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architectourism ISSN 1982-9930

Engenho do Rosário, Itu. Foto Victor Hugo Mori

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O artigo sobre Montevidéu, que segundo os autores é uma cidade que está se reencontrando e se reinserindo lentamente no mapa de destinos sulamericanos, mostra como recomendá-la como destino turístico pode ser uma tarefa polêmica e arriscada


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GORSKI, Michel; ZWETSCH, Valdir . Divagar devagar em Montevidéu. Arquiteturismo, São Paulo, ano 04, n. 039.03, Vitruvius, maio 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/04.039/3466>.


Todo mundo certamente já ouviu dizer que “Montevidéu é uma cidade parada no Tempo”. É o que diz a maioria dos brasileiros. Inclusive os agentes de viagens: “Montevidéu, tem certeza?”

Talvez esta capital, com cerca um milhão e meio de habitantes, não esteja parada no tempo, mas saiba fazer e viver seu tempo. Sem pressa, sem atropelo, sem stress.

A cidade fortificada de San Felipe de Montevidéu, fundada pelos espanhóis em 1726, sugere uma espécie de falsa placidez do tempo, como a falsa serenidade das águas do Prata – que despejam no oceano os segredos e mistérios de quase um continente.

Ancorada perto da foz do rio da Prata, Montevidéu é o desaguadouro das contradições que descem do Peru, da Bolívia, do Paraguai, do Brasil, da Argentina... E isso é uma tremenda responsabilidade: as águas platinas se misturam ao Atlântico e vão dar na Europa, na África, no Oriente... Montevidéu é o filtro final, o vertedouro do Cone Sul. Dali pra frente é o mar, a globalização, os mercados.

Na orla do rio/mar a cidade nos oferece os 22 Km de “Ramblas”, uma sequência de avenidas/parques, muito bem desenhadas, arborizadas e organizadas, onde as pessoas e os automóveis circulam, às vezes tão isolados uns dos outros, numa horizontalidade que sugere imagens do pintor norte-americano Edward Hopper (1882 - 1967).

Há regiões da cidade em que a arquitetura predominante forma conjuntos representativos de épocas do começo do século XX. Talvez as mais eloquentes, para um olhar arquitetônico, sejam as edificações em estilo art-decô e outras que remetem ao expressionismo holandês ou alemão. Mas também chamam a atenção grandes conjuntos habitacionais, das décadas de 1950 e 60, que lembram as edificações da Europa Oriental, do período da “cortina de ferro”.

Querendo ou não acabamos nos deparando com dois significativos portais, remanescentes da história da cidade, um na Praça Independência e outro na entrada do principal Shopping Center da cidade. O da praça é a Puerta de La Ciudadela, montado com restos das pedras da fortificação que deu início à cidade. O outro é o que sobrou do Presídio de Punta Carretas, transformado em entrada do centro de consumo do mesmo nome. Até que a adaptação do portão de entrada da cadeia para o Shopping Center tem lógica: esses locais são novas prisões albergue, em que o cativo pode dormir em casa, mas lá deverá apresentar-se regularmente.

A área central é bem tranqüila, mesmo em dias de semana – nem parece uma capital de país. Ao caminharmos na manhã de uma Sexta Feira Santa, pelo centro de Montevidéu, tínhamos uma sensação de estar na Cinecittà, uma cidade cenográfica. Não deu outra: virando a esquina, demos de frente com um agitado set de filmagem, onde gravavam um comercial para veicular na televisão brasileira.

Ao chegarmos na Praça Independência nos deparamos com o imponente Palácio Salvo, construção de 1928, que dizem ter sido, na época, o mais alto da América Latina. No centro da praça se encontra, o monumento do herói nacional, General Artigas, libertador do Uruguai, e é dali também que avistamos, entre outras edificações de vários períodos o Teatro Solis. Construído em 1857, o teatro foi recentemente renovado através de uma feliz intervenção arquitetônica, após um incêndio que destruiu parte da edificação.

