Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architectourism ISSN 1982-9930

Valletta, Malta. Foto Silvana Romano Santos

abstracts

português
O antigo hospital Matarazzo abriga exposição de arte contemporânea com presença de destacados artistas brasileiros. As instalações preenchem praticamente todos os cômodos do complexo arquitetônico degradado.


how to quote

GUERRA, Abilio. Tempus edax rerum. A verdadeira exposição no Hospital Matarazzo. Arquiteturismo, São Paulo, ano 08, n. 091.01, Vitruvius, out. 2014 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/08.091/5304>.


Localizado na Alameda Rio Claro, Bela Vista, o Hospital e Maternidade Humberto I (Primo), originalmente Hospital Matarazzo, encontra-se fechado há mais de duas décadas. Tombado em 1986 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico – Condephaat, “foi construído pela Societá Italiana de Beneficenza in San Paolo, criada em 1878 com a finalidade de prestar assistência de saúde a imigrantes italianos, através de fundos arrecadados junto aos grupos empresariais bem sucedidos, de origem italiana, como os Crespi, Pignatari, Gamba, Falchi e, principalmente, os Matarazzo” (1).

Os diversos edifícios do conglomerado foram construídos ao longo das décadas, com características arquitetônicas ecléticas. Com o fechamento da instituição em 1993, foram aos poucos se degradando, com algumas dependências alcançando o estado de ruína. A vizinhança pôde acompanhar por detrás das grades a vegetação incrustando-se nas frestas e reentrâncias, a umidade embolorando suas paredes, chãos e tetos. Enquanto isso, a estátua do conde Francisco Matarazzo, sentado em uma poltrona com aspecto de trono, observou com ar severo tudo o que aconteceu nas redondezas nos últimos anos.

Depois de idas e vindas sobre o novo uso do conjunto – chegou-se a cogitar convertê-lo em dependências universitárias –, o novo proprietário, o empresário franco-americano Alexandre Allard, promete transformá-lo na “Cidade Matarazzo”, com shopping, centro cultural e hotel de luxo. Para marcar publicamente seu projeto, promoveu a exposição “Made by... Feito por brasileiros”, uma mostra coletiva com consagrados artistas brasileiros – Tunga, Cao Guimarães, Daniel Senise, Vik Muniz, Nuno Ramos, Iran do Espírito Santo, Laura Vinci, Beatriz Milhazes, Cristiano Mascaro etc. – e diversos estrangeiros convidados. Com uma Bienal de Artes voltada para coletivos e artistas ainda desconhecidos, a presença destes nomes midiáticos em uma exposição paralela não deixa de mandar uma mensagem.

Talvez seja despropositado ou mesmo petulante, mas o resultado geral não me agradou. A mostra peca pelo excesso, pela aglomeração, pela overdose. Na ânsia de preencher os vários salões, salas, saletas, quartos e outras dependências com obras diversas – muitas realizadas para o próprio lugar, o site specific – o curador francês Marc Pottier cria uma situação onde as obras são invasivas entre si, parecem buscar espaço para respirar e para se expandir. Não há espaço ou tempo para refletir, para meditar, pois tudo é sempre muito coalhado de informações, com sacadas e tiradas “inteligentes”, caso de diversas inscrições nas paredes. Algumas poucas obras parecem compreender melhor o que está em questão e talvez a mais espetacular nesse sentido seja a de Artur Lescher, que faz jorrar água em um dos edifícios de serviço abandonado, instalação densa que evoca a temporalidade irrecorrível presente na inesquecível obra de ampulheta gigante de Laura Vinci no Arte/cidade 3, no já distante ano de 1996, também dentro de uma ruína.

E no que me pareceu mais grave, as obras em geral perdem de lavada das dependências do próprio hospital. O processo de arruinamento confere ao conjunto um ar solene, com as marcas indeléveis do tempo percorrido. Os ruídos de nascimentos e mortes ocorridos ao longo das décadas ecoam silenciosos pelos corredores, as vidas desaparecidas de quem lá trabalhou por tanto tempo parecem espiar pelos vãos das portas e frestas das janelas. Os jogos de luz e sombra, as colorações de gama ampla, as texturas de paredes e tetos, os mobiliários quebrados ou mal conservados, as diversas estátuas de pessoas mortas da família ilustre, todas as superfícies com trincas e poeira encravada revelam a incontrolável passagem do tempo, a ausência das coisas que existiram e não existem mais. Diante de uma beleza tão radical (e cruel), as obras de arte são quase ofensivas, sacrílegas diante do ar solene conferido pela matéria em degradação. Entendi que a verdadeira exposição, que vale a pena ser vista, é justamente esta, a passagem do tempo que impregna a tectônica arruinada do velho hospital e maternidade.  As fotos aqui presentes, neste sentido, constituem minha exposição pessoal. Quem quiser ver a exposição de arte está convidado a conhecê-la!

notas

NA – Tempux edax rerum (“tempo devorador de todas as coisas”) é um verso de poema de Ovídio (Metamorfoses, XV, 234), que se transformou no renascimento em adágio recorrente em obras de arte da literatura, teatro e pintura.

1
Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de da Cultura, Bem Tombado: Hospital e Maternidade Humberto Primo <www.cultura.sp.gov.br/portal/site/SEC/menuitem.bb3205c597b9e36c3664eb10e2308ca0/?vgnextoid=91b6ffbae7ac1210VgnVCM1000002e03c80aRCRD&Id=ffe035d6c20bc010VgnVCM2000000301a8c0____>.

2
Cidade Matarazzo, Alameda Rio Claro 190, Bela Vista, São Paulo, de 9 set. a 12 de out. 2014, terça a domingo, das 10h às 17h.

sobre o autor

Abilio Guerra é arquiteto, professor da graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

comments

091.01 exposição
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

091

091.02 exposição

Muito além do Ibirapuera

Mônica Junqueira de Camargo

091.03 paisagem construída

De pedra em pedra

Ana Alaíde Amaral

newspaper


© 2000–2024 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided