Resenhas
online abril
2009, ano 8, vol. 88, p. 238
Livro resenhado
CAMPOS, Alexandre; TEIXEIRA,Carlos M.; MARQUEZ, Renata; e CANÇADO,
Wellington (Org.). Espaços colaterais / Collateral spaces.
Belo Horizonte, InstitutoCidadesCriativas – ICC, 2008. Edição
em Português/Inglês. Brochura, 312 p, 14x18 cm, ilustrado, cor,
fotos, desenhos. ISBN 978-85-61659-00-4 [imagem: “Vende-se meio
apartamento”, Escritório de Integração, PUC-Minas] |
Outras
arquiteturas possíveis
resenha de roberto andrés
1º Ato
Espaços
colaterais reúne práticas “arquitetônicas” realizadas em Minas
Gerais na última década, todas à margem da correnteza dominante
da produção formal de edifícios. O livro é parte de um projeto
que envolveu a organização de seminário público, a realização
de exposição em locais populares de Belo Horizonte e a edição
e distribuição de jornais e postais informativos. Se, nestes eventos,
voltou-se para o público local, enfaticamente buscando uma aproximação
com as camadas populares, o lançamento do livro vem ampliar o
campo de discussão do projeto, permitindo aos arquitetos, professores
e estudantes de todo o país conhecerem um pouco das experiências
(algumas bastante significativas) que o livro traz.
Estas experiências,
‘arquitetônicas’ entre aspas, já que apontam para uma ampliação
do seu senso comum, vão além do que se ensina nas escolas e do
que se faz na vasta maioria dos escritórios de arquitetura. Ações
artísticas e proposições de uso para espaços residuais, como lotes
vagos, palafitas abandonadas, estacionamentos e baixios de viadutos;
interferências arquitetônicas em favelas; design de mobiliário
sem desenho e a partir de objetos existentes; desenvolvimento
de metodologias de projetos participativos; proposições de operações
de qualificação urbana, são, todos eles, experimentos arquitetônicos,
no sentido de que alteram o espaço da vida humana na cultura.
Ao conhecer
cada uma das práticas, ao leitor se evidencia o quão restrita
é a profissão oficial de arquiteto. Este leitor, perplexo com
a obviedade dos trabalhos, se pergunta: se há lotes vagos, estacionamentos
vazios à noite e baixios de viadutos ermos, por que não ocupá-los?
Se há palafitas abandonadas, por que não fazer delas teatros (e
também residências, galerias, restaurantes)? Se há tantas pessoas
que querem construir seus lugares no mundo, por que atuar somente
para um grupo restrito? Se habitamos cidades cheias de contradições
e potencialidades, não é fundamental abordá-las teórica e praticamente?
Por que a atuação do arquiteto ficou restrita ao desenho de edifícios
para um grupo pequeno, se a construção do ‘ambiente cultural’
que habitamos é determinado por várias outras ações?
Este leitor
questionador enxergará os Espaços colaterais como atuações
ao mesmo tempo óbvias e inusitadas. Óbvias por sua simplicidade
e efetividade, e inusitadas pela ampliação radical do campo de
ação do arquiteto. Pois há muito tempo a profissão oficial do
arquiteto elimina diversas atuações possíveis para se focar no
desenho de edifícios. No melhor dos casos (residências e edifícios
institucionais) os arquitetos são “resolvedores de problemas autorais,
respondendo passivamente a programas políticos econômicos e domésticos
alheios”. Já na construção mainstream, resta aos arquitetos
a escolha de tamanhos e cores das cerâmicas, o desenho de varandas
curvas, retas ou diagonais, e, principalmente, a produção da documentação
necessária para os procedimentos legais. Este arquiteto-despachante,
assim nomeado por Frederico Mourão, possui pouquíssima influência
no processo de transformação do ambiente humano. As cidades se
fazem e se desfazem pela ação de diversos atores (construtoras,
políticos, empreendedores, tecnocratas) e aqueles que poderiam
estar mais aptos para atuar nesta transformação assumem o papel
passivo de ‘resolvedores de problemas’/despachantes.
Para interferir
na construção do ambiente em que vivemos, para alterar sua ‘arquitetura’,
é preciso ir muito além do lugar pouco imaginativo ao qual se
limitou a profissão. As práticas presentes em Espaços Colaterais
apontam, de maneiras variadas, para este horizonte de possibilidades.
