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architectourism ISSN 1982-9930


abstracts

português
Artur Rozestraten nos convida a uma viagem bem diferente, uma vez que entende que "A arquitetura não é arte para ser vista, apenas. É arte para ser vivida, vivenciada. Não se pode apreendê-la com fotografias, nem filmes, nem maquetes, nem nada"

english
Arthur Rozestraten invites us to travel in a quite different way once he understands that "Architecture is not an art to be only seen. It's an art to be lived, experienced. One can not grasp it with photos or films, or models, or anything"

español
Artur Rozestraten nos invita a un viaje bien diferente, una vez que entiende que "La arquitectura no es un arte para ser apenas visto. Es un arte para ser vivido, vivenciado. No se puede aprender con fotografías, ni películas, ni maquetas, ni nada"


how to quote

ROZESTRATEN, Artur Simões. O arquiteto de Laranjeiras. Arquiteturismo, São Paulo, ano 02, n. 022.05, Vitruvius, dez. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/02.022/1486>.


Um arquiteto centenário é da linhagem das árvores, corais e centauros. Seus olhos viram o tempo, suas mãos enraízam-se nos veios dos braços dos móveis, seu rosto espelha o abismo vertiginoso do azul do mar no horizonte.

Da vida de um arquiteto ficarão as arquiteturas. Concretização de sua história, de seus sonhos e de seu trabalho. E a vida do artista é todo o significado que se pode extrair de uma obra de arte. No futuro, o arquiteto estará distante, cada vez mais diluído na memória dos jovens. Mas suas arquiteturas continuarão presentes – contemporâneas – e nelas, de certo modo, sua vida se estenderá, se desdobrando em outras.

Talvez por isto tenha o arquiteto sempre valorizado mais a vida do que a arquitetura. Afinal, de que interessa a arquitetura se não servir à vida?

Talvez também por isto tenha ele insistido em continuar sendo um amador onde muitos se esforçam pretendendo ser profissionais.

Artur Rozestraten com alunos em viagem

O reflexo não poderia ser outro se não o transbordamento de sua vitalidade no mundo, nos outros, naqueles que aqui estiveram, nos que aqui estão, e nos que virão depois.

Sabe-se que não há como passar, simplesmente, por suas arquiteturas. Pois elas exigem uma vida. Abrem-se como flores, entregam-se para nos possuir, e semeiam pathós. Toda sorte de sentimentos conforma-se ao vivenciá-las. Tocado, ninguém segue sendo o mesmo. Reinventa-se a arquitetura e ela a nós.

A arquitetura não é arte para ser vista, apenas. É arte para ser vivida, vivenciada. Não se pode apreendê-la com fotografias, nem filmes, nem maquetes, nem nada. Todas estas formas são redutoras, parciais, incompletas. É preciso ir ao seu encontro, tocá-la com as mãos, com os pés, com o corpo todo e seus sentidos amplificados em movimento.

Talvez nem mesmo exista a Igrejinha de S. Francisco, na Pampulha, antes que com ela nos comovamos. Talvez haja apenas desenhos, e uma ou outra fotografia em um livro. Mas, como arquitetura, ela só pode existir conosco: coexistir. A intensidade da dúvida, gerada pela ilusão que sugere sua imagem, pode nos levar à Belo Horizonte, aos jardins e à lagoa. Aí, então, inebriados de matéria e espaço, passaremos a existir com ela, nos moveremos com ela e, comovidos, a reinauguraremos com a quase certeza de que não havia nada ali antes daquele dia.

Rememorando os dias de seus cem anos, o arquiteto sabe que enquanto a arte da arquitetura conformar o espaço para a vida humana em plenitude, ainda haverá esperança, e todo esforço para sua invenção terá valido a pena. E se a pluralidade e os enigmas de sua vida de inventor só se integram, coesos, na existência física do espaço e matéria de sua arquitetura então, toda atenção a ela.

Nenhuma contextualização histórica poderia explicar as flores selvagens que brotaram às margens da lagoa de Pampulha no início dos anos 40.

Quatro edifícios singulares, narcisos mirando-se mutuamente ao redor de uma lagoa-espelho-praça artificial. No limite da franja da linha d’água, a igrejinha, o cassino-museu, a Casa de Baile e o Yatch Clube flutuam sinuosos. Edifícios ondulados, curvilíneos, de pele escorregadia, que revelam quando duplicados em reflexo sua natureza ambígua de seres anfíbios: vivem na terra com saudade da água.

