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architectourism ISSN 1982-9930

Alhambra Generalife, Granada. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
O texto relata a viagem a San Francisco, mais especificamente para os bairros de Castro e Mission District, onde a questão do respeito às alteridades e da luta por direitos iguais expressa-se, inequivocamente, no meio urbano e em seus habitantes.

english
This paper is about a trip toSan Francisco, specifically to Castro and Mission Districts, where the issue of respect for otherness and the struggle for equal rights is expressed unequivocally in the urban environment and its inhabitants.

español
El texto relata el viaje a San Francisco, específicamente a los distritos de Castro y Mission, donde la cuestión del respeto de la alteridad y la lucha por la igualdad de derechos se expresa de manera inequívoca en el entorno urbano y sus habitantes.


how to quote

FONTAN KÖHLER, André; MAZIVIERO, Maria Carolina. San Francisco: alteridades e direitos. Arquiteturismo, São Paulo, ano 08, n. 092.02, Vitruvius, out. 2014 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/08.092/5401>.


Em abril de 2013, viajamos a San Francisco, na Califórnia, para participar da 43rd Annual Conference of the Urban Affairs Association. Tendo alguns dias livres, visitamos vários bairros de San Francisco e municípios vizinhos, mas nada nos chamou mais a atenção do que duas áreas particulares – Castro e Mission –, que são objeto do presente texto.

Nos anos 1970, o Castro foi progressivamente ocupado por indivíduos e firmas ligados ao Universo LGBT, devido à vacância de casas, gerada pela migração dos então residentes afluentes aos subúrbios, e à tendência desse grupo social aglutinar-se em áreas específicas de San Francisco, no período pós-Segunda Guerra Mundial. Seu principal logradouro, Castro Avenue, deixa claro que se trata de um território LGBT, mas não de um gueto – para quem sai da área central, chegar ao Castro é receber uma lufada de hospitalidade.

Houve três sensações dominantes quando visitamos a Castro Avenue e adjacências, e outra bem diferente, quando saímos dessa área. Primeiro, há a clara tentativa, por parte da prefeitura e organizações não governamentais, de “patrimonializar” o Castro, através de pequenos roteiros turísticos, memoriais a ícones do Universo LGBT norte-americano e criação de The LGBT History Museum. Ele funciona como centro patrimonial, centrado na trajetória do Universo LGBT de San Francisco (indivíduos, movimentos sociais, políticas públicas etc.) É como se o Castro fosse uma espécie de repositório da identidade e conquistas de um grupo social que, mesmo em San Francisco, ainda sofre corriqueiramente ataques homofóbicos.

Segundo, as fachadas e janelas das casas funcionam como vitrines para o ativismo político; a exigência de direitos iguais para todos e os direitos das minorias impõem-se, no conjunto de mensagens. Além das bandeiras do Movimento LGBT, veem-se cartazes, bonecos e pôsteres exibindo mensagens de cunho libertário e de reivindicação de direitos.

Terceiro, o comércio varejista é uma atração à parte. Como se trata de um bairro turístico e relativamente afluente, encontra-se o composto de sempre: floriculturas, cafeterias, bares e restaurantes, mercados sofisticados etc. Contudo, muitos negócios fazem referência ao Universo LGBT, através de placas e bandeiras do movimento; também não faltam sex shops e varejistas de roupas, com claras referências e produtos voltados a esse grupo social.

Contudo, ao sair da área turística, outro ponto fica claro: o quanto o Castro é parecido – em muitas ruas, praticamente igual – a outros bairros da cidade. Em cinco minutos de caminhada, a partir da Castro Avenue, chegamos a ruas tomadas por casas de arquitetura vernacular, com suas características bow windows, e comércio varejista ligado às necessidades cotidianas. Em uma ou outra casa, destaca-se um pequeno cartaz colado na janela, de suporte ao Universo LGBT. E só. No que tange o meio urbano, o bairro não reproduz a impressão deixada pela Castro Avenue e adjacências. E reforça nosso conceito de que, para além dos atavismos e hábitos culturais particulares, somos todos iguais – e merecemos ter o mesmo conjunto de direitos.

O Bairro de Mission District conta com a maior concentração de latino-americanos da cidade; isso transparece nos residentes, comércio local e na arte de rua, principalmente nos grafites. Alguns logradouros, principalmente vielas, transformaram-se em galerias a céu aberto, com murais que retratam desde a Primavera Árabe até os movimentos sociais contra a gentrificação do bairro, que caminha a passos largos. O interesse de visita é óbvio; somos brasileiros e latinos, e gostamos de arte e arquitetura.

