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architectourism ISSN 1982-9930

Porto de Santos. Foto Victor Hugo Mori

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português
Sob praticamente todos os edifícios importantes de Ouro Preto há alguma prótese geográfica como embasamento, que permite o ajuste entre a edificação arquitetônica e o solo inclinado. As perguntas são inevitáveis: quem as concebeu? Quem as construiu?


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GUERRA, Abilio. A Ouro Preto de engenheiros e escravos. Arrimos, taludes, pontes e muros. Arquiteturismo, São Paulo, ano 06, n. 066.02, Vitruvius, ago. 2012 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/06.066/4425>.


Originalmente Vila Rica, depois Ouro Preto, a cidade encravada nas encostas do Vale do Tripuí viveu altos e baixos ao longo da história. Fundada no final do século 17 por bandeirantes paulistas afortunados na busca de ouro, viveu sua primeira crise econômica nos primeiros três ou quatro anos do século 18, quando a fome provocou a diáspora de seus poucos habitantes para outras regiões de garimpo e de lavoura. Logo viveu os influxos de novo ciclo de riqueza e prosperidade e, em 1720, é elevada à condição de capital da nova Capitania das Minas do Ouro, forma do governo central português reconhecer a importância do território, estabelecendo modos mais rígidos de controle político e recolhimento de impostos.

A importância econômica da região se traduz no âmbito cultural em desenvolvimento das artes em geral, em especial as artes plásticas, com uma arquitetura qualificada abrigando um conjunto pictórico e escultórico expressivo; no âmbito político, no surgimento e consolidação de um caloroso ambiente de discussão, onde as contradições entre os interesses locais e da Coroa vão se afunilar em movimento de autonomia e o inevitável revide português.

À decadência da cultura do garimpo segue-se um longo período de ostracismo ao longo do século 19 imperial, quando o sul de Minas, com suas terras férteis, receberá o plantio de café e a cultura pecuária. A cidade de Ouro Preto será despertada deste sono secular meio por acaso:

“Serão os modernistas paulistas, que realizaram a Semana de Arte Moderna de 1922, liderados por Mario de Andrade, em conluio com os mineiros, que vão relançar Ouro Preto no cenário cultural brasileiro. Redescobrem que na velha Vila Rica encontravam-se as raízes de uma cultura original brasileira, um verdadeiro museu, um acervo precioso de obras de arte, com características e estéticas próprias, como também um conjunto urbano setecentista preservado, uma história povoada de heróis e mártires, poetas e literatos, altiva e libertária, participante e influente em todos os grandes episódios de construção da nacionalidade brasileira” (1)

Os protagonistas desta nova fase de Ouro Preto não são nem mineradores, nem políticos, nem artistas plásticos locais, mas os intelectuais de outras plagas. Da viagem modernista de 1924 constam os nomes de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Gofredo da Silva Teles, René Thioller e Olívia Guedes Penteado. Do rol de funcionários públicos abrigados pelo Iphan – fundado em 1937 como Sphan e que estabelecerá a estratégia de preservação da cidade – constam os nomes de Mário de Andrade (está nas duas listas!), Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Rodrigo Melo Franco de Andrade e Lúcio Costa.

A estratégia de promoção cultural de Ouro Preto – que resultará no título de Patrimônio Cultural da Humanidade outorgado pela Unesco (1980) – tem como subprodutos a valorização da arte e arquitetura do barroco e do rococó e a montagem de um discurso que as eleva a elementos fundamentais da identidade nacional. O reconhecimento histórico da sublevação pela autonomia com tinturas nacionalistas faz parte deste constructo, assim como o incentivo oficial ao turismo cultural como busca de uma nova vocação econômica para uma região estagnada.

