O
ostracismo deliberado de Arnaldo Gladosch (1)
resenha de alberto xavier
No final dos
anos 50, quando cheguei a Porto Alegre para cursar arquitetura,
o ponto central da cidade já era a Rua dos Andradas, conhecida
como Rua da Praia e, em especial, seu cruzamento com a Avenida
Borges de Medeiros, ou seja, uma via antiga, reduto do pedestre,
e uma artéria concluída nos anos 40, balizada por prédios altaneiros,
portal da modernidade e domínio do veículo. Um edifício ganhava
destaque. Todos o identificavam pelo nome – Sulacap. Quanto
ao autor, poucos tinham dele conhecimento, sendo sua trajetória
ignorada. Quem era ele? Qual sua formação? Que influências recebera?
Que obras outras realizara na cidade ou alhures?
Chamava-se
Arnaldo Gladosch, paulistano de ascendência alemã, nascido em
1903, educado na Europa desde os 11 anos até formar-se arquiteto,
em 1926, na cidade de Dresden. Estabeleceu-se no ano seguinte
no Rio de Janeiro, onde, além da realização de projetos de algum
interesse, participou da equipe de Alfred Agache, que, entre os
anos 1927 e 1930, elaborou o Plano Diretor da cidade.
Contratado
em 1938 pela municipalidade de Porto Alegre, seu Plano Diretor
cuidou dos
zoneamentos e de alguns espaços específicos importantes, mas a
falta de recursos do município inviabilizou sua implantação. No
entanto, seu trabalho paralelo com o projeto de edifícios contribuiu
de modo decisivo na definição da fisionomia da Av. Borges de Medeiros,
onde, no curto espaço de seis anos, edificou também o Sul América,
o União e o IAPI, além do Chaves e do conjunto Mesbla, dispostos
em outra área da cidade.
Era esse,
portanto, o artífice da metrópole, arquiteto que unia o edifício
à cidade, a cidade ao edifício. Nada mais desafiador, portanto,
que recuperar e esclarecer o perfil de um homem estranho ao meio
porto-alegrense, jogar luzes sobre uma figura disputada pelas
autoridades do Município, mas rechaçada por seus colegas locais.
Eis que, às
vésperas de serem comemorados os 70 anos da presença desse arquiteto
em Porto Alegre, nos chega às mãos este belo, minucioso e importante
livro – Arnaldo Gladosch: o edifício e a metrópole. Originalmente
tese de doutorado defendida junto à Faculdade de Arquitetura da
UFRGS e aprovada com nota máxima, nele é abordado pela primeira
vez o conjunto de suas proposições arquitetônicas e urbanísticas
de Arnaldo Gladosch. Iniciativa importante como resgate necessário,
mas tarefa complexa, dada a natureza polêmica da obra que o arquiteto
legou à cidade.
A esse desafio,
se propôs Anna Paula Canez, que reunia, sem dúvida, todos os títulos
para levar a bom termo essa empreitada. Afinal, contavam a seu
crédito trabalhos similares, como sua dissertação de mestrado
– o livro Fernando Corona e os caminhos da arquitetura moderna
em Porto Alegre, publicado em 1998 – onde documentou a produção
desse arquiteto autodidata que firmou nome como escultor e professor,
tendo sido um dos grandes incentivadores da arquitetura em Porto
Alegre. Mais tarde, brindou-nos com outro livro – Arquiteturas
cisplatinas –, registro cuidadoso de trabalhos de dois uruguaios
– Eládio Diesde e Fresnedo Siri – que deixaram marcas
importantes no cenário porto-alegrense: a Central de Abastecimento
e Hipódromo do Cristal, respectivamente.
A abordagem
desenvolvida pela autora foge de uma tendência freqüente e arriscada:
a de atribuir à obra do biografado um significado extraordinário.
