria?
Não só isso,
por que nas mais reconhecidas visões “de autor”, sobre a arquitetura
do passado século XX, a recontagem e análise da arquitetura evitavam
sistematicamente o papel determinante do jardim, negando seu protagonismo
nos projetos e realizações originais, muitos deles intrinsecamente
unidos a sua “ambientação” paisagística e “gardenesque”?
E por último,
será a comunidade intelectual internacional interessada no tema
capaz de reconhecer o mérito de um estudo e texto que não procede
do âmbito historiográfico anglo-saxão e suas áreas de influência,
e sim da “desconhecida” vida universitária e editorial espanhola?
A historiografia
da arquitetura do século XX nos legou uma série de textos “clássicos”,
sobre a matéria, que têm sobrevivido merecidamente uma vez que
o século percorreu o seu ciclo completo. Vistos desde a perspectiva
do reconhecimento do jardim como parte da arquitetura moderna,
em nenhum deles se lhe outorgava o justo papel. Tal incompreensão
chama mais a atenção dado o prestígio dos escritórios e autores.
O primeiro “resenhável” foi o de H. R. Hitchcock (Architecture:
Nineteenth and Twentieth Centuries, pertencente à célebre
série dirigida por Nikolaus Pevsner “The Pelican History of Art”),
publicado em sua primeira edição em 1958, e que conheceu desde
então múltiplas revisões e ampliações, dado seu caráter generalista
e a amplitude da visão do célebre historiador e crítico estadunidense.
Para formar uma tríade que parece indiscutível, segundo sua ordem
cronológica de aparição, somaríamos os de L. Benevolo (Storia
dell´architettura moderna, primeira edição de 1960), e o de
W. J. Curtis (Modern Architecture since 1900, primeira
edição de 1981), também sucessivamente ampliados e reeditados,
em particular o último citado, que acaba de abarcar na terceira
edição a realização total da arquitetura do século XX.
Teve que esperar
ao breve e seletivo texto de um maduro e sábio A. Colquhoun (Modern
Architecture, 2002) para começar a satisfazer muito parcialmente
a dívida da arquitetura com o jardim e a paisagem na cultura do
século XX. De maneira mais intencionada que no texto de W. Curtis,
Colquhoun re-introduz em seu discurso avaliações concretas sobre
as relações da arquitetura e da paisagem, destacado neste sentido
por uma intencionada seleção de imagens.
Esta costuma
ser a máxima concessão com o problema do jardim e da arquitetura:
colocar em destaque a consonância da arquitetura com a paisagem,
com o lugar, com as tradições e materiais vernaculares, mas sem
ir mais além de tal constatação, postergando a análise e, portanto,
hipotecando o reconhecimento do óbvio: a arquitetura do século
XX em grande parte é devedora de mais explicações que as estritamente
edilícias e, portanto seu estudo há de ser contextualizado em
termos que contemplem seus vínculos compositivos, espaciais e
formais com o jardim.
Fazia-se necessária
essa história geral da arquitetura do século XX contemplada desde
o outro lado do ponto de vista, que por um momento metodológico
a voltasse do revés e lhe devolvesse seu caráter genuíno.
Para levar
a cabo com êxito tão complexa tarefa intelectual se requer não
só o conhecimento dos documentos e dados habituais da narração
da história da arquitetura, mas uma ampliação de conhecimentos
específicos que, para atrás no tempo, implica na história dos
modelos e composições do jardim como “gênero”, e nas vinculações
contemporâneas, a sensibilidade para articular um discurso no
qual se vá recorrendo, segundo as necessidades, a outros “gêneros”
concomitantes na análise do jardim e da arquitetura: escultura,
pintura e qualquer outra expressão artística quando sua apelação
seja pertinente.
O livro de
Darío Alvarez, arquiteto e professor de “Composição do Jardim
e da Paisagem” na Universidade de Valladolid (Espanha), surpreende
por sua pretensão, pouco habitual na bibliografia escrita em espanhol,
de explicar a história do jardim no século XX de uma forma completa
no cronológico e na visão internacional de sua proposição. Isso
em várias escalas, desde o jardim da habitação, ao parque e à
paisagem.
O estudo se
faz, no tempo, a partir dos modelos de Arts and Crafts até os
últimos exemplos do século, vinculando-os à obra arquitetônica
dos autores, pois se trata de um estudo, de uma história, protagonizada
por arquitetos (Edwin Lutyens, Peter Behrens, Rob Mallet-Stevens,
Gabriel Guévrékian, Le Corbusier, Ludwig Mies van der Rohe, Frank
Lloyd Wright, Richard Neutra, Luis Barragán, Carlo Scarpa, Arne
Jacobsen, Bernard Tschumi, Rem Koolhaas, Peter Eisenman, Toyo
Ito) e obras de arquitetura, junto com o aporte de outros artífices
próximos à disciplina: pintores (Theo van Doesburg), escultores
(Isamu Noguchi), paisagistas (Christopher Tunnard, Thomas Church,
Garret Eckbo, Peter Walter, Yves Brunier, Dieter Kienast, West
8), ou artistas completos e paradigmáticos como o brasileiro Roberto
Burle Marx. Abordam-se jardins e arquiteturas desde a perspectiva
compositiva, pois em tantas ocasiões uns e outras são partes ampliadas
de uma idéia geral, que fazem eco mutuamente, tanto do exterior
ao interior de seus respectivos espaços, como ao contrário.
Se procuram
e documentam as implicações plásticas, escultóricas e pictóricas
principalmente. Se reivindica seu silenciado papel na formulação
das distintas linhas das vanguardas (cubismo, racionalismo, abstração),
nos projetos das grandes utopias urbanas do século, nas utopias
realizadas (Chandigarh, Brasília), nas recuperações de fim de
século da disciplina. Se chega até as últimas conseqüências e
tendências. Ilustra-se tudo colocando em releve como foi pensado
e como foi representado o jardim, em que termos pictóricos ou
gráficos, nos planos e documentos originais. Ressalta-se, como
dizemos, o óbvio, mas deixado de lado ou no esquecimento nos estudos
“oficiais” da historiografia.
Até o momento
presente. Por isso a recomendação final é taxativa e axiomática:
é necessário acrescentar ao elenco das histórias citadas sobre
a arquitetura do século XX o livro de Darío Álvarez El jardín
en la arquitectura del siglo XX. Naturaleza artificial en la cultura
moderna.
Ramón
Rodríguez Llera, professor de História da Arquitetura da E.T.S.
Arquitetura de Valladolid.
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