O tombamento e preservação da arquitetura civil e religiosa de Ouro Preto estão diretamente associados à visitação, que hoje se encontra atrelada a uma vigorosa atividade econômica: o turismo nacional e internacional. Os diversos livros sobre a arte local são o registro culto que tem como simetria popular a fala decorada dos guias locais, repetidores compulsivos de informações de espectro amplo, que vai da banalidade superficial ao causo saboroso. Mas, afora prováveis textos que desconheço escritos por especialistas, pouco se fala da incrível aventura que salta aos olhos: o controle de um território avesso à ocupação humana – uma formação geográfica tumultuada, com movimentação intensa do perfil do terreno, constituído de pedras escarpadas e terra incrustrada, com inclinações sempre propícias aos deslizamentos.

A magnífica arquitetura de Ouro Preto só foi possível graças à lapidação prévia do território –feita à base de muros de arrimo, taludes, plataformas artificiais, pontes etc. – que permitiram a instalação de um arruamento que concilia curvas de nível e inclinações radicais, bem ao gosto da tradição urbanística portuguesa. Sobre esta estrutura urbana artificial serão posteriormente erigidos os elementos que se tornarão ícones turísticos deste estabelecimento humano: a arquitetura civil convertida hoje em espaços museológicos – a Casa da Câmara e Cadeia (atual Museu da Inconfidência), o Palácio dos Governadores (atual Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas da UFOP), a Casa dos Contos (hoje, também museu) etc. – e a arquitetura religiosa, parte dela mais cheia de turistas do que de crentes – as igrejas Nossa Senhora do Pilar (Matriz), Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora da Conceição, São Francisco de Assis, São Francisco de Paula, Nossa Senhora das Mercês e Perdões (Mercês de Baixo) e mais uma porção de Nossas Senhoras e demais Santos.

A construção do Grande Hotel em 1940, projeto realizado por Oscar Niemeyer sob as rédeas curtas controladas por Lúcio Costa, apresenta uma inovação significativa no lide com o terreno íngreme: o uso de pilotis. Contudo, até mesmo neste aspecto temos uma aliança entre o novo e o tradicional. Assim como a rigidez da construção em concreto armado é amolecida por varandas, telhado de água única e guarda-corpos munidos de cobogó, os estreitos e altos pilares que erguem no ar parte do edifício são compensados pela plataforma sustentada por poderosa parede de pedra aonde deita a outra parte do hotel. Fascinante!

Assim, sob praticamente todos os edifícios importantes de Ouro Preto há alguma prótese geográfica como embasamento, que permite o ajuste entre a edificação arquitetônica e o solo inclinado. São infinitas pedras de tamanhos diversos destramente ajustadas umas sobre as outras, conformando pontes, pátios, ruas, muros, adros. Sua ostensiva presença passa quase despercebida, graças ao onipresente (e merecido) discurso louvador da arquitetura, mas uma vez notada, não se consegue ver mais nada além destes empilhamentos geniais, que tornam todo o restante possível. As perguntas são inevitáveis: quem os concebeu? Quem os construiu?

A primeira ideia que me ocorreu foi a de que engenheiros portugueses, mestres de obra locais e escravos negros foram os responsáveis pelos estudos e construção das necessárias obras de engenharia anteriores à arquitetura (3). Contudo, a leitura da dissertação de mestrado Ouro Preto. A construção de uma cidade histórica, 1891-1933, de autoria de Caion Meneguello Natal (4) e fatos apresentados por diversos amigos me colocou diante de uma realidade surpreendente: a versão que conhecemos da cidade de Ouro Preto é, em grande medida, relativamente recente. Uma troca de correspondência entre arquitetos do Iphan me chegou às mãos e revelava aspectos que desconhecia:

“Maurão, graças a sua citação da Fortaleza da Barra que chegou no meu e-mail acabei clicando no tal Facebook e vendo o texto muito bacana do Abílio sobre os muros, arrimos e calçadas de Ouro Preto. A pergunta final do Abílio foi intrigante: quem será que construiu essas obras fantásticas? Em grande parte, Ouro Preto é uma reinvenção iphaniana e muito dessas obras fumo nói memo, os escravos patrimoniais, que construímos. Veja a foto que pirateei da tal internet. O piso de pedra, os arrimos, as muretas, etc., da igreja de São Francisco de Assis é tudo coisa nossa. Dr. Lúcio, Sylvio de Vasconcelos, Lacerda e tantos outros. Até o velho motorista que levava o Janjão para desenhar nos morros em torno da cidade e falou aquela famosa frase para ele: Daquele lado não vale a pena ir não, Dr. Janjão... Lá é tudo século XIX" (5).