Montevidéu às vezes nos lembra Buenos Aires, em escala menor, onde é possível caminhar pelo centro antigo ou pelos bairros mais centrais. Anda-se sem pressa por muitos quarteirões e chega-se a um destino obrigatório, o Mercado do Porto, já com o apetite bem aberto. O antigo Mercado pode ser visto, e também sentido, de longe, pois pairam no ar a fumaça e o cheiro de “parrilla” - muito boa por sinal.

Torres-Garciísmo

No centro da cidade, na Rua Sarandi, principal artéria pedestrianizada de Montevidéu, está o museu dedicado a Joaquín Torres García (1874 – 1949), o principal artista plástico uruguaio. A visita emociona. A Fundação que mantém o museu desenvolve atividades pedagógicas, culturais, exposições e ateliês, mas o acervo é bem restrito. Em boa parte por nossa culpa: em 1979, quando um incêndio quase destruiu o MAM Rio, foi a retrospectiva de Torres García que ardeu em chamas.

Chama à atenção a mania de aplicar o excepcional trabalho de Torres García em lembrancinhas de todas as espécies, encontradas em qualquer barraquinha de artesanato, em empenas de edifícios e até em bancas de revistas. Kitsch? Talvez... mas é quase irresistível gastar alguns pesos e trazer algumas delas... Na dúvida, prefira a lojinha do museu e escolha alguma aplicação com a imagem da América do Sul (a nossa!) invertida, voltada para cima, numa magnífica e profética criação do artista de 1943.

Nesta cidade, que está se reencontrando e se reinserindo lentamente no mapa de destinos sulamericanos - seja em pé ou de cabeça pra baixo - há uma moçada bonita e gentil atendendo nos hotéis, bares e restaurantes. Para nós – contaminados pela versão de que Montevidéu seria uma cidade “de velhos”, paraíso de aposentados, espécie de Copacabana à margem do Prata – o encontro desses jovens nos fez imaginar que haja um esforço novo e nacional em oferecer oportunidades para segurá-los por aqui. A velha cidade parada no tempo, mirando o futuro.

Outro aspecto interessante é que, como no Rio Grande do Sul, os habitantes de Montevidéu, de qualquer idade, adoram caminhar carregando uma cuia e uma garrafa térmica embaixo do braço. Essa engenharia interessante exige deles uma boa dose de malabarismo, para concentrar no braço que sobrou todas as atividades que não sejam o exercício do prazer do chimarrão. Os suportes de térmicas estão ficando fashion e são usados por homens e mulheres. Nas ruas de pedestres e nas praças sempre se encontra uma banca especializada em cuias e acessórios para a melhor degustação do mate.

Destino: incerto

Não é fácil recomendar Montevidéu como destino turístico – há risco de perder amigos, ou de acelerar desenlaces de casais em crise. Tem os que adoram, tem os que odeiam (como Brasília, aliás).

Cidade de ruas e avenidas largas, generosas, ladeadas por edifícios soberbos... De carne boa e bom vinho tannat... De noites misteriosas e tango autêntico – pra quem não sabe, os uruguaios garantem que Carlos Gardel, o eterno Rei do Tango, é natural das terras orientais, e exibem a certidão de nascimento do distrito de Tacuarembó...

Essa cidade, guardiã das águas, proclama uma sabedoria diferente, de calma e de serenidade. Por isso Montevidéu exige – e nos oferece – uma abundância de tempo. Tem os pés no passado e a espinha ereta. E espreita o futuro sem pressa – pois ele, de um jeito ou de outro, vem.

P.S.: Se o candidato à viagem cisplatina ainda não leu algum livro do escritor uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), terá uma ótima companhia na viagem. O romance a “A Trégua”, de 1960, é um ótimo começo.

sobre os autores

Michel Gorski é arquiteto e co-editor de Arquiteturismo.

Valdir Zwetsch é jornalista.

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