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arquiteturismo ISSN 1982-9930

Interior do Chile. Foto Michel Gorski

sinopses

português
Rodrigo F. Michelin conta sua experiência em Londres, em um passeio cujo objetivo final, alcançado, era chegar visitar o edifício 30 St Mary Axe, o "Gherkin", do arquiteto Norman Foster, segundo o autor, obra marcante do século XXI


como citar

MICHELIN, Rodrigo Fernandes. Lloyd’s e Gherkin: entre os séculos 20 e 21. Viagem a Londres maio 2010. Arquiteturismo, São Paulo, ano 04, n. 041.03, Vitruvius, jul. 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/04.041/3516>.


Era quinta feira e a garoa caia fina sobre Londres. Ao sair da estação do metrô em SouthBank não poderia imaginar a grata surpresa que aquela manhã me reservara. Meu objetivo era o edifício 30 St Mary Axe popularmente conhecido como “Gherkin”. Diferente de todo turista que elege uma atração e vai direto a ela resolvi elaborar um pensamento inverso. Descer em SouthBank, andar até a Millenium Bridge, de lá chegar ao Tate Modern, dar uma olhada em algumas obras de arte e aí sim chegar ao objetivo, o “Gherkin”.

Iniciando minha caminhada pude focar um olhar distante da City e reparar que não existe uma obra que se destaque pela escala: todos os novos prédios tem uma escala similar. A imagem era o tradicional horizonte londrino, cinza e marcante; naquela manhã o skyline tinha dois pontos que me chamavam a atenção: a cúpula da Sant Paul, marcante pela sua forma e tamanho, e – como não poderia deixar de ser – o edifício de minha pesquisa, que se destacava pela forma cilíndrica naquele cenário retilíneo.(foto 1)

Após 30 minutos de caminhada cheguei na Millenium Bridge, projetada por Foster. Era um aperitivo para o que estava por vir. Minha intenção naquela caminhada (e na “enrolação” para chegar ao edifício) era a de preparar meu olhar e atenção para poder captar o máximo de detalhes a respeito da obra de Foster. Chegar ao Tate e olhar obras de Picasso, Miró e Warrol foi uma incrível e eficiente maneira de abrir a percepção, de estar não só com o olhar crítico do arquiteto mas também com uma visão diferente, artística e sensível aos detalhes. (foto 02)

Projetado por Lord Norman Foster, com participação de grandes escritórios como Arup e Hilson Moran, o Gherkin tem todos os adjetivos de uma obra marcante do século XXI. Ambientalmente correto, este edifício prima pelo perfeito entendimento dos conceitos de sustentabilidade, utilizando a tecnologia de ponta para obter o menor impacto possível sobre a cidade. (foto 03)

Ao sair do Tate e tomar direção à City pude sentir a força da arquitetura de Foster. Como um tapete, a Millenium Bridge é bela e emoldura a grande cúpula da catedral. Em sua solução estrutural, os cabos não cortam a visão do pedestre; ali já entendi o primeiro conceito sobre sua obra: a leveza. (fotos 04 e 05)

A cada passo em direção ao “Gherkin”, a percepção se altera. Incrustado na City, divide o campo de visão com outros edifícios e por vezes some da visão do pedestre, porém sempre que avistado é de fácil leitura. Com forma icônica, é facilmente emoldurado na paisagem londrina. (foto 06)

Determinado a buscar um olhar crítico sobre a obra de Foster, fui me aproximando e, nesta aproximação, notei que quanto mais próximo ao edifício menos evidente fica sua forma, e ao chegar à base não temos mais a leitura icônica da forma, de perto o que chama a atenção é sua relação com o lote e a cidade. (foto 07)

Limpo e objetivo, o Gherkin chega leve ao solo. Diferente dos demais edifícios da City, ele se encontra recuado do alinhamento do lote, criando assim uma pequena praça que ambienta o prédio. A brincadeira de cheio e vazio resultante do jogo da pele de vidro com a estrutura formam uma linguagem diferente e delimitam as entradas ao edifício. (foto 08)

Já era início de tarde e decidi fazer um almoço londrino bem em frente da obra. Sanduba natural e suco de laranja, afinal com a barriga vazia minha visita poderia ficar comprometida. Sentado ali, minha visão me traía com a constante idéia de que o prédio estava flutuando, depois de alguns minutos pude reparar que se considerarmos somente a leitura cheia do revestimento de vidro, o Gherkin flutua realmente, pois ele caprichosamente não toca o solo! Mal pude conter minha euforia quando reparei que de tão leve sua forma, o edifício não toca o solo! (fotos 09 e 10)

Pronto! Fora a forma diferenciada, tinha por fim descoberto a leveza no projeto de Foster. Ali fiquei, olhando por mais algum tempo. Ainda entusiasmado pela minha descoberta e com a certeza de que aquele detalhe era representativo – como se o conceito de sustentabilidade ali encontrasse seu ponto máximo, uma metáfora de como um edifício não agride a cidade com sua estrutura –, não senti a garoa que começava a apertar.

