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architectourism ISSN 1982-9930

Nazareth, vales de Jezreel e Armageddon. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Uma participação acadêmica em evento científico pode propiciar um passeio formidável, com o aprendizado direto na experiência de percorrer os espaços sofisticados de Newcastle, Austrália


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CELANI, Gabriela. Caadria 2011. Conhecendo a Austrália participando de um congresso científico. Arquiteturismo, São Paulo, ano 05, n. 051.03, Vitruvius, maio 2011 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/05.051/3893>.


A décima sexta conferência CAADRIA foi realizada do dia 27 ao 29 de abril em Newcastle, na Austrália. O evento faz parte do circuito internacional de congressos sobre informática aplicada à arquitetura, que inclui o SIGRADI (América Latina), a ACADIA (América do Norte), o ECAADE (Europa), o CAAD Futures (sem continente definido) e, mais recentemente, o ASCAAD (Norte da África e Oriente Médio). O CAADRIA recebeu mais de 80 participantes de 19 países, sendo aproximadamente um terço deles originários da Austrália e os demais em sua maioria de países asiáticos, mas com participação também de europeus, canadenses, e até mesmo um representante do mundo árabe e uma da América Latina.

Gabriela Celani na Ópera de Sydney, projeto do arquiteto Jörn Utzon
Foto divulgação

Na palestra de abertura do congresso, Rivka Oxman, da Technion, Israel, falou sobre o “Novo Estruturalismo” (New Structuralim), termo cunhado por ela em artigo publicado em 2010 na revista Design Studies. Segundo Oxman, a arquitetura estaria passando por um período de transformação, caracterizado pela inversão na ordem dos fatores que levam ao desenvolvimento de uma solução projetual. Tradicionalmente, os arquitetos partem da definição da forma, passando em seguida para e estudo da estrutura, e chegando ao material apenas no final do processo. Com a disponibilidade de ferramentas de análise em tempo real, da fabricação digital e do trabalho interdisciplinar, estaria surgindo uma tendência a se iniciar o processo de projeto pela definição do material. A etapa seguinte consistiria na definição da estrutura, e a forma seria decidida apenas na última etapa, como resultado das demais.

As origens do estruturalismo remontam à obra de arquitetos como Habracan, van Eyck, Hertzberger e Eisenman. Mais recentemente, Oxman identifica Ito e Balmon como representantes dessa corrente, exemplificada no projeto do Serpentine Pavillion, de 2002, resultante de um processo baseado em regras. Oxman apresentou também um breve histórico da tectônica, presente na arquitetura vernacular, em que a forma resulta diretamente do emprego correto dos materiais, sendo os exemplos mais significativos o iglu e as cabanas indígenas. No século XIX, as analogias biológicas de Gottfried Semper dariam início a uma nova maneira de relacionar forma e função. Essa relação, segundo Oxman, não estava presente nas primeiras obras da era digital, como por exemplo no Guggehhein de Gehry, em que as formas não apresentam qualquer integração com a estrutura e os materiais empregados. Gaudi, por outro lado, pode ser considerado um exemplo canônico do processo tectônico de definição da forma, com seu método baseado nas catenárias.

Oxman apresentou seis características típicas do Novo Estruturalismo, ilustrando cada uma deles com um exemplo de aplicação: a estação de funiculares em Innsbruck, de Zaha Hadid, o Voxel Extension Project, do escritório LAVA, o Nine Bridges Golf Resort, de Shigeru-Ban, o Textile module, de Yves Weinand, as paredes construídas pelo robô de Gramazio e Kohler, e a obra Carpal Skin & Beast, de Neri Oxman.

Logo após a palestra inicial, durante a primeira sessão de trabalhos, a apresentação de Russel Loveridge, da Swiss Federal Institute of Technology de Lausanne, ilustrou de modo ainda mais claro os princípios introduzidos por Oxman. Com um artigo intitulado “Parametric Materiality”. Loveridge descreveu dois projetos de pesquisa financiados por uma empresa de materiais de construção produzidos com alumínio. Segundo o pesquisador, a empresa pretendia agregar valor aos seus produtos, tendo em vista a proximidade da quebra de patente dos mesmos. Para isso, a universidade foi contratada para buscar novas possibilidades de aplicação dos produtos que pudessem dar origem a novas versões dos mesmos, e, conseqüentemente, a novas patentes. O primeiro projeto apresentado consistiu em desenvolver uma nova forma de uso para placas revestidas de alumínio. Usando técnicas de origami, os pesquisadores desenvolveram um método para criar estruturas rígidas usando apenas dobras na superfície das chapas, executadas por uma fresa de controle numérico.