Pelo contrário, é na correta dimensão do valor atribuído à obra
de Gladosch que reside o mérito de sua análise, porquanto exige
um esforço de interpretação maior que aquele trabalho voltado
para arquitetos consagrados, ou seja, considera que não foi ele
“o realizador de obras excepcionais, mas de exemplares que
fazem parte de uma mesma família de obras que se podia encontrar
nas publicações da arquitetura européia, sobretudo alemãs e francesas”.
Anna Paula Canez apresenta a contextualização necessária das referências
de Gladosch, especialmente daquelas forjadas no período de formação
acadêmica, ao qual dedica atento e circunstanciado capítulo, rico
em dados e ilustrações.
A análise
é tanto mais difícil de ser empreendida quando consideramos as
reações adversas a que sua produção esteve sujeita nesse período.
Seu contrato com a municipalidade para elaborar o Plano Diretor
provocou severas reservas dentre os profissionais do meio –
inclusive descrédito e boicote, no juízo da autora –, inconformados
com a contratação de um forasteiro, em detrimento de técnicos
locais. Reação compreensível, mas que tem como contraponto o fato
de Gladosch não ser um estranho à prática urbanística. Pelo contrário,
ostentava em seu currículo – numa época de poucos profissionais
experientes na lide com as cidades –, a participação na
equipe de Alfred Agache, quando do Plano Diretor do Rio de Janeiro
(1927-1930). Attílio Corrêa Lima e Affonso Eduardo Reidy também
integraram esse grupo e suas atuações ulteriores à frente das
questões urbanas muito devem a essa experiência de início de carreira.
A investida
de Gladosch no território dos edifícios provocou idêntico rechaço.
Tratava-se de demandas excepcionais por parte de grandes empresas:
projetos incomuns, envolvendo lotes de esquina, com generosas
dimensões e invejável localização. O fundamento dessa reação residia
na natureza das concepções arquitetônicas de Gladosch, consideradas
retrógradas, se comparadas àquelas que advogavam os jovens profissionais
do meio; formados nas primeiras turmas de arquitetos, eram adeptos
da corrente carioca liderada por Oscar Niemeyer.
A contrapartida
– típica desse período de lutas que caracterizou a “fase
heróica” da arquitetura brasileira – veio da forte
resistência de engenheiros do meio, quando oportunidades similares
e contemporâneas em Porto Alegre foram confiadas a arquitetos
da antiga capital federal. Os projetos das sedes do Instituto
de Previdência do Estado, de Oscar Niemeyer e a da Viação Férrea
do Rio Grande do Sul, de Affonso Eduardo Reidy e Jorge Moreira,
foram soterrados, invocando-se “princípios estéticos e de
respeito às tradições, questões climáticas e outros argumentos”,
como bem observou Demétrio Ribeiro.
Ao largo desses
sessenta anos da conclusão da principal obra de Gladosch na cidade,
o Sulacap passou por uma lenta e crucial reavaliação. Foi marginalizado,
sendo tanto objeto de zombaria quanto de críticas ácidas, rotulado
de “nazista”. Passou a ser visto como de “um
ecletismo simplificado, orientado a expressar durabilidade e solidez
econômica”. Ganhou um olhar benevolente, avaliado como “um
paradigma de boa qualidade da arquitetura para fins comerciais
desse período”. Foi redimido no clima efervescente dos anos
80, quando do debate moderno x pós-moderno – período em
que a autora cursou a Faculdade –, sendo tomado como exemplar
representativo da arquitetura da cidade, reconhecimento reafirmado
com sua inclusão no livro Arquitetura moderna em Porto Alegre,
que publiquei em 1987, em parceria com Ivan Mizoguchi.
Se, conforme
a autora, “estariam já lançadas, quando da contratação de
Gladosch pela municipalidade, as bases de sua ausência na historiografia
da arquitetura brasileira” – fato que denominou de
“ostracismo deliberado” –, Arnaldo Gladosch:
o edifício e a metrópole é o balanço consistente e equilibrado,
capaz de colocar a obra desse arquiteto na sua correta e oportuna
perspectiva.
Nota
1
O presente texto é prefácio do livro comentado.
Alberto
Xavier é arquiteto, professor e historiador da arquitetura.
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