No bairro, chamou-nos a atenção a existência de vários centros comunitários; aqui, sua função é marcadamente prover um espaço de lazer e reunião aos residentes locais. O comércio varejista é dominado por pequenos negócios, com uma pletora de restaurantes mexicanos – muito diferentes dos da rede Chipotle, comuns em San Francisco. Pequenas lojas vendem artigos com motivos latino-americanos; contudo, nada se encontra do Brasil, talvez porque nós mesmos, sem perceber, nos consideremos “à parte.”

O mais interessante da visita a Mission District são os painéis e murais, como já comentado. Alguns têm alto valor estético; praticamente todos buscam chamar a atenção para problemas econômicos e sociais, no distante Oriente Médio ou logo ali, a poucas quadras do local. Em comum, eles têm a utilização de uma estética do choque, a denúncia a mazelas e injustiças sociais e um caráter revolucionário, de transformação; não por acaso, é comum ver cartazes abertamente anticapitalistas.

Há, em Mission, um fenômeno perverso, que tem acontecido, com certa frequência, em várias outras partes do Mundo. A concentração de artistas, o ambiente multicultural, as festas de rua, a alegria e hospitalidade dos residentes latino-americanos e descendentes; tudo isso chama a atenção de empresários e profissionais de firmas “ponto com,” que para lá têm se mudado, desde os anos 1990. Isso fez com que o número de latino-americanos e descendentes, em 2011, fosse 20% menor do que há vinte anos atrás, segundo algumas notícias de jornal, devido ao aumento do preço dos imóveis.

Ou seja, a migração de indivíduos afluentes tem expulsado do bairro os elementos que, em um primeiro momento, motivaram essa migração: artistas, latino-americanos e descendentes, comércio varejista independente etc. Não é algo novo nem original; Friedrich Engels, em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, já aponta a substituição de residentes pobres e miseráveis por membros da burguesia, mesmo que dentro de contextos muito diferentes.

Contudo, em Mission, a gentrificação assume uma forma particularmente perversa; em um bairro com esse nome, os latino-americanos estão sendo expulsos por indivíduos afluentes – alguns bilionários, inclusive – em busca de seu ambiente multicultural, alegre e independente. Talvez devêssemos prestar mais atenção em alguns painéis e murais do bairro.

Por fim, fazendo jus ao título do texto, não se pode deixar de comentar sobre as pessoas encontradas. E não se trata de arquétipos. Em The LGBT History Museum, conversamos longamente com a funcionária presente, que nos falou sobre a atual cena LGBT de San Francisco, bem como sobre as parcerias com organizações e equipamentos culturais similares de mais de uma dezena de países. No Castro, foi um alívio falar português e portunhol com residentes locais e comerciantes, e entender as recentes transformações do bairro.

Infelizmente, as alteridades e luta por direitos, no Castro e Mission District, convivem com a presença constante de população em situação de rua, em parques e praças. Atestando David Harvey, em Condição pós-moderna, o respeito às alteridades, tão caro à pós-modernidade, convive com a crescente polarização social. A última notícia de jornal lida, ainda em San Francisco, relatava que o corte de repasses federais à cidade seria refletido no corte de assistência à supracitada população. Nada mais pós-moderno.

sobre os autores

André Fontan Köhler é professor Doutor do Curso de Bacharelado em Lazer e Turismo da EACH/USP. É bacharel em Administração e mestre em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP. É doutor em Arquitetura e Urbanismo pela FAU/USP, e participa do grupo de pesquisa Da soCIeDADE moderna à pós-moderna: permanências, rupturas, conflitos. Principais interesses de pesquisa: políticas urbanas e turismo cultural e urbano.

Maria Carolina Maziviero é professora Doutora do Curso de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da USJT. É bacharel (UEL), mestre e doutora (FAU/USP) em Arquitetura e Urbanismo; participa do grupo de pesquisa Da soCIeDADE moderna à pós-moderna: permanências, rupturas, conflitos. É líder do grupo de pesquisa Urbanismo na era digital (USJT). Principais interesses de pesquisa: urbanismo algorítmico e paramétrico, projetos urbanos contemporâneos, desenvolvimento urbano e políticas públicas.

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