A
invenção da casa bandeirista
resenha de carlos a. c. lemos
Este excelente
livro da arquiteta Lia Mayumi fundamentalmente trata de certo
paradigma seguido nas restaurações de algumas casas bandeiristas
tombadas pelo Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria
Municipal de Cultura em São Paulo, mas, no entanto, seu texto
ainda permite sejam vislumbrados, nas entrelinhas, aspectos e
situações mal divulgados das atividades dos órgãos encarregados
da salvaguarda do nosso patrimônio arquitetônico. Sem dúvida,
isso não passará despercebido aos curiosos dos bastidores dos
trabalhos cotidianos dos guardiões da memória.
É interessante
notarmos que a primeira entidade preservacionista a agir na nossa
cidade foi, em 1937, o então Sphan – Serviço do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional, criado nos primeiros dias do Estado
Novo de Getúlio Vargas; depois, em 1968, veio o Condephaat, o
Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico
e Turístico do Estado de São Paulo, surgido da vontade e persistência
de uma inteligente senhora amante do passado, dona Lúcia Figueira
de Mello Falkemberg e, finalmente, o já mencionado DPH, em 1975,
mais tarde, transformado em repartição de apoio do Conpresp (Conselho
Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental
da cidade de São Paulo).
Assim, o município
foi a última circunscrição administrativa a cuidar de sua própria
herança edificada vinda de nossos antecessores. Esse fato fez
com que fatalmente houvessem intromissões e parcerias nas atuações
municipais. E daí ter vindo do primitivo Sphan o tal paradigma
analisado por Lia Mayumi.
Em suma, aquela
expressão empregada pela autora envolve duas conceituações tornadas
dessa forma paradigmáticas nas ações de recuperação de bens tombados
pelo órgão federal em São Paulo. A primeira refere-se à estabilização
de velhas construções de taipa de pilão com o uso de tecnologia
contemporânea, como sugeriam as Cartas de Atenas e de Veneza.
A técnica escolhida foi a do concreto armado, que deveria ficar
à vista, como ordenavam as regras emanadas daqueles conclaves
que desejavam, assim, manter visível e identificada a intervenção
reparadora no monumento. Aqui, isso não foi seguido. No Brasil,
o Sphan acompanhou as primeiras recuperações dos preservacionistas
portugueses, que avidamente expurgavam acréscimos posteriores
a edificações medievais visando a integridade original e a unidade
estilística, arrancando aderências barrocas significativas de
seus suportes românicos. Entre nós, os técnicos comandados por
Lúcio Costa rapidamente revestiam as próteses e cintamentos de
concreto armado escondendo-os sob bem desempenados e caiados panos
de argamassa cimentícia.
A segunda
conceituação, abonada por todos, inclusive com bastante empenho,
por Luís Saia, o arquiteto chefe do Sphan em São Paulo, era a
que via na singeleza chã das construções antigas uma expressão
precursora de nossa arquitetura moderna. O citado paradigma tentava
trazer à tona uma pretensa modernidade a ser aposta ao bem arquitetônico
restaurado; isso às custas desta receita cosmetizadora: após garantida
a estabilização estrutural da velha
construção com
o emprego de inclusões
invasivas de concreto armado,
as paredes ganhavam novo revestimento. Depois de caiadas
adquiriam uma brancura nunca vista, fazendo contraponto
com todo
o madeirame uniformizado
em tons escuros obtidos com
solução de estrato
de nogueira. Essa pureza
asséptica seria a recuperação
de uma despojada “saúde
plástica” constatada por
Lúcio Costa nas construções
de outrora, que
teria sido a fonte natural
de nossa arquitetura
moderna. Pelo pensamento
orientador daquele arquiteto,
teria havido em nossa
história um
salto pulando todo
o ecletismo do século
XIX no desenvolvimento
da arquitetura nacional. Assim,
o mestre-de-obras de nossas construções coloniais teria sido o patrono dos arquitetos
modernistas, por sinal,
naquele momento, bastante
atentos aos ensinamentos
de Le Corbusier (1).
Todos
sabemos que a taipa de pilão
foi uma exclusividade mameluca adaptada às condições
especiais do planalto
de Piratininga e, nessa situação, espalhada pelo
mundo conquistado pelas andanças
do bandeirante. Uma das
alterações foi a eliminação
total de alicerces
e baldrames de pedra, a
exigência fundamental
da técnica árabe
no Algarve, donde nos veio aquele modo de construir. Aqui, o paulista
simplesmente socava a terra
em valas
abertas no próprio
solo sem
qualquer precaução
quanto à umidade e a recalques
diferenciais. Nos cantos
das paredes, havia sempre
uma tentativa de travamento fazendo com que os blocos saídos
dos taipais se cruzassem na forma de malhetes. A taipa
de terra socada não
tem nenhuma resistência ao risco,
nem trabalha
à tração e é altamente
erodível. O que o paulista
fazia bem era
apiloar valentemente
sua única
matéria-prima disponível
em região
falta das demais
conhecidas então e encontráveis
no litoral. Com o
tempo, com as
chuvas inclementes
que zombavam dos beirais
e devido às surpresas
causadas, ou pelas camadas
subjacentes do solo
advindas de recalques, ou pela presença de formigueiros e cupins,
as paredes se desaprumavam
sobretudo onde poderia haver eventuais empuxos
da armação dos telhados.
Nos monumentos
tombados foram encontrados, aqui
e ali, trincas,
fendas bem largas, paredes se separando e um
festival de trabalhos
de contenção amadorísticos e de mau
gosto executados há anos
e mais anos.
Como Luís Saia,
com a anuência
de seus maiores,
enfrentou toda essa problemática
? Refazer as paredes combalidas
de taipa usando a técnica antiga
? Foi desaconselhado pela
chefia carioca.
Espaços e paredes faltantes seriam refeitos com tijolos. Acabou
fazendo “pacotes”, como
dizia, amarrando toda a
construção por
fora com
vigas de concreto embutidas nas paredes na altura
do frechal, à meia
altura e em baixo, e solidarizadas
entre si por peças verticais à guisa de colunas,
obtendo estruturas mistas,
isto é, muros
contínuos pontualmente
intercalados por pilaretes.
Coisa complicada. No curso de
especialização havido em
São Paulo, em
1974, essa prática foi condenada por dois especialistas, os arquitetos
peruanos Victor Pimentel
e Roberto Samanez, mas
ela continuou a ser
empregada esporadicamente.
O revestimento
dos paramentos de taipa
de pilão também
oferece dificuldade e o
povo antigo, amparado
por experiências
seguidas, usava emboços
compostos de várias camadas,
sendo a primeira levando
a mesma terra da parede acrescida de alguma terra “mais
grudenta” à qual
também se juntava esterco
de gado para
evitar fissuras, nas seguintes,
a mesma receita
ganhando areia aos poucos
e se houvesse cal a última demão seria com
a ausência total
de terra e esterco.
Se não comparecesse a cal de Santos,
usava-se a tabatinga na pintura. Havia ali
uma gradação responsável
por uma fixação
perfeita do revestimento.
Procedimento difícil naqueles
dias das primeiras intervenções
recuperadoras. Optou-se por
argamassa com cimento, que
volta e meia
está a cair. Muita
gente lamenta
o fato das construções
tombadas não sugerirem
a idade que têm.
Recém saídas do forno,
são verdadeiramente “modernas”.
Para nós, isso é uma fatalidade,
porque a vetustez
aparente das casas
e igrejas por
cair é irrecuperável.
Qualquer tentativa
de pátina envelhecedora
é condenável. Bastam-nos o partido
arquitetônico e os estilemas para situar
no tempo a construção-documento.
Essa nossa
retro-digressão passando rapidamente pelos
assuntos tratados
com clareza
e isenção neste livro
por Lia Mayumi esclarece alguns
aspectos não
esmiuçados pela autora
e procura fazer o leitor entender melhor o clima existente em
São Paulo nesse setor
da proteção de bens
arquitetônicos tombados, no qual as idéias
e procedimentos não são
equânimes, mas, onde todos os envolvidos desejam ardentemente
fugir daqueles paradigmas.
Nota
1
Ver a publicação organizada pelo
arquiteto Alberto Xavier
Sobre Arquitetura,
com textos originais de Lúcio Costa,
Porto Alegre, CEUA, 1972, p. 80.
O presente
artigo é o texto de apresentação do livro.
Carlos
Alberto Cerqueira Lemos é formado em arquitetura pela FAU/Mackenzie,
atualmente é professor titular de pós-graduação no departamento
de História da Arquitetura e Estética do Projeto da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da USP. Desenvolveu atividades ligadas
ao projeto de edifícios e de urbanizações, à docência e à pesquisa
histórica. É autor de diversos livros, tais como: Cozinhas etc.
São Paulo, Editora Perspectiva, 1976; A Casa Paulista. São Paulo,
EDUSP, 1999.
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