Arquiteturas
deslocadas: arquitetos espanhóis no exílio
resenha de mónica silva contreras
Exposto na
Arcada de Novos Ministérios, numa sala que se destaca por sua
situação urbana, especial e particularmente grata para ver arquitetura,
a exposição e a publicação
do livro-catálogo Arquitecturas Desplazadas (1) resultaram
um acontecimento importante em Madri.
Importante
para numerosas famílias que viram recuperado o trabalho que quarenta
e nove arquitetos fizeram dentro e fora da Espanha e que apenas
tinha sido conhecido em seu país. Importante, então, para a história
da arquitetura internacional e especialmente para a da América,
em cujos países se realizou boa parte deles. Importante para o
autor destas Arquitecturas desplazadas, que envolveu, ademais
do trabalho rigoroso e organizado do pesquisador, uma especial
relação com a imagem de cada um desses profissionais da arquitetura
moderna num tempo em que a disciplina se encontrava repleta de
contradições.
O trabalho
de Henry Vicente foi o de um trabalhoso recompilador de informação
e o de um fazedor de dados quase perdidos, durante vários anos
fuçando no trabalho e nas acidentadas vidas dos arquitetos que
tiveram de deixar a Espanha devido a uma guerra causada por convicções
políticas divergentes. Os rostos do exílio são os destes arquitetos
convertidos em ativistas políticos ou em soldados, que no meio
do angustiante ambiente da guerra civil arriscaram suas vidas
e suas carreiras para proteger o patrimônio cultural de seu país.
Dois capítulos
museográficos deixaram ver muito proximamente, comovedoramente,
o ambiente da arquitetura que estes profissionais tinham construído
para depois mostrar, já não como coletivo, mas individualmente,
o trabalho que fizeram em lugares que se apropriaram de seu ofício
e dos que eles se apropriaram para fazê-lo. Se no trabalho dos
arquitetos se reflete sua formação e os lugares em que viveram
no tempo em que o fizeram, Henry Vicente conseguiu que todo esse
universo apareça real, quase vivo, graças aos preciosos documentos
exibidos na montagem que resultou de sua pesquisa. Desenhos de
arquitetura, fotografias familiares, cartazes institucionais,
revistas e documentos pessoais se aglomeram ao redor da imagem
dos arquitetos e suas obras, na Espanha primeiro e fora dela depois.
Na introdução
do livro-catálogo que ficou como testemunho deste trabalho, titulada
“Exílios arquitetônicos”, Vicente utiliza a idéia de diáspora.
Idéia vinculada a um encontro, aos encontros e às transações culturais,
a um intercâmbio entre o que chegava e o lugar ao qual chegava,
como ferramenta imprescindível para mostrar esta arquitetura espanhola
que não pôde ser na Espanha. Esta só pode se compreender se se
entende o exílio como “…um processo que não foi unilateral, que
envolveu um profundo processo de diálogo e encontro, mas também
de desencontros; de aquisições e perdas” (p. 12), um passo ou
um caminho que “nunca é uma relação de uma só via” (p. 21). O
autor se apóia nas idéias de filósofos e historiadores prévios
para poder explicar a dinâmica relação dos arquitetos com seu
ambiente original e seu ambiente de adoção, um triângulo de espelhos
no qual se torna imprecisa a origem das imagens ou da luz que
permite observá-las.
À problematização
conceitual e da ocupação cultural no exílio, no livro-catálogo
lhe segue a revisão historiográfica dessas arquiteturas deslocadas.
Assim, depois de expor o aporte dos autores que iniciaram o registro
desta produção espanhola em outros contextos europeus e americanos,
o trabalho de Henry Vicente se soma à construção de uma história
da arquitetura que envolve vários olhares parciais e ao mesmo
integrais desde a Espanha e desde os países que receberam estes
profissionais. Olhares que os caracterizam como individualidades
criadoras mas também como coletivo intelectual e político.
