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architectourism ISSN 1982-9930

Vista panorâmica de Nova York a partir do The Metropolitan Museum of Art - MET. Foto Michel Gorski

abstracts

português
O artigo relata uma viagem pelas cidades históricas de Marechal Deodoro e Penedo (AL), e São Cristóvão (SE), em busca de se identificar o que essas cidades ainda apresentam de referências do desenho colonial e do caráter barroco em suas diversas escalas.

english
The article reports a trip through the historical cities of Marechal Deodoro and Penedo (AL), and São Cristóvão (SE), in search of identifying what these cities still present of references of the colonial design and baroque character in its various scales

español
El artículo relata un viaje por las ciudades históricas de Marechal Deodoro y Penedo (AL), y São Cristóvão (SE), en busca de identificarse qué estas ciudades todavía presentan de referencias del diseño colonial y del carácter barroco en diversas escalas.


how to quote

NASCIMENTO, José Clewton do; CAVALCANTE, Eunádia Silva. Andanças e desenhos. Percursos por cidades históricas do Nordeste. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 135.01, Vitruvius, jun. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.135/6999>.


O que nos faz pegar a estrada e cruzar cidades e estados? Arquitetura, sítios históricos e desenhos formam o mote para um dos percursos pelas cidades históricas de Marechal Deodoro e Penedo (AL), e São Cristóvão (SE). Em comum, elas são representativas de núcleos urbanos coloniais através de suas marcas e acumulados de um período histórico importante para a compreensão da formação da sociedade brasileira. Como professores arquitetos, costumamos dizer que em nossas viagens – mesmo nas férias – estamos sempre a preparar aulas. Não deixamos escapar nada ao nosso olhar. Nessa viagem fomos motivados a ver o que as cidades ainda apresentam, em suas materialidades, de referências do núcleo urbano colonial e do caráter barroco em suas diversas escalas: da visão panorâmica (a cidade de fora) à visão aproximada (a relação do edifício com o entorno, a arquitetura e detalhes).

Dentre outras determinações, combinamos de entrar nas igrejas. Observar sua implantação no sítio, detalhes da cantaria, o frontão; a existência ou não das torres, elementos decorativos, estatuária, esquadrias, cores e materiais; os vestígios de ampliações não executadas, as janelas do tempo deixadas por intervenções de restauro; registrar o desenho do piso; sentar em um banco e olhar para o alto imaginando a execução do teto; reconstituir a história do edifício conversando com alguém; sentir o lugar. Se muitos aspectos podem ser previstos antes de iniciarmos a viagem, é importante que o imprevisto possa ser incorporado. De forma que o roteiro inicial nunca é restritivo, pode sempre ser ajustado conforme o que a cidade possa oferecer. Se a motivação principal foi o reconhecimento das cidades com relação à representatividade no quadro das cidades coloniais brasileiras, a maneira de vivenciá-las seguiu uma prática de deixar o carro e explorar o sítio a pé, o que nos possibilita uma relação espaço-temporal que se pretende distinta do que estamos acostumados a vivenciar no cotidiano. Procuramos escapar da lógica do tempo acelerado, que tende a tornar invisível o espaço que nos rodeia. Nessas viagens, procuramos dar visibilidade ao que as cidades têm a dizer, regidos pela lógica do tempo lento. Enquanto viajantes/observadores, nos afastamos da ideia do tudo devorar. O que nos norteia é o desejo do observar, a partir de um olhar mais atento. É estar no lugar no sentido de torná-lo visível não somente ao olho. É ir além: sentir o lugar, através de todos os sentidos. Como viajantes/desenhadores, utilizamos o desenho como forma de expressão do diálogo estabelecido com as cidades. Através do desenho construímos imagens mentais que armazenamos em nossos cadernos de viagens, tornando-os nossos suportes de memória. A prática da observação e do registro através dos desenhos possibilita também uma imersão nessa atmosfera espaço-temporal, por nós considerada necessária para uma observação mais apurada dos locais visitados. Isto posto, passaremos a apresentar a experiência da viagem.