Já razoavelmente molhado, levantei-me e arrumei a mochila para voltar ao Tamisa. Ao levantar a cabeça e iniciar minha caminhada de volta, veio o choque! De tão vidrado no edifício de Foster estava perdendo uma outra grande referência, o edifício Lloyd’s! Ali, a apenas 50 metros de distância do Gherkin. (foto 11)

Por fim, meus preparativos para caminhadas e quadros começavam a surtir efeito. Como uma bomba de efeito moral, a visão da obra de Rogers fez um filme de imagens passar à minha cabeça! Ícone da arquitetura moderna high teck, este edifício projetado por Richard Rogers é a perfeita representação da sociedade londrina do século XX. Seu conceito é a exposição de toda a infraestrutura do edifício à cidade, liberando seu interior destas interferências. Assim, todas as tubulações, escadas, elevadores, geradores e elementos necessários para o funcionamento do edifício ficam marcados na fachada. Uma linguagem agressiva. É a afirmação da revolução industrial, da máquina. Esta mesma linguagem já havia sido utilizada por ele no Centre Pompidou, com a parceria de Renzo Piano.

Ainda atordoado por aquela visão, senti que necessitava de algo mais. Corri ao primeiro pub e rapidamente mandei ver um pint, desta vez de London Pride para combinar com a grande carga de informação inglesa que meu cérebro tentava processar naquele momento. Larguei a mochila comprei uma capa de chuva e voltei a sentar ali, agora com minha atenção voltada aos dois edifícios, no centro financeiro da Europa. Ambos localizados na City, ambos projetados por grandes arquitetos ingleses, um ícone do século 20 e outro do século 21. De cara percebi que realmente a obra jamais pode se destacar do cenário. Olhar a obra de Foster e não ver a de Rogers é perder o melhor de seu intento, é negligenciar o seu motivo. A City me falava das mudanças de nossa sociedade por meio destes dois ícones londrinos. Tão perto no espaço e tão longe no tempo! (foto 12)

Ao olhar o edifício de Rogers, o Lloyd’s, entendi nitidamente o pensamento do século 20. Ele representa a força industrial, a celebração da máquina. Via claramente em seus tubos e dutos a sociedade da comida enlatada, da televisão, da massificação, a produção em série, do petróleo, do sexo em preservativo, do látex, da corrida espacial, da corrida armamentista, e, por fim – como bem colocado por meu grande amigo Ricardo Raele –, “a sociedade da régua. De cálculo”.

Incrível! A força da arquitetura na cidade e na sociedade.

Ao voltar minha atenção ao edifício de Foster, a leveza já não mais era tão essencial, ela só sublinhava o que meus pensamentos ilustravam. Nascido no século 21, o Gherkin estava ali a representar uma nova sociedade, um novo pensamento. O séc 21 inicia-se como a evolução do pensamento mecânico industrial, ele é o século do entendimento que não podemos por fim dominar a natureza mas sim moldar-nos a ela. O Gherkin ilustra uma sociedade mais atenta, mais humana, mais natural. É a sociedade da biologia! Isso. A grande mudança é a saída de uma sociedade da veneração à máquina para uma sociedade biológica. A busca pelo Genoma, as soluções quase alquimistas dos problemas humanos estava ali refletida naquele prédio icônico, cilíndrico. Sua pele de vidro subitamente me pareceu uma folhagem natural que cobria o ambiente humano, sua forma suaviza o olhar e cria menor resistência aos ventos, o desenho da estrutura é uma releitura dos padrões encontrados na natureza. (foto 13)

Incrível! O titulo de Lord me pareceu pouco para este arquiteto capaz de captar a essência destas mudanças e colocá-las de maneira tão forte, leve e sutil no horizonte londrino.

Ufa!! Agora sim! Entendi o Gherkin. Ele é a celebração da vida, representa a era da biologia, é realmente um ícone do século 21. Ainda atordoado com a avalanche de pensamentos, tomei a Picadilly Line e não tardou para escutar aquela suave voz feminina: “This is Convent Garden a Picadilly line service to Heathrow terminals... please Mind the Gap between the sig. XX and XXI”. (foto 14)

nota

Todas as fotos foram tiradas por Rodrigo F. Michelin com camera digital Nikon d3000.

sobre o autor

Rodrigo F. Michelin, arquiteto formado pela FAU Mackenzie em 1999 e cursando mestrado na mesma Faculdade. Tem escritório próprio desde 2001.

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