Cidades
Invisíveis visitadas – uma leitura de Ítalo Calvino para compreender
a paisagem urbana
resenha de evandro ziggiatti monteiro
O Cidades
invisíveis tem sido utilizado, mundo afora, não apenas como
uma obra literária profunda e inspiradora, mas também como substrato
para reflexões e pesquisas do fenômeno urbano, e, ainda, como
ponto de partida didático para ensinar os alunos de arquitetura
a olhar e a pensar sobre a cidade. Seduzidos pelo texto, amadurece
neles a compreensão de que, diante dela, estão diante de algo
muito mais complexo do que o projeto de um edifício, e de que
o universo urbano se estende muito além até mesmo do que o “urbanismo”
possa abarcar. A primeira lição é, portanto, sem dúvida, a de
que o urbano é feito de uma matéria não manipulável, rebelde,
caprichosa, mas nem por isso menos fascinante. A segunda lição,
descoberta à medida que Marco Pólo segue descrevendo as cidades
do império mongol, é de que cada cidade é única na sua paisagem
e na construção do seu espaço pelos seus habitantes, e que o número
de possíveis cidades é infinito. Salta-lhes tanto aos olhos a
riqueza de cidades da qual se compõe a narrativa que quase escapa
a terceira lição, de que Eudóxia, Zirma, Leônia e tantas
outras são na verdade arquétipos: Dimensões ou imagens que servem
a todas e a uma única cidade ao mesmo tempo, sem que por isso
não deixem de servir como elementos diferenciadores que tornam,
paradoxalmente, cada cidade, única.
Embora as
cinqüenta e cinco cidades do livro gerem uma incontável multiplicidade
de imagens e simbolismos, nesse ponto é o próprio Calvino que
nos revela a chave para entendê-las e até, classificá-las. Mesmo
tendo sido apresentadas “embaralhadas” na narrativa,
cada uma pertence a um dos onze grupos de cinco cidades que recebem
uma adjetivação comum do tipo: “as cidades e a memória”,
“as cidades ocultas”, etc. E como a maior parte das
mensagens no texto, a ligação entre as cinco cidades de cada grupo
é tênue, quase que apenas sussurrada em algumas características
comuns. Mesmo assim, para cada um dos onze grupos de cidades espalhadas
pelo livro há uma questão central que liga e permeia a descrição
das cidades de cada grupo, e há, ao mesmo tempo, uma senda individual
para cada cidade, que é a forma como ela lida com aquela questão.
Os onze
“tipos” de Cidades invisíveis
1. “As
cidades e o nome” – identidade e sentido de lugar
“As
Cidades e o Nome” remete à clássica afirmação de Aldo Rossi
(1) de que o sentido do lugar emana do acontecimento e do signo
que o fixou. “Por longo tempo, Pirra foi para mim uma cidade
encastelada nas encostas de um golfo, com amplas janelas e torres,
fechada como uma taça, com uma praça em seu centro profunda como
um poço e com um poço em seu centro” (p.87). Em Aglaura,
essa identidade é definida pelo “estilo de vida” ou
“estado de espírito” dos habitantes; Leandra optapelo
intimismo e pelo provincianismo da vida privada, pela negação
à grande cidade; Irene fabrica uma imagem forjada para
a cidade e a usa para convencer os cidadãos e o resto do mundo
do seu papel; já Clarisse procura compreender e incorporar
a multiplicidade de lugares como o verdadeiro sentido de lugar.
2. “As
cidades e a memória” – a presença do sítio e a influência
do passado
Em cada grupo
de cidades costuma haver um “encantamento” e uma “armadilha”.
No caso de “As Cidades e a Memória”, o encantamento
prossegue no encontro com o passado como se ele fosse sempre melhor
que o presente e uma inspiração para o futuro. A armadilha está
na decepção de que o passado não permanece melhor ou nunca foi,
e no seu esquecimento. Apresentadas quase todas na parte um do
livro, é possível indagar se Diomira, Isidora, Zaíra, Zora
e Maurília não estão assim situadas para que nos esqueçamos
delas ao fim da narrativa.
3. “As
cidades e o desejo” – a motivação inconsciente e a
ação sobre a memória
Nelas há uma
alusão insistente à contradição, à dualidade do espírito humano.
Intuitivamente somos destinados à ordem e ao caos simultaneamente,
e as “cidades e o desejo” refletem o paradoxo em paisagens
regulares como Dorotéia e Anastácia ou dúbias como
Despina. Ou ainda múltiplas como Fedora, em que
quase nos perdermos nos infinitos caminhos que geramos para cada
uma de nossas escolhas.