Marechal Deodoro é uma cidade cujo centro histórico beira às margens da Lagoa Manguaba. Estacionamos o carro em uma rua próxima à casa de Câmara e Cadeia, e não no largo diante da Igreja Matriz de N. Sra. da Conceição, isso pode atrapalhar a cena a ser desenhada, nossas fotos e as fotos dos outros. Não bastasse a poluição visual causada pela fiação elétrica, típica da maioria das cidades, temos que lidar com a invasão dos espaços urbanos pelos carros em detrimento da circulação de pessoas. A casa de Câmara e Cadeia abriga uma biblioteca, o Iphan e espaços de exposição. Na outra extremidade do largo está a igreja matriz, ladeada pelo casario predominantemente térreo. É preciso caminhar, explorar o entorno, encontrar pontos de vista, possibilidades de enquadramento e, se possível, uma sombra! Pois é verão e desenhar demanda um tempo, para escolher o caderno, as canetas, a técnica e, principalmente, para observar. E pronto, eis o primeiro desenho.

Largo da Igreja de N. Sra. da Conceição, Marechal Deodoro/AL
Desenho José Clewton do Nascimento

Seguimos explorando a cidade, em busca do Convento Franciscano, um de nossos objetivos. Temos uma ideia da direção, mas não nos prendemos as consultas ao mapa, vamos seguir as torres das igrejas! Mesmo que a Igreja de N. Sra. do Rosário não as tenha, porém, ela se encontra no alinhamento da rua diante da matriz, de onde a avistamos. O que já é o motivo para outro desenho, observar a relação entre esses edifícios. De perto, observamos indícios de amarrações na cantaria que dão a entender que a torre foi prevista, mas não executada. E não é só a torre que falta na igreja, da escada que leva ao coro restou um sulco na parede. O coro não existe mais, a nave está vazia. Cadeiras empilhadas e um singelo altar, indicam que ainda ocorrem atividades litúrgicas.

Casario e Igreja de N. Sra. do Rosário, Marechal Deodoro/AL
Desenho José Clewton do Nascimento

Vamos adiante observando como as edificações se adaptam à topografia irregular. Descendo a ladeira na direção da lagoa o som das filarmônicas compõe o fundo musical do passeio, são uma tradição da cidade. A rua é cheia de escadas de acesso às casas, algumas ocupam até a calçada. Aproveitamos para registrar a variedade das esquadrias, bandeiras, venezianas, caixilhos e ornamentos.

Variedade de esquadrias do casario de Marechal Deodoro/AL
Desenho Eunádia Cavalcante

E eis que na curva da rua uma torre anuncia a presença de uma igreja, um largo se abre, é uma intervenção moderna que define áreas pedonais e ambientes com bancos; a vegetação é escassa. No entorno edificações comerciais e ao fundo avistamos o Convento Franciscano e a Igreja de Sta. Maria Madalena, ambos fechados, não importa, vamos procurar uma sombra e fazer um desenho. Com um almoço na beira da lagoa nos despedimos da cidade.

Casario e Conjunto Franciscano, Marechal Deodoro/AL
Desenho José Clewton do Nascimento

Casario e Igreja da Ordem Terceira, Marechal Deodoro/AL
Foto Eunádia Cavalcante

A próxima parada faz parte da rota que o Imperador D. Pedro II fez em 1859. O primeiro contato com a cidade de Penedo nos deu uma boa noção da escala, da vastidão do Rio São Francisco e o seu caráter integrador, pois o rio apresenta-se como elemento que articula os estados de Alagoas e Sergipe através da balsa. Tivemos a sorte de nos hospedar em uma pousada localizada defronte ao rio, um sobrado de 1734. Ao lado, a Igreja de N. Sra. da Corrente, sua fachada, como elemento de articulação com o largo, aponta para uma ideia de monumentalidade, porém, a nave tem pouca profundidade, pois trata-se de um templo originalmente particular. No entanto, chama a atenção a riqueza da ornamentação, dos entalhes em madeira, do piso em ladrilho inglês, dos azulejos portugueses e belíssima pintura de teto. A funcionária nos mostra a passagem secreta e fala que os proprietários eram abolicionistas e que escondiam escravos fugitivos ali até que fossem providenciadas cartas de alforria. Na fresta estreita camuflada em um nicho lateral cabem 4 adultos em pé.