O segundo projeto, ainda em desenvolvimento, parte de uma analogia entre o material a ser empregado – uma espuma rígida de alumínio – e os ossos das aves, que, para serem mais leves, apresentam densidade mais alta apenas onde a aplicação de esforços é maior. A espuma de alumínio é produzida por meio da injeção de alumínio fundido em um molde preenchido com pequenas esferas feitas de um material que é dissolvido posteriormente, deixando vazios no interior da peça. A partir de análises computacionais das forças operantes sobre um dado objeto, os pesquisadores pretendem produzir moldes com variações paramétricas na densidade e no diâmetros dessas esferas, em função da maior ou menor necessidade de resistência em cada região da peça. O objeto resultante será composto por um material de características adaptadas localmente às necessidades estruturais.

Imagem do trabalho “Parametric Materiality”, de Russel Loveridge: material adaptado localmente às necessidades estruturais.


Das quinze sessões de apresentação de trabalhos da conferência, quatro tiveram como tema os sistemas paramétricos de projeto (Generative and Parametric Design). Mas nem todos os participantes defenderam esse método: no artigo initulado “Gains, losses and limitations in designing parametrically”, Christiane Herr reconheceu as limitações do uso exclusivo da modelagem paramétrica durante o processo de projeto, em especial em sua fase inicial. Segundo Herr, o uso desses modelos permite a geração de uma grande variedade de soluções a partir de uma única tipologia definida inicialmente, mas não estimula a busca por soluções radicalmente diferentes. Em um workshop realizado com alunos chineses, Herr observou que os resultados apresentavam características esculturais, mas não demonstravam preocupação com qualidades espaciais do projeto. Mesmo assim, a autora aponta para um lado positivo do uso dos sistemas paramétricos, que consiste na necessidade de explicitar os conceitos de projeto por meio de diagramas, o que facilita o trabalho em equipe.

Exemplo de trabalho apresentado no congresso, que utiliza modelagem paramétrica e robótica.


Na palestra do segundo dia, “More with Less”, Chris Bosse, do escritório LAVA (Laboratory for Visionary Architecture) apresentou exemplos de aplicação prática dos conceitos discutidos no congresso. O arquiteto foi aluno de Frei Otto em Stuttgart, onde se formou em arquitetura no final dos anos 1990, e ao longo de sua carreira tem aplicado os ensinamentos de seu mestre. Ele contou que quando ainda era um estudante de arquitetura havia um movimento no sentido de retorno à natureza, negando a tecnologia. Nos dias de hoje ele vê um movimento contrário: tendo a natureza como inspiração e a tecnologia como ferramenta é possível criar estruturas que convivem melhor com o meio ambiente. Todos os projetos desenvolvidos pelo LAVA possuem essa preocupação. Recentemente o escritório venceu um concurso para desenvolver o centro de Masdar, em Abu Dabi, uma cidade nova projetada pelo escritório Foster and Partners, que deverá ser um exemplo internacional de sustentabilidade. A cidade será auto-suficiente em termos energéticos, eliminando a emissão de gases e os desperdícios.

Áreas de atuação do LAVA


Conceitos utilizados para o desenvolvimento do projeto da praça central de Masdar.


Volumetria da praça central de Masdar.


A obra mais conhecida de Bosse é provavelmente o Cubo d’Água, construído para abrigar as piscinas das olimpíadas de Beijing. Ele foi um dos criadores do projeto quando trabalhava no escritório PTW Architects, em Sydney, e descreveu-o como um processo de descoberta de formas a partir de fenômenos naturais, apresentando imagens desenvolvidas para o concurso que mostravam a atmosfera que se queria criar dentro do espaço. O projeto foi tão bem sucedido em criar esse ambiente que muitos nadadores afirmam sentir-se inspirados dentro do local.

Imagem conceitual do projeto para o cubo d’água mostrando a atmosfera que os arquitetos pretendiam criar dentro do espaço.