4. “As
cidades e os símbolos” – a linguagem da subconsciência
coletiva e a imagem da cidade
“Não
existe linguagem sem engano.” é a frase final de Ítalo Calvino
(p. 48) após ter descrito as desventuras de Marco em Ipásia,
a quarta das “cidades e os símbolos”. Nelas discute-se
a imagem da cidade formada não só pela composição de sólidos na
luz e na sombra, mas também a partir da sua ornamentação, dos
sinais e dos seus significados. Então a cidade passa a ser lida
como densa e enigmática, já que é muito mais do que apenas sua
forma física. É possível evocar, a partir delas, o clássico Imagem
da cidade de Kevin Lynch (2), onde a questão central é a compreensão
da cidade a partir do seu vocabulário visual, sua linguagem. Mas
exploram também a utilização dos símbolos como marcação de territórios
e hierarquias, classes, posturas ou ainda propositalmente como
mensageiros do engodo. São, nesse sentido, cidades em que de alguma
forma o discurso, ou os ícones, não correspondem às suas verdadeiras
dinâmicas, ocultas ou dissimuladas.
5. “As
cidades delgadas” – a busca pelo desprender da terra,
a negação da imobilidade
Calvino cita
motivos diversos para que cada uma das “cidades delgadas”
seja descolada da terra. A idéia geral é de paisagens urbanas
que se projetam para cima, ou se isolam da terra firme por algum
artifício geológico ou construído: Isaura está no chão
mas na verdade sobre um profundo lago negro extinto; Zenóbia
sobre palafitas em um lago seco; em Armila não há as
massas construídas; Sofrônia são duas meias cidades em
que a cidade pesada é itinerante e a cidade leve é fixa; e finalmente,
Otávia uma cidade teia-de-aranha pendurada sobre o abismo.
Através das
“cidades delgadas” é possível verter a muitas paisagens
da cidade moderna, como a verticalidade ou a transfiguração cíclica
de seus espaços. Também nelas talvez se incluísse o próprio urbanismo
modernista, as imagens de uma cidade-máquina baseada no movimento,
ou o espírito etéreo de uma Ville Radieuse. Ou ver as “cidades
delgadas” como buscas coletivas, através da técnica, para
transcender o peso da superfície do planeta, ou para abandonar
uma paisagem urbana feita apenas de pedras.
6. “As
cidades e as trocas” – as relações entre os habitantes
Estas são
como um preâmbulo das “Cidades Contínuas”. Nelas emerge
a questão da circulação na cidade, com analogias com fios (Ercília)
e redes (Esmeraldina) superpostas; e a própria mobilidade
e mutabilidade urbanas, que lhe dão o caráter de um ser mutante,
ainda que de pedra. “As cidades e as trocas” também
abordam a tessitura do território, as camadas de atores no espaço
urbano (Esmeraldina) e o embate entre rotina e mudança
(Eutrópia).
7. “As
cidades e os olhos” – a visão individual e os engodos
Estas são
exemplos dúbios, em que se discute o referencial do qual se olha
a cidade. Em termos de paisagem, são cidades descritas com um
lado positivo que enche os olhos, cheio de cores, sabores, tentações.
Em Zemrude o enfoque são as visões particulares, e o autor
sugere que a maioria dessas visões tende a buscar mais o chão
e as profundezas do que o céu, com o passar do tempo. As cidades
e os olhos parecem evocar análises mais contemporâneas dos fenômenos
urbanos, como em “A Cidade de Quartzo” e sua descrição
dos bastidores dos guetos e seus embates (3).
8. “As
cidades e os mortos” – engessamento, ciclo, fim de
ciclo
Embora em
algumas das “cidades e os mortos” sua paisagem seja
mais literal, referindo-se a uma espécie de campo santo, ou um
duplo, e muitas vezes desafiando as profundezas da terra, há uma
questão que permeia todas. Aborda-se a idéia do ciclo como presença
estruturadora, como um moto motiv do ser-cidade, para onde
ele a leva, ou não leva... As “cidades e os mortos”
evocam a temática dos filmes da trilogia “qatsi” (REGGIO,
1983), em que a questão principal passa a ser os ciclos “inescapáveis”
do planeta e das nossas cidades civilizadas, e sobretudo a busca
do sentido que os move.
9. “As
cidades ocultas” – a natureza humana e sua dualidade
São as cidades
mais tardiamente apresentadas no livro, o que faz das “cidades
ocultas” um espelhamento das “cidades e a memória”,
quase todas apresentadas na primeira parte. São cidades tão complexas
quanto à natureza humana, e necessariamente contraditórias. As
cidades ocultas exploram essas contradições na forma de dualidades
intrínsecas, como o dentro e o fora de Olinda, a cidade
feliz e a infeliz de Raíssa, os ratos e as andorinhas de
Marósia, os homens e as bestas de Teodora, e os
injustos e os justos de Berenice.
