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architectourism ISSN 1982-9930

Engenho Beija-flor na Serra do Itapeti. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Şeyda Sever é uma jornalista turca que dedica grande parte de suas viagens à fotografia em P&B e neste ensaio nos ajuda a conhecer recantos secretos do Marrocos e Índia

english
Şeyda Sever is a Turkish journalist who dedicates part of her trips around the world to black & white photography, and in this essay unveils secrets from Morocco and India

español
Şeyda Sever es una periodista turca que dedica parte de su tiempo en sus viajes por el mundo a la fotografía en blanco y negro, y en este ensayo os muestra algunos secretos de Marruecos y de la India


how to quote

CODDOU, Flávio. O olhar tangente. A fotografia de Şeyda Sever. Arquiteturismo, São Paulo, ano 04, n. 044.01, Vitruvius, out. 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/04.044/3590>.


A fotografia de Şeyda Sever é indissociável de seu percurso e suas convicções políticas.

Imbuída em um corpo miúdo, repleto de generosidade, marcada por uma perseverança e auto-confiança e uma uma mente lúcida e reivindicativa, Şeyda Sever se formou como jornalista em 1991, mas nunca exerceu a profissão. Trabalha em uma ONG suíça de prevenção e conscientização cívica sobre desastres naturais (que no seu caso, no Oriente Médio, sua ONG está focada sobre os terremotos).

É difícil considerá-la como feminista, mas suas convicções quase sempre tendem a aproximar-se de uma visão menos sexista do mundo. Seu discurso funda-se claramente a favor da tolerância entre as religiões, sexos e nações, porém mais especificamente reafirma em suas entrelinhas o rechaço às injustiças de gênero, e propõe uma releitura, sempre a menos óbvia, sobre o seu país, a Turquia. A célebre essência da Turquia como ponte entre vários mundos extrapola o horizonte geo-político e invade a sua produção fotográfica, reafirma o reconhecimento de individualidades e as relações pessoais estabelecidas em seu caminho e viagens a outros países.

Ela não se considera fotógrafa, e, apesar de sua excessiva modéstia, é capaz de transmitir o seu embate pessoal e os desafios da dicotomia entre individualidade e coletividade. O seu mundo pode ser considerado como um laboratório de tolerância religiosa, política, nacionalismo inclusivo, e inquietude em relação às desigualdades.

Şeyda nasceu no seio de uma família de Rize, no nordeste da Turquia, às margens do Mar Negro. Pertence à minoria Laz, cuja língua, que possui pouco mais de 100 mil falantes, é, segundo a Unesco, uma das línguas em risco de extinção. O fato se agrava por não possuir escrita, é exclusivamente oral. A pertinência a essa minoria étnica e  lingüística confiou a Şeyda a bagagem de curiosidade, estímulo e identidade que tange o seu olhar.

A espontaneidade de seu ato de fotografar converte a sua câmera em testemunha de momentos cuja essência vão além da "representação" de um instante. O clique de sua fotografia não é o instante “profissional” do fotojornalista. Se muitas das características técnicas e pictóricas coincidem com as dos grandes mestres por conta das mesmas câmeras usadas (uma Leica M6 e uma Contax G2), a fotografia de Şeyda é inspiradora porque contém um grau de clichês de turismo e drama social presentes no fotojornalismo, porém com deslizes de imperfeição e uma surpreendente domesticidade.

As fotos são envolventes, a fotógrafa parece ser capaz de camuflar-se e tornar-se invisível atrás de sua câmera. A tríade objeto, meio e sujeito acaba tendo pesos, se não iguais, pouco usuais. Porque no caso de Şeyda, a supremacia que a fotografia historicamente legou ao objeto, se funde com a bagagem do olhar tangencial do sujeito (sem a inocência do amateur, tampouco a perversidade do profissional), e o interesse pelas vicissitudes do meio.

Essas características a transformam em uma retratista ímpar. Me refiro àquela senhora de cócoras no Marrocos, num registro tão dramático como poético. E também àqueles jovens reunidos em uma roda de música na Índia, em que é difícil ignorar o fato de ter sido uma mulher a fotõgrafa capaz de retratar tal momento de distensão numa sociedade machista e patriarcal. A pose, ou seja, a preparação do retratado, alguns instantes prévios ao clique, é muito efêmera, e somente possível por conta da cumplicidade instantânea entre sujeito e objeto. As fotografias de Seyda Sever cruzam diversas vezes a fronteira entre reportagem fotográfica e casualidade. Seu olhar é capaz de identificar momentos precisos, e a aparente despreocupação com a “composição” é desconcertante.

Vejamos o caso da fotografia do gato no Marrocos, em que as diagonais estabelecem uma dinâmica entre a figura do gato e os meios-corpos ao fundo. Somos quase incapazes de imaginar o instante posterior àquele clique, o “nosso” gato é esse, naquele exato ponto do campo do obturador. É essa a ficção da fotografia que Seyda conhece tão bem e que é capaz de captar com a sua aparente despreocupação com a composição clássica e axial.

Há ainda uma última observação, acerca do suporte físico. Na série do Marrocos (assim como na série sobre a África, que será publicada posteriormente em Arquiteturismo), percebemos uma escolha deliberada em manter a irregularidade da borda do marco do ampliador até o limite do negativo. Esse modo de apresentar a fotografia é tem um duplo sentido: por um lado, é declaradamente uma apologia à imperfeição, e por outro, reafirma a verdade, a essência íntegra do negativo, em que a “totalidade” da fotografia está presente e patente, sem recortes –nesse caso reafirma a ausência de qualquer intervenção posterior ou afinação da composição, seja durante a revelação quanto na edição digital usando o computador. Os limites irregulares reivindicam a condição da fotografia como ficção, reforçam a ideia de que o instante do clique é imposto, intencional, autoral, e portanto, uma representação dessa impostura. Essa borda irregular, que rechaça a clareza do recorte ortogonal, é uma imperfeição que nos força a expandir mentalmente a fotografia, ir além da imposição do autor dentro das coordenadas no espaço e tempo, desdobrando uma ficção pessoal e duradoura sobre aqueles milímetros suplementares do instante fotografado.

sobre o autor

Flavio Coddou é arquiteto (1998) e um dos editores responsáveis pelo Vitruvius Espanha.

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