É bem verdade que nem todos os projetos do LAVA são construídos, mas segundo Bosse eles têm a sorte de poder conduzir cada novo projeto como uma nova investigação sobre temas contemporâneos. O LAVA não aceita a idéia de que um escritório de arquitetura é uma de máquina em que o dinheiro entra por um lado e os projetos simplesmente saem pelo outro (“money in, design out”). Cada projeto é desenvolvido como um projeto de pesquisa. Para que isso se realize, Bosse falou sobre a importância do contato com a universidade e contou sobre as participação dele e de seus sócios em escolas de arquitetura, onde oferecem workshops e entram em contato com novas tecnologias. Segundo ele, é impossível saber de tudo, mas é fundamental saber o que há de novo e quem pode ajudar. Os trabalhos do LAVA frequentemente usam tecnologias como CAD scripting, planificação automatizada de superfícies, prototipagem rápida, modelagem paramétrica e geração automática de alternativas (veja entrevista com Chris Bosse).

Exemplo de uso de script para gerar uma superfície em resposta à incidência solar


Uma atividade interessante que fez parte da programação do congresso foi o seminário intitulado “Design Research Supervision”, coordenada por John Gero, fundador e diretor, por 16 anos, do Key Center for Design Computing, da Universidade de Sydney. Durante essa reunião os diversos alunos de doutorado presentes tiveram a oportunidade de comentar sobre os diferentes estilos de orientação de seus tutores, métodos de pesquisa adotados e dificuldades encontradas na área. A Austrália possui uma tradição de pesquisa centrada na figura do diretor do laboratório, sob o qual há uma estrutura hierárquica de pesquisadores e alunos de doutorado. O modelo de educação superior australiano é parecido com o europeu, em que o aluno recebe o grau de arquiteto (Bachelor) em três anos, mas precisa cursar mais dois anos de mestrado para receber sua certificação profissional. Após essa formação de cinco anos o aluno pode seguir diretamente para o doutorado, que pode ser obtido em 3 ou 4 anos. O CAADRIA também organiza, em todas as suas conferências, uma sessão intitulada Post-graduate Consortium, na qual alunos de doutorado têm a oportunidade de apresentar suas pesquisas a uma banca que comenta seus trabalhos e oferece orientação para o prosseguimento da pesquisa.

A terceira e última palestra do congresso foi oferecida por Michael Ostwald, diretor do Center for Interdisciplinary Built Environment Research da Universidade de Newcastle e um dos anfitriões do evento. Ostwald descreveu a organização do centro de pesquisas que dirige, que conta com um orçamento de seis milhões de dólares australianos ao ano – proveniente de parceiros da indústria local, associações de classe e da própria universidade – e mais de setenta colaboradores, entre professores, consultores, pesquisadores e alunos de doutorado. Em seguida, o professor apresentou alguns dos projetos em desenvolvimento no centro, começando com o desenvolvimento de software, tanto com objetivos investigativos como de futuras implementações comerciais. O primeiro caso foi ilustrado com programas que realizam análise computacional de projetos existentes, e o segundo com um programa que permite simular o movimento de pedestres em espaços urbanos. Outra pesquisa desenvolvida pelo centro consistiu em analisar a maneira como a criatividade é avaliada nas escolas de arquitetura da Austrália e em outros países asiáticos. Os resultados desse trabalho foram publicados nos livros Understanding architectural education in Australásia e Creativity, design and education, e deram origem a uma série de workshops e discussões que muito provavelmente irão influenciar a maneira como se ensina projeto na Austrália.

Ostwald concluiu afirmando que um centro de pesquisas na área de projeto arquitetônico não pode estabelecer uma separação rígida entre ciências e humanidades; citando C.P. Snow, ele lembrou da importância de se ter sempre em mente as aplicações para a sociedade quando se desenvolve um projeto científico.

Olhando para o conjunto dos trabalhos apresentados é possível dizer que o tipo de pesquisa que se desenvolve na área de Computer-aided Architectural Design na Ásia é muito semelhante aos trabalhos que vêm sendo apresentados nos congressos ECAADE, na Europa. Há uma ênfase no desenvolvimento de sistemas construtivos auto-adaptáveis, que respondem ao meio ambiente. Esses sistemas resultam do uso de modelagem paramétrica e de protótipos produzidos com equipamentos de controle numérico e com a incorporação de sensores e de motores acionados automaticamente. Contudo, raramente são apresentados resultados comerciais ou em escala real, ou ainda aplicações em edifícios específicos. A modelagem paramétrica e os métodos abstratos de representação do projeto, visando à automação das atividades de projeto também são uma áreas bastante exploradas, que se sobrepõem aos estudos de cognição no processo de projeto.