Lateral da Igreja de N. Sra. da Corrente e o Velho Chico ao fundo, Penedo/AL
Desenho José Clewton do Nascimento

Pormenor do piso da Igreja de N. Sra. da Corrente, Penedo/AL
Desenho Eunádia Cavalcante

Seguimos o passeio, adentrando a cidade, mas nos mantendo às margens do rio, em busca das ruínas do Forte Maurício, das primeiras edificações que formaram a vila e do almoço, não dá para caminhar e desenhar com a barriga vazia, a tarde se inicia. De volta ao passeio seguimos as torres. A primeira articulação percorrida foi entre a Igreja da Corrente e a Igreja Matriz. Ao seguir o percurso da via que liga os dois templos, pudemos observar como a Matriz vai aparecendo aos poucos, até despontar em sua plenitude quando adentramos o espaço da praça, definido também pelos prédios da prefeitura e da Casa da Aposentadoria.

Percurso de acesso à Igreja Matriz, Penedo/AL
Desenho José Clewton do Nascimento

Conjunto Franciscano e Igreja Matriz de N. Sra. do Rosário, Penedo/AL
Desenho José Clewton do Nascimento

Ao chegarmos ao largo, nos deslocamos à direita e já identificamos o conjunto franciscano, primeiramente pelo cruzeiro que anuncia o conjunto, localizado em uma praça contígua a este. Da praça pudemos observar e desenhar a forte relação estabelecida entre os dois templos, articulados pela praça. Seguindo em direção à via localizada na parte posterior da Matriz, pudemos vislumbrar outra articulação entre templos, desta feita entre a Matriz e a Igreja do Rosário.

Imediações do Conjunto Franciscano, Penedo/AL. Vistas da fachada frontal da Igreja (acima) e relação da praça com a Igreja matriz (abaixo)
Desenho José Clewton do Nascimento

Proximidades da Igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos, Penedo/AL
Desenho José Clewton do Nascimento

Além da possibilidade de identificarmos na cidade a ideia de sistema articulado, característico do desenho barroco dos núcleos urbanos coloniais brasileiros, em Penedo pudemos observar outras referências arquitetônicas. A cidade apresenta edifícios em estilo Eclético, Art Déco e Modernista. O casario que mescla edificações térreas e sobrados, dão conta dos vários períodos históricos que vão do típico lote colonial, estreito e lindeiro, às casas do século XIX que incorporam os recuos, porém, não se configuram como jardins. A vegetação está presente na cidade, notadamente nas praças e canteiros de rua.

Sentamos na praça diante do Conjunto Franciscano observando suas características, a torre recuada, as volutas do frontão. E começa a surgir um desenho. Uma estrutura à direita da igreja chama atenção e ficamos especulando sobre a sua função, seria um tipo de chaminé? Que bom seria poder entrar e percorrer todo o conjunto. O desenho inacabado, mas igreja está aberta, podemos, pelo menos, visitar o templo. Na nave, estudantes ouvem as explicações do guia, enquanto nós procuramos absorver as informações contidas naquele edifício. Como a interação com pessoas do lugar faz parte da rotina de nossas andanças, nos aproximamos de um funcionário para puxar uma prosa e descobrir o que é a tal estrutura que vimos de fora. O fato de sermos arquitetos é um ponto favorável, pois trata-se do responsável pela obra de instalação de uma pousada em parte do claustro do convento, e nosso interesse pelo edifício é como um sinal de respeito ao trabalho dele. – Vocês se importam com a poeira de obra? Estamos lixando o piso. Se não, levo vocês até lá. – É claro que não, obra é assim mesmo! E lá vamos nós adentrar o claustro, percorrer o conjunto, e ver a intervenção, a relação dos ambientes com a cidade e com o rio através das janelas, a função original de cada cômodo, o quarto do castigo, o refeitório. Muitas fotos são feitas para ilustrar nossas aulas. E sim, a estrutura teve a função original de exaustor na cozinha. Nos demoramos nesse passeio não previsto, tão rico de informações. Percebemos a importância de ouvir e dar atenção ao que o outro tem a nos dizer, nos despedimos com a expectativa de um dia nos hospedarmos lá. De volta a praça, é preciso concluir o desenho, a tarde está quase no fim.