10. “As
cidades contínuas” – antropofagia, destruição do meio
Em “as
cidades contínuas” Calvino reúne os casos extremos de cidades:
a metrópole, ou ainda, a sua aberração, a megalópole, e a possibilidade
da humanidade ser um câncer assolando o planeta. São exemplos
que aludem ao debate sobre as questões ambientais, mas também
sobre o subúrbio e o planejamento regional. E de novo às utopias
modernistas e às visões deformadas que delas restaram, no legado
dos grandes conjuntos habitacionais.
11. “As
Cidades e o Céu” – o ideal de perfeição e o cosmos
Opondo-se
às “cidades e os mortos”, cidades como Tecla e
Ândria não são apenas as antíteses de sua paisagem, buscando
elevar-se do solo e negando a terra. Também buscam a antítese
do ciclo, na idéia de uma permanência transcendental. Sonhos de
todos os utopistas desde os antigos até Ledoux e além dele. São
descritas como lugares urbanos de paisagem harmônica, e, às vezes,
imutável.
Mas sua presença
no livro é fundamental. Em meio a tantas dimensões imperfeitas
– e horripilantes – do urbano, as cidades e o céu
trazem o fascínio do novo, das reformas e das idéias que se apresentam
como eternamente belas – até que a realidade e o tempo as
gaste – e retornemos aos inescapáveis ciclos. Cheios de
visões, mas sem ilusões, somos (arquitetos/urbanistas) chamados
a assumir nosso papel como uma pequena peça das Cidades invisíveis:
a de projetar para elas olhando para o alto, para o projeto das
estrelas.
Um diagrama
para o Cidades invisíveis

O “Diagrama”
– uma proposta de visualização “temática” dos
onze grupos de cidades apresentados pelo livro “As Cidades
Invisíveis” (desenho do autor da resenha)
Uma linha
horizontal divide o gráfico em duas partes (“terra-céu”),
ficando abaixo dele as cidades “ocultas”, “e
os símbolos”, “e os nomes”, “e os mortos”.
Os quatro grupos apresentam cidades em um certo sentido “perdidas”;
perdidas no tempo, ou na memória, ou fisicamente enterradas no
espaço. Ou ainda, incompreendidas ou incompreensíveis.
Além da divisão
terra-céu, a disposição dos grupos de cidades sofre a influência
de quatro vetores principais. No centro, atua uma quinta força,
não como um vetor, mas uma inércia que tenta manter junto de si
três grupos de cidades invisíveis: as “cidades ocultas”
(abaixo do horizonte); as “cidades e a memória” e
as “cidades e o desejo” (ambos os grupos acima do
horizonte).
O primeiro
vetor (das cidades “desperdiçadas”) aponta –
através das “cidades e as trocas” – para as
“cidades contínuas”, onde a matéria das cidades
passa a ser um fim em si de sua existência, ao mesmo tempo a semente
de sua natureza finita e portanto da sua destruição. O segundo
vetor (das cidades “idealizadas”), aponta para “as
cidades e os olhos”, idealização no sentido de “pontos
de vista”, com espaço para a desilusão e o engodo. O terceiro
(das “perdidas”) vetor passa pelas “cidades
e os símbolos” e aponta para as “cidades e os mortos”.
O quarto vetor aponta para cima, passando pelas leves “cidades
delgadas” e culminando com “as cidades e o céu”,
estas sim discutindo uma idealização no sentido de “plano”
ou “modelo”. As “cidades e o céu” ousam
buscar o sentido cósmico da perfeição, em paisagens urbanas tão
harmônicas quanto do universo que as rodeia.
Notas
1
ROSSI, Aldo. La arquitectura de la ciudad. Colección
Punto y Línea, 7 ed. Barcelona, Gustavo Gili, 1986, p. 188.
2
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução: Maria
Cristina Tavares Afonso. 1 ed. Lisboa, Edições 70, 1970.
3
DAVIS, Mike. Cidade de Quartzo – escavando o futuro em
Los Angeles. Tradução: Renato Aguiar. 1 ed. São Paulo,
Editora Página Aberta Ltda, 1993.
Referências
complementares
JACOBS, Jane.
Morte e vida de grandes cidades. Tradução: Carlos
S. Mendes Rosa. Coleção "a", 1 ed. São Paulo, Martins
Fontes, 2000.
KOYAANISQATSI.
Direção de Godfrey Reggio. [s.l.]: IRE: 1983. p.e.: 1 DVD (89
min): p.e.: son., color.; NTSC.
Evandro
Ziggiatti Monteiro é professor doutor do curso de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas, ministrando
as disciplinas Teoria e Projeto VII Acústica Arquitetônica, Fundamentos
do Urbanismo e Trabalhos Finais de Graduação. |