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architectourism ISSN 1982-9930


abstracts

português
Neste artigo, a viagem de Lucia Maria Borges de Oliveira pelo Vietnã é agora completada com a porção centro-sul do país. Aqui estão caracterizados os efeitos das intempéries, as dificuldades de comunicação, as transformações urbanas e humanas

english
In this article, Lucia Maria Borges de Oliveira talks about her trip to the center and South of Vietnam. She reflects on the effects of the weather, the difficulties of communication and the urban and human transformations

español
En este artículo, el viaje de Lucia Maria Borges de Oliveira llega al centro-sur del Vietnam. En él reflexiona sobre los efectos de las intemperies, las dificultades de comunicación, las transformaciones urbanas y humanas


how to quote

BORGES DE OLIVEIRA, Lucia Maria. Outro lado do mesmo Dong? Arquiteturismo, São Paulo, ano 02, n. 022.06, Vitruvius, dez. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/02.022/1487>.


Chegamos a Hué, antiga capital imperial do Vietnã, sob chuva. Rabeira de um furacão que causou muitos danos no centro do país. Toda a expectativa que havíamos criado em relação à cidadela e à cidade proibida foi, da maneira mais chocante, substituída por uma grande tristeza entre as más condições de tempo, de conservação do conjunto e a semi-escuridão de um anoitecer precoce que durou toda uma tarde. A passagem do furacão não parecia justificar as condições de deterioro que pudemos observar. Almoçamos já dentro da cidadela, no restaurante de um hotel pequeno que pareceu simpático, próximo à esquina onde levei um grande tombo, ficando estatelada no chão sem entender o que havia acontecido. Garçom surdo, prato errado. Mas tudo faz parte da aventura.

A visita à Cidade Imperial foi meio deprimente. O piso dos grandes pátios muito escorregadio, o estado da maioria das edificações bastante precário, principalmente muros e portas de acesso, tudo enegrecido, o mato tomando conta dos jardins. Sabemos por experiência própria das transformações que podem ocasionar as fortes chuvas tanto nas construções como na vegetação.

Talvez por isso tenha sido difícil avaliar o que era resultado dos bombardeios ocorridos décadas antes, das tempestades recentes e/ou da carência de recursos para a sua conservação. Encurtamos a visita e fomos embora no dia seguinte. Danang também se ressentia da passagem do furacão. Parte da cidade alagada, inclusive a rua de nosso hotel, construções e reconstruções por toda parte. Seguindo a onda do momento no país, Danang se abre ao turismo internacional. Projetos mirabolantes para transformar radicalmente a orla marítima, onde não estivemos. Apenas vimos prospectos com desenhos sobre a sua ocupação em extensão e altura. Um pouco assustador.

Chovia, mas o pior havia passado. Pudemos passear pelas ruas, observar um pouco da vida urbana local, visitar seu mercado diversificado, tirar umas férias no meio das férias. Freqüentávamos um bar junto ao hotel, com um aquário que tentava reproduzir o de Procurando Nemo. Na entrada, um prato com sal grosso. Herança africana? Tomávamos margaritas e comíamos comidas locais. Uma grande mistura, como nós.

Queríamos conhecer o templo de Pho Da, por razões óbvias. Foi uma divertida incursão numa parte da cidade pouco freqüentada por turistas. Chegamos lá graças às indicações de uma senhora que nos viu perdidas numa esquina tipo belohorizontina, um monte de ruas partindo de um mesmo ponto. A explicação foi perfeita, mesmo sem falar uma palavra sequer de outro idioma que não o seu. O templo estava fechado, apenas o vimos desde fora, uma criatura branca e bela à sua frente. Missão cumprida, nos refrescamos com uma cerveja on the rocks, o gelo emprestado da vizinha do bar.

Em Danang tivemos o primeiro contato com a cultura Chan, no museu que reúne uma coleção artística maravilhosa, apertada no espaço disponível e com uma iluminação que ninguém merece. Bateu uma chuva forte na saída, demos um tempo na lojinha do museu. Senti que algo me tocava. Era a mãozinha suave de uma das magérrimas vietnamitas que trabalham ali, curiosa pelo cacheado dos meus cabelos.

My Son, próximo à cidade, é o maior centro de visitação da cultura Chan, duramente bombardeado durante a guerra contra os Estados Unidos.

Queríamos conhecer o templo de Pho Da, por razões óbvias. Foi uma divertida incursão numa parte da cidade pouco freqüentada por turistas. Chegamos lá graças às indicações de uma senhora que nos viu perdidas numa esquina tipo belohorizontina, um monte de ruas partindo de um mesmo ponto. A explicação foi perfeita, mesmo sem falar uma palavra sequer de outro idioma que não o seu. O templo estava fechado, apenas o vimos desde fora, uma criatura branca e bela à sua frente. Missão cumprida, nos refrescamos com uma cerveja on the rocks, o gelo emprestado da vizinha do bar.

Em Danang tivemos o primeiro contato com a cultura Chan, no museu que reúne uma coleção artística maravilhosa, apertada no espaço disponível e com uma iluminação que ninguém merece. Bateu uma chuva forte na saída, demos um tempo na lojinha do museu. Senti que algo me tocava. Era a mãozinha suave de uma das magérrimas vietnamitas que trabalham ali, curiosa pelo cacheado dos meus cabelos.

My Son, próximo à cidade, é o maior centro de visitação da cultura Chan, duramente bombardeado durante a guerra contra os Estados Unidos.