É possível concluir que a pesquisa sobre CAAD e  design computing converge, em nível internacional, para uma abordagem de projeto bottom-up, em que o desenvolvimento de componentes e de sistemas precede o planejamento do edifício e a definição de sua forma final. As únicas conferências de CAAD que ainda não apresentam essa tendência parecem ser o SIGRADI (latino-americana) e o ASCAAD (do mundo árabe), onde a tradição do projeto top-down continua prevalecendo. Isso pode estar relacionado à tradição arquitetônica nessas regiões, ao menor nível de industrialização da construção civil, à existência de poucos centros de pesquisa focados no desenvolvimento de novos métodos de projeto, ou ainda à falta de integração entre esses centros de pesquisas e a indústria local.

Entrevista com Chris Bosse - Escritório do LAVA, Sydney

Chris Bosse tem apenas 39 anos, mas realizou projetos que são conhecidos por bilhões de pessoas. O mais famoso deles é sem dúvida o cubo d’água, mas o museu BMW tornou-se também muito popular, em especial entre os estudantes de arquitetura de todo o mundo, como um ícone do uso de conceitos matemáticos na arquitetura contemporânea. 

Mais recentemente o escritório te desenvolvido diversos projetos para Abu Dabi, muitos dos quais ainda não foram construídos em conseqüência da crise econômica pela qual o país está passando neste momento.

Escritório do LAVA em Sydney.


Protótipo exposto na bienal de Veneza, fabricado em acrílico cortado a laser.


Maquete e pôster do projeto Re-skining, na entrada do escritório.


-Quais os programas que vocês usam no escritório?
Para a modelagem, Maya, Rhino e Grasshopper.

-Que software vocês usam para desenvolver os documentos construtivos?
Desenvolvemos a etapa conceitual e o desenvolvimento e detalhamento são feitos por escritórios maiores de arquitetura, além de firmas de engenharia e cálculo estrutural.

-Como são feitas as maquetes?
Por corte a laser, CNC, e prototipagem rápida, em bureaus especializados ou na Sydney Technical University.

-Qual sua relação com a universidade?
Há mais de 3 anos comecei a dar alguns cursos, mas ultimamente tenho dado apenas “master classes”, pois dar aulas na universidade regularmente ocupa muito tempo.

-Quantas pessoas trabalham no escritório?
Em Sydney de 15 a 20 pessoas, dependendo de quantos alunos estão estagiando no momento. Em Stuttgart ficam meus sócios Tobias e Alexander, além de aproximadamente 15 arquitetos e estagiários.

-Como foi sua formação em arquitetura?
Comecei a estudar arquitetura aos 23 anos, após ter prestado serviços cívicos (uma alternativa ao serviço militar) e trabalhado na construção civil e em um escritório de arquitetura. Inicialmente estudei em Colônia, onde a formação era tradicional, com mais desenhos a mão livre, e depois fui para Stuttgart, onde fui aluno de Frei Otto e onde havia diversos cursos de mídia digital, inclusive duas caves, em que os alunos podiam realizar simulações computacionais.

-Como vocês contratam seus estagiários?
Escolhemos os estagiários mais pela pessoa em si, mas também por seu conhecimento. Uma coisa muito importante é saber se o candidato sabe fazer um corte de maneira correta – não simplesmente uma seção do modelo 3d, mas um corte que mostre o espaço e todos os elementos do projeto.

-O que está errado na formação dos arquitetos?
Eles têm cada vez menos conhecimento de fundamentos da arquitetura e de estrutura.

-Você sabe programar?
Aprendi Basic quando estava na escola, portanto entendo o funcionamento da programação e sei explicar a um programador o que quero que um script realize.

Chris Bosse no escritório do LAVA, em Sydney.


ficha tecnica

AgradecimentosA autora agradece à Fapesp pelo apoio financeiro para a participação no congresso CAADRIA.
Site LAVA 

Sobre a autoraGabriela Celani é professora Livre-docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp.

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