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architectourism ISSN 1982-9930

Porto de Paranaguá PR. Foto Abilio Guerra

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Luís Magnani narra suas andanças por Pirenópolis e Goiás Velho, sempre de prontidão para pensar sobre o patrimônio histórico


how to quote

MAGNANI, Luis Antonio C.. Arquitetos só viajam a trabalho. Arquiteturismo, São Paulo, ano 01, n. 002.02, Vitruvius, abr. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/01.002/1312>.


A história começa pelo ar entre São Paulo e Goiânia, depois por terra rumo a Pirenópolis, pela primeira vez, para conhecer. Uma viagem que foi muitas vezes protelada e já tinha peso de dívida para comigo mesmo. Então chegou a hora... Próxima parada, Pirenópolis!

Pireneus... Os morros entre os quais repousa a cidade começam a ondular bem antes, preparando o anticlímax de chegar debaixo de um tremendo toró. Mesmo assim quero imediatamente experimentar o chão da cidade, que logo começará a contar suas histórias gravadas nas ruas, muros e calçadas de pedras irregulares. O calor goiano justifica um pequeno giro, de guarda-chuva, pela redondeza.

À noite, embalado pelo som da chuva no telhado, observo as telhas vãs e as paredes caiadas da pequena “morada” onde estou hospedado, no centro histórico, para a qual desenvolvi um projeto de recuperação há anos e ainda não havia visto pronto.

Dia seguinte [sol], caminho sem rumo descobrindo as paisagens [chuva], percorro ruas, observo janelas e telhados [sol], esquinas, praças e margens do Rio das Almas [chuva]...

Olhar a cidade é como ler um livro. As memórias emanam das paredes tingidas pelos sonhos daqueles que construíram, viveram, partiram ou chegaram há pouco com novas idéias.

A cidade conta sua história sem dó. Aqui, o turismo determinou a oferta cultural, artística, gastronômica e sustenta um bom número de lojas, ateliês, pousadas, restaurantes e justifica as muitas casas de fim de semana do povo de Brasília.

O alvoroço do sábado vira silêncio no domingo à noite no centro histórico. Movimento, agora, só no fim de semana que vem.

Goiás Velho tem sido sempre surpreendente. Cada estadia tem suas mágicas diferentes.

Lembro quando vim para um festival de teatro, em que, com os grupos participantes e a gente da cidade, dançamos uma ciranda que envolvia toda a Praça do Chafariz, à noite, à luz de tochas.

Ao enlaçarmos a praça, na verdade a cidade também nos abraçava, envolvia, sustentava, com seu perfume noturno, com suas estrelas. Como se adquirisse características humanas e exercesse ali o seu afeto.

Agora estou caminhando por dois dias inteiros pelas ruas, vielas, pontes, observando as construções de abobe, entrando nas vendas e vendo a chuva rodear a cidade. Margeio o Rio Vermelho para ver os muros das casas debruçados sobre suas margens e os lençóis tentando secar nos varais dos quintais.

Já os bairros mais recentes que abraçam o centro mostram seu vigor ameaçador, se vistos com olhares de preservação histórica e ambiental.

Claro que fui ver a Igreja Matriz incendiada. Ouvi, nos dias seguintes, os comentários de moradores e também a visão do Patrimônio Nacional sobre sua restauração. Como conciliar visões tão variadas? Como juntar teoria e paixão?

Ainda que com vontade de ficar mais, deixo Pirenópolis com uma lista de novos amigos e horas e horas de conversas regadas a café e bolinhos e continuo a viagem rumo a Goiás Velho.

Minhas visitas a Goiás Velho têm sido quase freqüentes. Tenho enorme prazer em rever a cidade e os amigos. Ao contrário de Pirenópolis, onde as pedras das ruas são cravadas de topo, lado a lado no chão, Goiás é pavimentada com lajes de pedra dura, o que obriga um caminhar atento para prevenir os entorses.

Aos poucos se aprende a andar e o estado de atenção necessário aguça a percepção para tudo que está à volta. Arquitetos costumam treinar o olhar como seu mais refinado equipamento de trabalho e ocorre que esse mecanismo não desliga, mesmo em dias de descanso. Então é só olhar que a cidade se oferece.

Lembro do Janjão, arquiteto e amigo, que dizia que a vida nas cidades se mostra mais cruamente através dos quintais do que na alegoria das fachadas.

Prometi a mim mesmo que, desta vez, não tiraria duas mil fotos. Quero só passear... Bem, vou fotografar só o que for “essencial”.

Observo que os construtores da cidade incorporaram aqui e ali blocos de pedra aflorantes do subsolo, que foram integrados aos embasamentos de casas, às ruas e calçadas.

Esse modo orgânico de contracenar com o ambiente nutre em mim a sensação de estar num continuum com o mundo à volta. Faz sentir a primazia da escala humana na construção da cidade, ainda que seja porque lhes tenha faltado dinamite.

Das poucas fotografias que fiz, uma foi de uma casa presenteada com um maciço natural logo à entrada, que lhe servia de escada.

Parei para olhar a pedra brotando do chão, aquela localização exata, aquele casamento simples e perfeito. Uma vizinha saiu na janela para olhar o que poderia haver de interessante em sua paisagem habitual que chamara a atenção de uma câmera digital.

Dia seguinte ouço comentários do desabamento de uma casa no centro histórico.

Mais tarde o assunto estava na TV e nos jornais e já havia mobilizado as autoridades locais e os técnicos do Patrimônio Nacional, pois a casa figurava entre as que seriam recuperadas com verba de instituição internacional.

Não resisto e vou lá ver. Que absurdo! É... justamente a casa da escada de pedra!

E eu havia registrado, no dia anterior, o seu último suspiro!

sobre o autor

Luís Antonio Magnani é arquiteto e restaurador de bens culturais especializado em Florença. É autor dos restauros do Complexo da Figueira do Gasômetro de São Paulo, Planetário do Ibirapuera (com Paulo Faccio e Pedro Dias) e das escolas “Caetano de Campos” em São Paulo, “Instituto de Educação” em Pirassununga, “Cardoso de Almeida” em Botucatu e ”Orozimbo Maia” em Campinas. Foi curador das exposições “Ver Zanine” e “A fábrica e o formão”, sobre a obra do arquiteto José Zanine Caldas.

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002.02 Paisagem construída
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