É, ou poderia ser, no Vietnã, algo como Angkor é para a cultura Khmer, no Camboja, ainda que em menor escala e quase que completamente destruído. Numa pequena exibição local, mísseis recuperados dos bombardeios entre belos exemplares de sua arte. O museu em Danang trata de proteger da melhor maneira possível o que pôde ser resgatado dessa cultura, mas nada se iguala a vê-la em seu sítio original, ou pelo menos num deles. O clima era diferente do norte do país em todos os sentidos. O termo "faixa desmilitarizada", utilizado durante a guerra, me pareceu a mais hipócrita das denominações, com a conotação real de "vale tudo". Numa agencia de turismo em Danang, a bela jovem a quem perguntei sobre My Lai disse nunca ter ouvido falar do lugar.

Nosso transporte terrestre teve que virar anfíbio para que pudéssemos chegar a Hoi An, que continuava praticamente sob as águas. Não na rua mais elevada e movimentada da cidade monumento, onde quase todas as casas estão hoje transformadas em lojas e restaurantes, num processo bastante nosso conhecido. Mas em outras partes da cidade, os moradores ainda enfrentavam a inundação de ruas e casas.

Casas lindas, arquitetura tradicional local, a maioria em madeira, telhados verdes que o tempo transformou em ecologicamente corretos. Nas maiores, como a que visitamos, hoje museu sobre um antigo modo de viver, uma sucessão de salas e pátios internos com cômodos laterais e superiores. Há uma belíssima feira ao ar livre com produtos artesanais de alta qualidade, em especial tecidos e artefatos de bambu.

Saigon, nosso próximo destino, nos pareceu a cidade mais ocidentalizada do Vietnã, o que não é de estranhar. A capital que deixou de ser. Os contrates são grandes.

No bairro francês, onde se localizam hotéis renomados, lojas de grife, os mais caros bares e restaurantes, e seus arredores, circulam mendigos e mutilados de guerra. Num edifício residencial "de época", seis andares como manda a tradição, a cobertura é ocupada por construções informais, digamos, explicitando dois períodos muito distintos da história tanto da cidade como do país. As motos não têm uma predominância tão absoluta no trânsito. Misturam-se a muitos carros e ônibus. O caos é o mesmo.

Em algum momento, já não lembro se em Saigon ou em Danang, vimos um carrão com os protetores de vidros contra o sol estampados com a bandeira norte-americana.

O bairro chinês tem desde lugares sórdidos a um super shopping center que se destaca como um alienígena naquele meio, lugar de negócios, carros incríveis estacionados, mercadorias de todo tipo à venda, entre elas formações nunca vistas (por mim) de pedras brasileiras, um restaurante que salva a vida de qualquer pessoa que quer comer alguma coisa de um repertório mais conhecido.

O bairro onde nos hospedamos era o contrário de tudo isso. Ou o complemento. Uma muvuca onde rolava tudo. Na esquina oposta ao hotel, um bar que se tornou nosso "escritório". Comíamos e bebíamos no térreo (não necessariamente nessa ordem), dançávamos no segundo andar e, saberão os deuses por que dificuldade, não chegamos ao terceiro, destinado a  finalizações. Nessa maluquice, conhecemos pessoas (europeus) que viajavam há meses ou anos pelo Sudeste Asiático, ilhas do Pacífico, etc.

Confesso que fiquei impressionada com a disponibilidade dessas pessoas para a viagem sem data definida de retorno. E com uma invejinha básica também, que espero resolver. Prostituição masculina na encruzilhada. Enormes negros africanos que usavam o mote da sinuca para a sedução. As mulheres nórdicas, louras e ousadas se davam bem no jogo.

Freqüentamos também um bar cujo nome não lembro, mas que apelidamos de "bar do bambu", já que tudo era feito de bambu, internamente. O beco atrás do hotel reunia dezenas de bares e as criaturas mais díspares. Gente que foi de Woodstock para lá a nado, toda uma galera especial. Tenho certeza que vi, na mesa ao lado, o hippie mais antigo do planeta, um desenho vivo de Richard Crumb.

Hanoi e Saigon – Ho Chi Min Citry, sorry – são cidades opostas.

Visitamos o museu da guerra. Como sempre, muito acervo e pouco espaço. O armamento se amontoa na parte externa. Dentro, fotos as mais impressionantes, fartamente divulgadas ou não. A dor de todas as atrocidades exposta sem censura.

Delta do Mekong. Pegamos um pacote interessante pelo lugar, mas esquisito, ao mesmo tempo. Inusitado conhecer centros de produção artesanal de noodles e de doces regionais; muito bacana observar a vegetação e o modo de vida e habitação entre barcos e palafitas. Os caras são bons na programação para turistas, mas tudo é muito voltado para os europeus. Andar pelo mato para chegar a uma ponte de pedestres que só leva à outra margem de um rio para depois voltar à mesma margem anterior por outro caminho, me pareceu ridículo. Enfim...

Na véspera de deixarmos Saigon pela última vez (nessa viagem), fomos a um bar insólito, pelo tema e pelo descompasso com nossos interesses. Uma reunião de fãs de times de futebol americano, acho. A cerveja era muito boa, e acabamos torcendo junto com a galera por um time que até hoje não sei qual era. O vôo de volta, nos proporcionou a imagem da cordilheira do Himalaia inteira e bela, lá longe. Talvez uma próxima viagem.

Lucia Maria Borges de Oliveira


sobre o autor

Lucia Maria Borges de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro em 1951. Tem residência fixa em Brasília desde os anos 60. Arquiteta pela UnB, atua na Secretaria de Engenharia do Senado Federal. Morou temporariamente a trabalho e/ou estudo em João Pessoa, Belo Horizonte, Cidade do México, Manágua e Barcelona.

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