Design
Brasil, história e valor
resenha de suzana mara sacchi padovano
Ler o livro
de Ethel Leon, Memórias do design brasileiro, é
como fazer uma viagem rumo ao descobrimento dos pioneiros envolvidos
com o design brasileiro. São entrevistas realizadas em
um período que vai de 1989 à 2008 com Alexandre
Wolner, Cauduro e Martino, Emilie Chamie, Estella Aronis, Jorge
Zalzupin, Livio Levi, Manoel Coelho, Michel Arnoult, Milly Teperman,
Pietro Maria Bardi, Ruben Martins e Zanine.
Como a própria
autora relata, seu livro surgiu perante a necessidade que sentiu,
desde que começou a lecionar história do design
em 2003, de conhecimento por parte dos estudantes, no que se refere
aos nomes do design nacional. Por outro lado, a outra razão
foi que nesta disciplina "navega-se pelas ondas da Bauhaus"
e outras influências estrangeiras e por todo um sentimento
mítico de que o design é algo que vem "lá
de fora".
Que o leitor
não pense serem relatos frios. Muito pelo contrário,
a autora possui maestria em escrever de forma fluida, leve e intimista
sobre um assunto tão importante que poderia se tornar monótono
e sem viço em outras mãos.
As entrevistas
são vívidas, cheias de recortes, informações
inéditas e pessoais, que configuram a essência de
cada designer. O leitor sente-se em casa, como se ele próprio
estivesse conversando na sala de estar do entrevistado.
Assim ficamos
sabendo que: Alexandre Wollner, aos 80 anos, experiente designer,
torna-se "jovem pintor"; Cauduro e Martino tiveram imbroglios
com o projeto do metrô; Emilie Chamie entregava seu rigor
mais aos seus sentidos do que às suas réguas; Estella
Aronis era multidesigner além de dona de casa e mãe;
Jorge Zalzupin foi imbatível empresário, designer
e administrador de crises; Lívio Levi, designer da luz,
foi artista total; Manoel Coelho tem um sonho antigo que é
o respeito ao espaço da cidade; Michel Arnoult foi o designer
que previu o uso do eucalipto como madeira de escala industrial;
Milly Terperman é um empresário cheio de idéias
que sempre amou o design; Pietro Maria Bardi teve sua vida foi
dedicada à arte e afirmou ser um objeto da cultura industrial
um item de museu; Ruben Martins foi titular do primeiro escritório
formal de design brasileiro; e Zanine foi o amante da natureza,
o mago da madeira, e que por suas mágoas refugiou-se no
exterior, e muito muito mais...
Ao percorrermos
todas estas páginas com suas diferentes histórias,
podemos apreender dois diferentes níveis de narrativas:
o primeiro é a do conhecimento da história do design
brasileiro, desconhecida por muitos; a segunda é a leitura
do contexto econômico e social do Brasil durante todo este
período relatado.
Nesta obra
temos a oportunidade única de apreciar os vários
produtos, sejam eles objetos ou projetos gráficos destes
designers, muitos dos quais não tinham vindo à público
anteriormente.
Para muitos
que já conhecem os produtos, mas não conhecem sua
história inteira, este livro é a oportunidade de
ter acesso ao conceito de trabalho atrás de cada um, dos
escritórios ou estúdios informais, seus projetos,
a história de sua concepção, desenvolvimento,
fabricação, seja ela artesanal, semi-industrial
ou industrial. Podemos também acompanhar as vitórias
e as agruras de cada entrevistado, tendo como pano de fundo as
dificuldades tecnológicas, sistêmicas e fabris pelas
quais passaram.
Esta leitura
nos permite também recuar no tempo e verificar que ainda
hoje persiste grande parte dos problemas econômicos, sociais
e industriais. As lamentações de ontem são
muito similares às de hoje: a falta de identidade brasileira
que acometeu o mundo do design, a noção de que design
é algo decorativo, a falta de cultura dos empresários
brasileiros para entender design, a invasão de empresas
estrangeiras, entre outros.
Muito pouco
se escreve sobre o design no Brasil, esta fascinante atividade
cujos conhecimentos ficam restritos ao seu círculo de entendidos
e que, diga-se de passagem, poderia estar em um nível de
desenvolvimento muito mais acelerado e com maior representatividade.
Esta obra, entretanto, servirá de referência e farol
para todos aqueles que se interessam por design, sejam leigos,
alunos, pesquisadores e mesmo para designers como eu, que de uma
forma ou de outra, mesmo tendo tido o privilégio de conhecer
pessoalmente quase a maioria dos entrevistados e seus trabalhos,
ao lê-la, pude aprofundar meu conhecimento emocional e particularidades
destas grandes personalidades e mestres.
Suzana
Mara Sacchi Padovano é designer industrial (Mackenzie,
1975); Mestre pela Rhode Island School of Design (Providence /
RI / Massachussetts / USA, 1975 à 1977). Foi professora
no Departamento de Projeto de Desenho Industrial, no Mackenzie,
na Unip e na FAAP, e nesta última foi Coordenadora das
Faculdades de Desenho Industrial e Moda até 2006. Proprietária
do Studio de Consultoria em Design, Sacchi Designers e da marca
Eccentrica, de bijoux e jóias, é Consultora de Design
Industrial do NUTAU/USP - Núcleo de Pesquisa em Tecnologia
da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
|