O espaço central que os articula é um livre redesenho, em água, dos antigos terreiros coloniais, do pátio das aldeias, da praça da vila, da ágora. A lagoa é o disco de rotação em torno do qual gravitam lentamente os volumes ensolarados dos edifícios. Seu movimento cria uma dinâmica centrífuga do espaço sobre as águas para dentro das arquiteturas, as enlaçando, enredando. Penetra no vão das cascas abobadadas de concreto, desliza sob as marquises serpentinas, atravessa os vidros, e perfura os elementos vazados.

Será que o vento da lagoa ondulou os edifícios, ou as curvas do concreto é que ondularam a superfície da água?

A reverberação contínua do espaço agita os edifícios e estes, como peças irregulares de um móbile, giram suspensos, pendentes, desequilibrando-se para se contrabalançar em moto contínuo. Não é preciso dizer que a estática nunca foi o desejo tectônico de seu criador. Mas sim a dança.

A Dança (detalhe), Henri Matisse, 1910. Museu Hermitage, S. Petesburgo, Rússia

E assim como na tela de Matisse, o arquiteto celebra a vida dando as mãos a seus edifícios para abraçarem a lagoa e, juntos, atravessarem o tempo. O brilho das cores diurnas, de fundo sempre azulado, o verde das águas, a paisagem pontuada de vermelhos e alaranjados, brancos e amarelos, já não resiste ao azul profundo do céu. As cores então se diluem em cinzas e vários tons de escuros. Outras luzes – elétricas –, planificam os volumes dos edifícios e chamam à tona a lagoa noturna. Aquela que dormia no fundo à noite aflora, em massa de água negra, oleosa e lenta. Água morna, pesada de sono lunar.

E se a vibração dourada dos edifícios acesos convida ao presente terreno, o deslizar quase silencioso dos cascos dos barcos de outrora sobre a fina crista d’água adentra a memória profunda.

Houve uma noite febril, em um quarto de hotel de Belo Horizonte, em que tudo teve início.

Ali, ensimesmado, fechado com seus pensamentos e seu desenho, o arquiteto riscou os croquis do conjunto de Pampulha. Lagoa e edifícios, formas a construir o lugar. Trabalho que levou um giro da terra entre a fecundação e o parto.

Noite febril à qual se seguiram dias, e outras noites, semanas, anos inteiros, uma vida de trabalho intenso e deslubramento. A arquitetura é produção coletiva, na qual em alguns momentos o arquiteto está só consigo mesmo, e em outros, acompanhado de seus interlocutores e incontáveis auxiliares, extensões de seu imaginar e fazer na lida com a terra, o aço, o cimento e, principalmente, o vazio do espaço aberto.

Afinal, o fazer arquitetônico só se vale da matéria para a poética de seu inverso: os interstícios, os entremeios, os “por onde”.

E é justamente nestes intervalos de espaços que vivemos e damos corda ao carrosel do tempo.

Toda obra de arte é uma espécie da memória às avessas. Uma saudade do futuro. Que, quando vista em retrospectiva, parece o prenúncio de obras posteriores. Reconhece-se nela, então, os ensaios de alguns dos passos por vir.

E ali em Pampulha a genealogia se depara com as raízes primitivas de toda uma geração de edifícios híbridos, mestiços, insondáveis. Lá estão as cascas de concreto abauladas, prenhas de possibilidades; as marquises insinuantes; os marcos verticais fincados no chão; os abraços de volumes distintos; as angulações em cunha; as infinitas variações entre superfícies transparentes, translúcidas e opacas.

Na igrejinha, sementes do Memorial da América Latina, dos edifícios de Universidade de Constantine, e do Pavilhão da Galeria Serpentine. Na casa de baile, da Oca. No Yatch Clube, do auditório do Ibirapuera. E no cassino, lampejos dos palácios de Brasília.

Mas nem tudo o que foi feito depois se deixava ali prever. Pois a imaginação vive de saltos inusitados, surpresas, como o Copan, a catedral de Brasília, a mesquita de Argel, o MAC de Niterói, e os projetos ainda em gestação nos riscos do arquiteto.

Há tanto a fazer ainda, que talvez agora seja melhor calar.

E deixar que nossos olhos, nestas últimas linhas, reencontrem os olhos do arquiteto. Então, reconheceremos neles o brilho do menino arteiro, que enamorado da vida, inventou celebrar seu centenário em lua-de-mel. Carioca de Laranjeiras, sempre soube que o passeio arquitetônico não é nada sem o calor do abraço da mulher amada.

sobre o autor

Artur Rozestraten, arquiteto e urbanista, professor junto ao Departamento de Tecnologia da FAUUSP

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