As pistas
para esta complexa visão as empreende, então, o próprio Vicente
em “De Europa e Ásia. Elogio da transumância”, em que segue os
passos seguidos por este meio centenar de arquitetos. Trata-se
de um aporte fundamental da pesquisa, que dá datas e lugares de
trabalho como partida para aprofundar o estudo de sua produção
intelectual, alianças políticas e, em suma, dar forma a esta cultura
arquitetônica no exílio. O mesmo autor se ocupa “De Venezuela:
a fictícia “ilusão” do desterro”, em que Rafael Bergamín encabeça
a lista dos chegados ao segundo país que, depois do México, recebeu
mais destes arquitetos republicanos. Fernando Salvador, Javier
Yárnoz Larrosa, Francisco Iñiguez, Juan Capdevila e Amós Salvador
se integrariam às filas de profissionais que tanto aportaram à
arquitetura venezuelana desde o Banco Obrero. Depois se integrariam
a outras instituições ou ao exercício privado e a eles se uniriam
José Lino Vaamonde, Joaquín Ortiz García, José María Deu Amat,
Urbano de Manchobas y Careaga e Eduardo Roble Piquer. Henry Vicente
segue estas pegadas profissionais com o valioso aporte de dados
concretos para edifícios, planos urbanos e outras obras das que
a historiografia venezuelana ainda não dava conta.
Mas como ao
livro-catálogo foram convidados outros autores, são eles que contribuíram
para provar que estas arquiteturas requerem de múltiplos olhares
para construir visões parciais e integrais sobre seus variados
panoramas. “Das Geografias e histórias deslocadas” se ocupou Lorenzo
González Casas, analisando o panorama latino-americano, fundamentalmente
o contexto venezuelano, com as possibilidades que oferecia, as
opções para permanecer e que nele se inserisse a vida destes arquitetos
espanhóis.
Luisa Bulnez
Álvarez se ocupou dos quatro Arquitetos exilados na Colômbia,
sua adequação a este novo mundo com modos de trabalho distintos
aos conhecidos. Uma a uma foram enumeradas suas obras, catalogadas
funcionalmente, o que permite observar em termos tangíveis um
valioso aporte à arquitetura local. “O exílio espanhol no cone
Sul” foi abordado por Fernando Álvarez Prozorovich, ocupado com
a obra de seis arquitetos que trabalharam na Colombia, Chile e
Argentina, onde destaca a integração de Antonio Bonet à experiência
profissional americana e sua “volta” – o sonho de todo exilado
– com as lições aprendidas ao exercício na Espanha. Passos fugazes,
permanência provisória ou estabelecimento definitivo em “O Caribe
e os Estados Unidos” são examinados por Juan Ignacio del Cueto
Ruiz-Funez, entre os quais destaca o aporte profissional e acadêmico
de José Luis Sert ou Martín Domínguez Esteban. O mesmo autor se
ocupou de “México”, como titula o texto dedicado aos arquitetos
exilados no país que maior número deles acolheria. Vinte e cinco
arquitetos chegariam “um a um”, para fazer um aporte enorme à
arquitetura americana, em três gerações entre as quais transcende
a figura de Félix Candela.
Seguindo a
estrutura da montagem e como memória do mesmo, o livro-catálogo
contém páginas, fichas que reúnem o fundamental de cada figura,
dedicadas individualmente a estes quarenta e nove arquitetos.
Diversas qualidades e quantidades de documentação, obras e projetos,
o ocaso de carreiras iniciadas na Espanha ou frutíferos desenvolvimentos
profissionais quase completamente fora dela, se compaginam para
oferecer um panorama geral em que se cruzam planos, fotografias
familiares e profissionais, títulos de livros e de artigos, desenhos,
pinturas e outras formas de expressão plástica que descrevem trajetórias
intelectuais variadas. Intercalar as idéias destes profissionais
no que se escreveu da arquitetura local, para precisar o intercâmbio
de técnicas, formas e paisagem, é uma tarefa de maturação que
faz com que este seja muito mais que o livro-catálogo de uma exposição
em Madri. Configura-se com ele um panorama incomensurável para
a história da arquitetura e muitos caminhos para sua historiografia.
Veredas que deixam abertas as plumas convidadas a escrever esta
memória por Henry Vicente e com esta “indagação” que vê frutos
em Madri, distante ele mesmo de sua casa mas muito próximo da
arquitetura da América.
Esta resenha
foi publicada na revista Argos (www.argos.dsm.usb.ve)
da Divisão de Ciências Sociais e Humanidades da Universidad Simón
Bolívar, Caracas-Venezuela, Vol. 25, n. 48, p. 113-115.
Nota
1
O livro Arquitecturas desplazadas. Arquitecturas del exilio
español conquistou o CICA Julius Posener Book Award 2008.
Mónica
Silva Contreras, Doutora em Arquitetura (Universidad Central de
Venezuela 2006), professora da Universidad Simón Bolívar (USB)
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