Desenhando o Conjunto Franciscano, Penedo/AL
Foto Eunádia Cavalcante

No dia seguinte partimos para São Cristóvão, cidade que guarda proximidade com a Bacia do rio Vaza-barris. O roteiro foi orientado pelos percursos que articulam as igrejas. Iniciamos a caminhada pela praça onde está o conjunto franciscano, de onde seguimos em direção à praça da Igreja Matriz, conjunto do Carmo e Igreja do Rosário.

Percurso pelos templos religiosos: Igrejas Matriz, do Passo, do Rosário, e do Carmo. São Cristóvão/SE
Desenho José Clewton do Nascimento

Vista externa da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. São Cristóvão/SE
Desenho José Clewton do Nascimento

A cidade está implantada em uma área plana, se comparada a Penedo. O traçado aproxima-se mais do tabuleiro de xadrez, e no percurso realizado alguns elementos da arquitetura nos chamaram a atenção, como os balcões das portas e janelas dos sobrados, e os diversos desenhos dos cachorros. É de se salientar os belos desenhos dos mosaicos dos pisos das igrejas.

Pormenor do balcão do sobrado onde funciona a Secretaria Municipal de Cultura, São Cristóvão/SE
Foto Eunádia Cavalcante

Pormenor da Igreja Matriz de N. Sra. da Vitória, São Cristóvão/SE, considerada a mais antiga igreja do estado
Desenho Eunádia Cavalcante

O que mais nos marcou nessa estadia na cidade foi podermos ficar por um bom tempo na praça de São Francisco e estabelecermos uma relação espaço-temporal de duas naturezas, que se fundiram. Uma diz respeito à condição histórica do espaço: o desenho da praça apresenta uma relação clara com a morfologia das plazas royales normatizadas por intermédio das Leyes das Índias. Este é um dos aspectos que motivaram o seu reconhecimento como espaço representativo da história brasileira, por se tratar de um aspecto relacionado ao período de vigência da União Ibérica. O segundo diz respeito à possibilidade que tivemos de experienciar esse espaço, sob a sombra de uma árvore, “vendo o tempo passar” e aproveitando para fazer coisas que nos dão prazer: desenhar, ler um livro, observar o espaço sendo apropriado de diferentes formas. Passeamos, portanto, pela história desse lugar, regidos pela lógica do tempo lento.

Proximidades da Igeja de N. Sra. do Rosário, São Cristóvão/SE
Desenho José Clewton do Nascimento

Proximidades da Igreja de N. Sra. do Rosário, São Cristóvão/SE
Foto divulgação [Acervo de Eunádia Cavalcante]

Concluímos o relato com uma boa impressão destes espaços, não somente pela dimensão histórica que eles contêm, mas também por apresentarem aspectos de vitalidade. Afinal, coisa boa é um centro histórico ativo! E ainda mais quando observamos que o motivo dessa vivacidade, provém do uso dado pelos moradores e do comércio local. O turismo se faz presente, mas não se sobrepõe à dinâmica do lugar.

Damos vivas ao tempo lento!

sobre os autores

José Clewton do Nascimento é arquiteto e urbanista, Doutor, professor do Departamento de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Desenhador e andarilho. Membro da Coordenação do Grupo Urban Sketchers Natal. Praticante da “experimentação” do espaço, na busca de captar um universo mais amplo de apreensões dos lugares visitados e desenhados.

Eunádia Silva Cavalcante é arquiteta e urbanista, doutora, professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo e do Mestrado Profissional em Arquitetura, Projeto e Meio Ambiente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Pesquisadora, extensionista, membro do Urban Sketchers Natal, andarilha e curiosa sobre as cidades, seus edifícios, pormenores e suas gentes.

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