David
Libeskind, a arquitetura moderna e a modernidade brasileira
resenha de sergio kopinski ekerman
A arquitetura
do Movimento Moderno no Brasil é amplamente reconhecida por sua
qualidade e pela forma como apropriou os peculiares valores estéticos
e construtivos das vanguardas à nossa cultura, clima e lugar.
O início de tudo está ainda nos anos trinta, quando nossos modernistas
concretizaram no Rio de Janeiro a obra do Palácio Gustavo Capanema,
antigo Ministério da Educação e Cultura, projetado por uma extensa
e competente equipe comandada por Lúcio Costa. A década de quarenta
seguiu marcada pela construção do Parque da Pampulha, em Belo
Horizonte, obra encomendada por Juscelino Kubitschek ao jovem
Oscar Niemeyer, paradigma dos avanços estéticos e técnicos do
uso do concreto armado em solo nacional.
Já nos anos
cinqüenta, o grande avanço econômico do país e a latente urbanização
darão novos rumos ao modernismo brasileiro, processo que culminou
na inauguração de Brasília, em 1960. Neste momento, uma clara
política de desenvolvimento industrial alça parte da classe média
ao posto de alta burguesia, fenômeno que provoca em todo país
a multiplicação de obras de residências uni e plurifamiliares,
símbolos do crescimento vertiginoso das capitais, junto às favelas
e invasões irregulares também surgidas neste período.
Para além
das questões sócio-econômicas pertinentes a este fenômeno, é fato
que o período representou para a arquitetura brasileira um tempo
de aprimoramento técnico, científico e conceitual de qualidade
singular no âmbito da construção residencial em solo brasileiro.
O acervo bibliográfico
voltado ao registro desta produção tem ganhado nos últimos anos
um reforço importante, composto principalmente por títulos dedicados
à trajetória e obra de alguns importantes profissionais, construtores
deste “país do futuro”. Embora alguns nomes sejam conhecidos e
estudados por muitos, ainda há esforço a ser feito no sentido
de resgatar a produção de outros importantes arquitetos modernistas
brasileiros.
Esta é, sem
dúvida, uma das maiores contribuições do livro David Libeskind
– ensaio sobre as residências unifamiliares, de autoria da
arquiteta Luciana Tombi Brasil, prefácio do professor Luis Antônio
Jorge, segundo volume da coleção Olhar Arquitetônico, lançado
numa parceria entre a Romano Guerra Editora e a Edusp, em 2007.
No livro,
baseado em sua dissertação de mestrado, Luciana Tombi revê a precoce
carreira deste singular arquiteto, autor de importantes projetos,
dentre eles dezenas de residências e o Condomínio Conjunto Nacional,
em São Paulo.
A partir de
uma cuidadosa pesquisa, entrevistas e acesso incondicional ao
arquivo de Libeskind, a autora revela a trajetória profissional
iniciada com a formação em Belo Horizonte, para onde Libeskind
se mudou com a família quando tinha apenas um ano de idade. Filho
de imigrantes poloneses, nascido em Ponta Grossa (PR), David Libeskind
desde cedo despontaria para as artes e o desenho, instrumento
fundamental no exercício da arquitetura e que demonstra dominar
no âmbito de seu trabalho futuro.
O capítulo
1, dedicado ao período mineiro, destaca o efeito que a construção
da Pampulha produzira sobre Libeskind e sua decisão de entrar
na Escola de Arquitetura da UFMG, prosseguindo os estudos iniciados
na área das artes plásticas com o professor Alberto da Veiga Guignard.
Já no capítulo
2, Luciana Tombi conta a respeito da chegada de David Libeskind
a São Paulo, contextualizando a situação sócio-econômica da futura
megalópole, cidade de onde o arquiteto nunca mais saiu. Radicou-se
principalmente por conta da longa construção do Conjunto Nacional,
projeto que conquistou ao vencer um concurso fechado de idéias
realizado pelo investidor argentino José Tijurs. O ano era 1954
e Libeskind completara 26 anos de idade, recém chegado a São Paulo.
Dentro do conceito multifuncional do empreendimento, o arquiteto
desenvolveu seu partido a partir da criação de uma grande lâmina
horizontal para a galeria de lojas ao nível da rua e um volume
vertical de apartamentos e escritórios, criando um edifício que
integra o público e o privado em importante ponto na esquina da
Avenida Paulista com a Rua Augusta.
Luciana Brasil
analisa também neste capítulo o percurso de Libeskind como artista
plástico e gráfico, resgatando trabalhos realizados como ilustrador
e designer da revista AD – Arquitetura e Decoração, dentre
outras, e destacando sua bem sucedida trajetória como pintor abstrato,
registrada de maneira singular em exposição na Galeria Documenta,
em São Paulo (1971).
O núcleo mais
importante do livro, presente nos capítulos 3 e 4, revela um olhar
mais cuidadoso da autora sobre a obra de Libeskind através da
seleção de trabalhos realizados entre os anos de 1952 e 1983.
Para seu estudo, Luciana Tombi se debruça sobre doze obras de
casas unifamiliares, objetivando, segundo ela mesma, “identificar
não só o método, mas também as características mais marcantes
e recorrentes dessa arquitetura, e demarcar sua relação com as
referências já consolidadas da arquitetura das décadas de 1950
e 1960 no Brasil”.
Sem poupar
esforços para a depuração do material disponível, a autora presenteia
o público com plantas, cortes e alçados redesenhados, além de
perspectivas originais e fotos de época, elementos gráficos subsidiares
a uma leitura fácil e dinâmica, mesmo para aqueles não ligados
ao universo da arquitetura. Para os mais afeitos à prática de
projeto, o livro é uma aula eficaz e inteligente por entre os
planos, materiais e invenções construtivas de Libeskind, no mínimo
inspiradoras. Assim, a linguagem utilizada no livro estabelece
correta sintonia com a obra apresentada, cuja característica marcante
é justamente o poder de síntese, a resolução dos problemas enfrentados
no momento da construção.
Sobre a qualidade
editorial do volume vale também menção ao trabalho de Abílio Guerra
e Silvana Romano Santos, que vêm movimentando um constrangido
mercado de livros especializados no Brasil com grande competência,
já há alguns anos.
Por último,
é preciso voltar às primeiras páginas para o marcante depoimento
do próprio Libeskind, em apresentação de duas laudas, onde não
se furta a elogiar o “trabalho de fôlego” da autora. Ali, Libeskind
mostra-se grato a todos aqueles responsáveis pela compilação,
organização e publicação de sua obra, atividade que, segundo ele,
vem ajudando-o a lidar com as dificuldades do Parkinson, há mais
de dez anos.
Depois do
contato ampliado com seu trabalho, permitido agora pelo livro
de Luciana Tombi, só nos resta também agradecer a David Libeskind,
face ao inestimável conjunto por ele materializado.
A presente
resenha foi publicada originalmente na Revista 18, ano VI, n.
25. São Paulo, Centro de Cultura Judaica, set./out./nov. 2008,
p. 42-44. ISSN 1809 – 9793.
Sergio
Kopinski Ekerman é mestre em Arquitetura e Urbanismo pelo Programa
de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura
da Universidade Federal da Bahia e autor do projeto do Memorial
do Holocausto, em Salvador.
|