2º Ato
Não seria
difícil, entretanto, criticar cada um dos trabalhos apresentados
e expor seus limites: as ações artísticas, embora potentes, não
conseguem se estender em ocupações que alterem a cidade por um
tempo maior; as proposições urbanas raramente saem do papel; as
interferências arquitetônicas são pontuais e ínfimas em relação
ao enorme contingente de trabalho a ser feito nas periferias brasileiras;
as metodologias pesquisadas carecem de mais aplicação para desenvolvimento;
etc. Fácil seria explorar estas limitações e utilizá-las em discursos
reacionários pela manutenção do status quo construtivo,
alegando ineficácia das ações alternativas.
Tal postura
seria, sem dúvida, capciosa. Pois os limites se devem muito mais
ao caráter incipiente e original das práticas do que à impossibilidade
de ações alternativas ou à falta de competência dos autores. Fato
é que, mais do que cair no pêndulo fácil da polarização extremada
entre tradicional e alternativo, eficiente e ineficiente, devemos
olhar estes espaços colaterais como experimentos radicais, e procurar
em suas falhas os mecanismos sutis de produção do ambiente. Pois,
se cada um deles propõe a construção de “outras arquiteturas possíveis”,
o entendimento de suas limitações revela as especificidades deste
processo. Se lermos estes espaços colaterais buscando com lente
ampliada os acertos e erros, poderemos vislumbrar mais claramente
os campos de ação possíveis, as margens de êxito e as dificuldades
operacionais para atuações efetivas na produção do espaço.
Por isto o
livro é leitura obrigatória para aqueles que almejam interferir
concretamente nas cidades. Pois há muito trabalho a ser feito
de ampliação e fortalecimento de ações pontuais propositivas e
de entendimento por parte dos arquitetos dos processos de produção
de espaços. Os Espaços colaterais oferecem um substrato
experimental riquíssimo para este entendimento.
reAto
Na introdução
do livro, Wellington Cançado afirma que “a arquitetura se tornou
uma prática essencialmente reativa e o arquiteto um reacionário
profissional”, denunciando aquela postura passiva que também tratamos
aqui. No entanto, sugerir que as práticas presentes no livro são
menos reativas que aquelas, por não operarem pela demanda de terceiros,
pode ser um entendimento reduzido da questão: todas elas são reações
a uma dada situação concreta. A ocupação dos lotes é uma reação
aos lotes vagos, e assim por diante. Neste momento, percebemos
que contrapor ação e reação só nos levaria a uma filosofia do
tipo ovo x galinha (acionista x reacionário), que,
certamente, carece de interesse.
No entanto,
tal discussão nos sugere que, indiferente de serem ativos ou reativos,
os espaços colaterais podem ser vistos como re-atos: reatam a
atuação imaginativa dos arquitetos e a produção concreta dos espaços
que habitamos. Estabelecem, entre as pessoas interessadas na transformação
do ambiente humano e os seus processos de produção, uma conexão
ativa. De uma maneira mais ampla, a grande maioria das práticas
colaterais reatam arquitetos e a própria realidade concreta, superando
a posição politicamente passiva e cientificamente objetiva dos
herdeiros do modernismo. Vislumbra-se aqui a inserção, na prática,
de uma postura filosófica tão debatida no século que passou: não
mais o arquiteto distanciado do mundo pela representação visual,
interessado no universo das formas como idéias aplicadas, mas
o arquiteto imerso na realidade concreta e interessado em transformá-la
a partir do entendimento de seus mecanismos intrínsecos.
Não mais a
objetividade do espírito transcendental, mas a intersubjetividade
do ser imerso na realidade concreta, para falarmos com Flusser.
Este reato entre arquitetos e mundo concreto daria a esta resenha
um desfecho inesperadamente otimista, não fosse a impressão de
que estes espaços estão se tornando cada vez mais colaterais.
Roberto
Andrés, arquiteto e mestre pela UFMG, tem publicado artigos sobre
arte e arquitetura em periódicos como as revistas A-desk e Musiques
et Cultures Digitales, o Portal Vitruvius e o Jornal Hoje em Dia.
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