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architectourism ISSN 1982-9930

Forte de São João, Bertioga SP. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
André Joanilho, historiador, na posição de professor visitante de universidade na cidade de Urbana, aproveitou uma folga de dez dias para andar de motocicleta pelo interior profundo dos Estados Unidos e aproveitou para registrar suas impressões em artigo.


how to quote

JOANILHO, André Luiz. Amerika on the road. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.02, Vitruvius, dez. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6799>.


Alguma coisa acontece no nosso coração quando cruzamos uma rua nos Estados Unidos: embora nunca tenha pisado em nenhum local, em nenhuma cidade de lá, é possível ter uma memória social e cultural daquele país. E normalmente vem à mente a expressão: “Nossa, parece cena de filme”. E é mesmo!

Não há lugarejo, cidade, campo, montanha, costa, parque etc. que não tenha aparecido em algum filme, tornando-nos familiar com uma paisagem na qual nunca estivemos. Identificamos logo qualquer lugar, mesmo um motel barato à beira da rodovia, porque já assistimos. Quantos road movies não tiveram como cenário este tipo de hospedagem?

Cemitério
Foto André Luiz Joanilho

Já vimos os Estados Unidos várias vezes, conhecemos as pessoas que lá moram, sabemos como comem, como compram, como vivem... Ou melhor, quase. Na realidade não conhecemos muito, mesmo com tantos filmes nos mostrando a Amerika – acho muito inadequado chamar os Estados Unidos só de América, por isso a grafia retirada da canção do Rammstein (1). A nossa memória dos EUA é selecionada pelos filtros das câmeras, dos diretores, roteiristas etc.

Montezuma Ville, Indiana
Foto André Luiz Joanilho

E não haveria um sonho a ser realizado por todos os amantes do filme Easy Rider, direção Dennis Hopper, 1969 (2), nessa Amerika tão filmada e mediatizada? Pegar a estrada e partir sem compromisso, sem lugar para chegar, sem relógio em cima de uma moto é o desejo de muitos. Um estágio como professor visitante e, com poucos compromissos, na universidade de acolhimento, deu a ocasião: dez dias de easy rider, depois, retorno às atividades profissionais.

Anúncio de Igreja em Rantoul, Illinois
Foto André Luiz Joanilho

 

Logo, seria possível aproveitar o fim do verão, tocar por estradas secundárias sobre uma moto alugada e buscar os cenários que povoam a imaginação de qualquer pessoa desde a tenra infância. O meio-oeste parece ideal. Circular pelo o que chamam “Bible Belt”, o Cinturão Bíblico, poderá mostrar a Amerika real, para além das imagens projetadas nas telas. É nesse cinturão que estão, a maior parte, os eleitores de Donald Trump. Então, vamos mergulhar nesse lugar inóspito!

Perto de Urbana, Illinois
Foto André Luiz Joanilho

 

O que era incômodo, de início, se tornou uma surpresa, não diria desagradável, nem agradável, somente inusitada. A universidade está bem no interior do estado de Illinois, na cidade de Urbana, cercada de milharais e plantações de soja. O pequeno centro com prédios típicos dos filmes de faroeste. Retangulares e de janelas retangulares feitos de tijolos e, às vezes, encimado com alguma decoração que pode variar do gótico ao art-nouveaux. Quantos duelos vimos nessas cidades poeirentas, tendo por testemunhas os típicos prédios de tijolos de dois andares? Após poucas ruas do “centro”, aparecem as indefectíveis casas cercadas de gramados e quase nenhum muro.

Danville, Illinois
Foto André Luiz Joanilho

 

Para além dos subúrbios, as plantações se sucedem e, em poucas milhas, aparecem várias pequenas cidades. No entanto, as “Main Street” dessas cidades são parecidas com as de Urbana. E aqui começa o inusitado, todas, todas, as cidades repetem o mesmo padrão arquitetônico e urbanístico. Além de Illinois as cenas de cinemas são as mesmas: Missouri, Kansas, Colorado, Wyoming...

Urbana, Illinois
Foto André Luiz Joanilho

 

O turista que passeia por Manhattan, ou Chicago, ou Los Angeles, ou o muambeiro classe média, em Miami, não percebem, mas fora desses grandes centros, a paisagem urbana é de grande monotonia. Se repete, dando a impressão, após rodar muitas milhas, de se chegar ao mesmo lugar, com as mesmas pessoas, com as mesmas casas, com os mesmos cruzamentos, com os mesmos supermercados de beira de estrada. Para usar um termo desusado: mesmice; uma incrível e sonolenta mesmice. E até isso está em filme. Quem assistiu ao filme “Nebraska”, direção de Alexander Payne, 2013 (3), sabe o que estou relatando. Pode-se pensar que há exagero nesse filme. Não, não há. Invariavelmente, é o que podemos encontrar pelo interior do país.

Devem existir estudos muitos bons sobre a mesmice na Amerika, porém, não é o meu campo de trabalho, somente registrei o que os meus olhos, habituados na forma de ver pelo meu ofício, puderam enxergar e também, desde garoto, informado pelo cinema e televisão. No cruzamento disso resultou esse estranhamento da Amerika que deixou de ser paradigma, ou como a minha companheira, também professora visitante da Universidade de Illinois, disse: “a nossa experiência foi de desconstrução do mito amerikano”.