Esta mensagem foi enviada por email para Mauro Bondi por Victor Hugo Mori, ambos arquitetos do Iphan-SP. A fotografia mencionada por Mori é de autoria de Marc Ferrez, que, na condição de fotógrafo da marinha imperial e membro da Comissão Geológica do Império, percorreu o país registrando suas riquezas naturais e culturais (6). A imagem da igreja de São Francisco de Assis sobre o chão batido de terra é uma ducha de água fria nas minhas primeiras impressões: a cidade previamente domesticada pela engenharia não passava de uma hipótese com pés de barro!

notas

NA/NE
Como autor deste artigo, e também editor do portal Vitruvius, fiz uma experiência inédita (ao menos para mim): disponibilizei uma versão preliminar do texto e o divulguei para meus amigos do Facebook. Foram muitas as opiniões e observações críticas, o que me permitiu algumas modificações e revisões, mas tentando não desvirtuar o argumento original que me motivou a escrevê-lo: a quantidade enorme de obras de contenção e correção da geografia tumultuada que abriga a cidade de Ouro Preto.

1
SANTOS, Angelo Oswaldo de Araújo. Uma cidade feita para o olhar. In LEMOS, Paulo (org.). Ouro Preto. 300 anos de imagens. Ouro Preto, LEGraphar, 2011, p. 36.

2
Silvana Rubino, professora do IFCH Unicamp, me alertou sobre a impropriedade desta afirmação: “Abílio, o texto é bonito. Só que eu não colocaria a estratégia de promoção que culminou na nominação como Patrimônio da humanidade assim numa frase só. O texto que tornou Ouro Preto monumento nacional em 1933 e colado nos tesouros barrocos e nos heróis inconfidentes. A nominação da Unesco não vale um minutinho para olhar a documentação no site”. Comentário público via Facebook, 11 jul. 2012.

3
Este parágrafo, que era o último da primeira versão do artigo, foi modificado nesta segunda versão. Sua redação original era a seguinte: “Eu imagino que engenheiros portugueses foram responsáveis pelos estudos das necessárias obras de engenharia anteriores à arquitetura, ao menos dos edifícios mais importantes (é de se supor que experientes mestres de obra locais os colocaram em prática). E, quase certamente, quem empilhou a maioria das pedras foram os escravos negros. Se foram eles de fato os responsáveis por estas obras magníficas, fica aqui meus entusiasmados parabéns. Mas, se foram outros os responsáveis, gostaria muito de saber. Então, quem souber, que me conte a história verdadeira”.

4
Além da já citada dissertação de Caion Meneguello Natal, que me foi indicada por Silvana Rubino, professora do IFCH-Unicamp, Deborah Padula Kishimoto, arquiteta formada na Escola da Cidade, me indicou um livro de grande interesse: SORGINE, Juliana. Salvemos Ouro Preto. A campanha em benefício de Ouro Preto, 1949-1950. Série Pesquisa e Documentação. Rio de Janeiro, Iphan/Copedoc, 2008.

5
MORI, Victor Hugo. Email para Mauro David Bondi e postado por este no Facebook, 12 jul. 2012 <www.facebook.com/photo.php?fbid=10150808441612609&set=p.10150808441612609&type=1&relevant_count=1>

6
Cf. ORLANDO, José Antônio. Relíquias de Marc Ferrez. blog Semióticas, 7 jun. 2012 <http://semioticas1.blogspot.com.br/2012/06/reliquias-de-marc-ferrez.html>.

sobre o autor

Abilio Guerra é arquiteto (PUC-Campinas), mestre e doutor em História (IFCH Unicamp) e professor da FAU Mackenzie. Com Silvana Romano, é editor da Romano Guerra Editora e do Portal Vitruvius.

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