Set de filmagem no Bronx
Foto André Luiz Joanilho

 

É um país incrivelmente “McDonalds”, pode-se ir a qualquer parte que sempre será a mesma coisa (com exceção das periferias das grandes cidades, mas, de fato, nem é exceção, é a regra). A repetição arquitetônica e a repetição urbanística dão um gosto “McDonalds” às cidades e às estradas. Não há quase variação nos edifícios, não há quase variação nas casas com seus gramados, constantemente aparados com pequenos tratores de cortar grama, pilotados com destreza e, creio, uma espécie de prazer infantil (dá para perceber no rosto dos indivíduos esse prazer quando montam nesses troços), nos sábados à tarde: hora nacional de cortar de grama e, depois, usar um “gadget” que sopra as folhas. Há também as adoradas motosserras para cortar galhos secos e modelar arbustos.

Arcola, Illinois
Foto André Luiz Joanilho

Tentei encontrar alguma explicação para a incrível repetição do estilo arquitetônico e solicitei aos colegas historiadores amerikanos, porém ela veio com resposta também amerikana: “O material que as estradas de ferro levavam aos pioneiros, a partir de meados do século 19, era padrão, então os edifícios e as casas também eram padronizados”. Isso não é suficiente para um historiador brasileiro, aliás, isso não é uma explicação, ponto. A questão é: “como conseguiram padronizar um modo de habitar e, consequentemente, um modo de vida?” Uma hipótese vem à mente: “esses padrões foram implantados”. Só não sei se foi pelo governo –  logo, deve haver leis – ou se foi pela vontade da classe dominante branca de impor um modo “amerikano” de morar, de viver. Ou ainda, uma mistura dos dois (agradeço explicações que avancem para além do tamanho padrão das madeiras para construção).

Danville, Illinois
Foto André Luiz Joanilho

 

Os imigrantes, em grande número, não puderam, não conseguiram, reproduzir os seus modos de vida dos países de origem na Amerika, como ocorreu aqui, na Argentina, Uruguai etc. Sabe-se que a imigração foi numerosa e mista, mas há poucos traços na arquitetura e nenhum na urbanização. As casas das cidades do meio-oeste são incrivelmente homogêneas. Em Urbana, por exemplo, não é quase possível diferenciar as casas do centro histórico, com mais de um século, e as casas dos bairros novos, pois seguem um padrão profundamente estabelecido.

Posso creditar tal feito à vontade expressa da elite branca, protestante e anglo-saxônica, conhecida pelo acrônimo WASP. O desejo de estender o mito da Terra Prometida para todo o país criou uma cultura homogênea no modo de ser, de viver, de consumir, de rezar, de morrer, pois nem os cemitérios escapam da mesmice e os mais novos nem são cemitérios. Não dá para fazer filmes de Drácula, como no expressionismo alemão, não há tumbas! Por isso, os zumbis brotam da terra, pois os cemitérios são parques e podem estar localizados dentro de perímetros urbanos, afinal, o “pilgrin” está no solo da Terra Prometida.

Concordia, Kansas
Foto André Luiz Joanilho

 

Uma viagem de 6000 km, com exceção da paisagem natural, mesmo assim somente perto das Montanhas Rochosas, se tornou um passeio pelo mesmo, um passeio pelo mito criado no século 17, com as primeiras imigrações de protestantes perseguidos na Inglaterra anglicana. Mito que é mantido com a mão forte da vigilância de todos sobre todos e com ajuda da uma polícia sempre eficaz, mas que parece, muito mais, uma polícia do comportamento do que defensora dos cidadãos ou uma polícia de classe: é uma polícia do mito.

Gillete, Wyoming
Foto André Luiz Joanilho

Então, cada um deve se comportar de maneira ideal, obedecendo às leis e agindo como todos. Qualquer conduta inadequada poderá ser sancionada pelo cidadão próximo ou por vias policiais. Aparentemente, os amerikanos são exemplares, dispostos, solícitos (no comércio), sempre corretos, mas, um olhar atento deixa uma sensação profunda de que este é um dos povos que mais reprimem suas pulsões. Na Amerika reina um grande tesão reprimido.

Assim, para terminar com referência cinematográfica, vem à mente uma das cenas finais do filme “Good Morning, Vietnam” (Bom dia, Vietnã), direção de Barry Levinson, 1987 (4), quando o personagem principal diz para o sargento que o perseguia: “You are in more dire need of a blowjob than any White man in history” (você é o branco mais necessitado de uma felação do que qualquer outro na história – tradução livre).

Deadwood, South Nebraska
Foto André Luiz Joanilho

 

notas

NA1 – Agradecimento: gostaria de registrar para a posteridade, antes que não a faça, que não a diga, que não a expresse, não a assuma minha “dívida” pelo gosto de “ler” a arquitetura, adquirida, com prazer, no convívio, durante a graduação, com meus amigos Abílio Guerra, Renato Anelli e Álvaro Cunha, todos arquitetos e historiadores (que bela formação).

NA2 – Os editores do portal Vitruvius não são nada responsáveis pelas leituras amalucadas que fiz e peço desculpas por não descrever muito bem esses prédios horríveis (acho que é porque os acho horríveis).

1
Rammstein, Amerika. Vídeo oficial <https://www.youtube.com/watch?v=Rr8ljRgcJNM>.

2
Easy Rider (“Sem destino”), direção Dennis Hopper, Estados Unidos, 1969, 1h 30min. Com Dennis Hopper, Jack Nicholson e Peter Fonda.

3
Nebraska (“Nebraska”), direção Alexander Payne, Estados Unidos, 2014, 1h 55min. Com Bruce Dern, Will Forte e June Squibb.

4
Good Morning, Vietnam (“Bom dia, Vietnã”), direção Barry Levinson, Estados Unidos, 1987, 2h 01min. Com Robin Williams, Forest Whitaker e Bruno Kirby.

sobre o autor

André Luiz Joanilho, doutor em História, é professor assistente licenciado do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Paraná.

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129.02 na estrada
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129

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