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architexts ISSN 1809-6298


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Texto comenta duas intervenções do arquiteto Paulo Mendes da Rocha em edifícios preexistentes: a Pinacoteca do Estado e a seda da Federação das Indústrias de São Paulo - Fiesp.


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ESPALLARGAS GIMENEZ, Luis. Autenticidade e rudimento. Paulo Mendes da Rocha e as intervenções em edifícios existentes. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 001.04, Vitruvius, jun. 2000 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.001/1006>.

Introdução

Em arte e mais ainda em arquitetura o novo e o original confundem-se por vezes como sinônimos: algumas coisas são inovadoras por que desconhecidas, outras por despertar novamente o primordial. Uma sutil e adjetiva distinção que demarca profundas oposições entre as intenções dos arquitetos que tem proposto arquitetura moderna. Oposição entre o estranhamento do novo e a intimidade com o novo.

Reconstituir a originalidade imaginando a cabana de Adão ocupou muitos arquitetos em busca da moradia ideal e do paraíso perdido. Recordar num desenho: a pureza, precisão e engenho, pressupostos no abrigo original, quando arquitetura e construção eram uma e a mesma coisa, propiciaria o encontro com a essência e a perfeição de um feito arquitetônico.

A origem por ser memorável deve ser, em qualquer caso, familiar. Tal reconhecimento seja ele histórico, genético ou essencial vai imediatamente suprir a desejável exigência de autenticidade, subentendida como identidade, que pode aproximar seus objetos e ações da verdade, da nacionalidade e da universalidade.

Quando se persegue a origem da arquitetura, é natural atribuir um papel básico à técnica, por que quando a arquitetura retornar a seu primeiro e ancestral problema, perguntará por seus aspectos elementares e construtivos. Enfrentará seu recorrente, constitutivo e irrevogável problema.

Na busca dos aspectos originais existem vários caminhos: é possível romancear historiograficamente as técnicas anteriores para idealizar uma função moderna como quis o romântico Eugène Viollet-le-Duc com o estilo gótico; é factível legitimar e ativar a técnica primitiva e conduzi-la pelo fio da forma e do espaço modernos como mostrou o eclético Le Corbusier no polêmico projeto da casa Errazuris na costa chilena. E, finalmente é e sempre será formidável interpretar qualquer técnica construtiva revelando nela a fugaz ancestralidade imanente a um procedimento que, a exemplo dos períodos remotos, não distinga entre arte e ciência ou entre arquitetura e construção. Uma técnica onde se capture e registre a perspicácia que reproduz o poder e o princípio da primeira idéia, que imite o instinto certeiro e a razão mais pura de primitivos inventores habituados aos fundamentos da criação. Uma técnica efetiva, sempre conhecida e compartilhada que pode adquirir poderosos significados culturais e que ao dar conta da constituição do objeto arquitetônico o habilita a prescindir das arbitrariedades da forma e dos ornamentos supérfluos que povoam as arquiteturas mais vulgares. Por este caminho vai se recuperar a origem, menos como historicismo ou imaginação formal e mais como a atitude que vai suprir a ausência da original noção grega de tecné.

Mas uma tal idéia de técnica, para não ser acusada de anacrônica, tem que encontrar sentido em técnicas contemporâneas, que selecionadas estabeleçam compromissos e preferências com alguns aspectos técnicos: procedimentos ou aparências que tenham características simples e primitivas e até brutas e rústicas. Onde consequentemente não participe a Tecnologia ou o estágio técnico moderno em que os procedimentos estão fundamentados e controlados pela ciência aplicada e por seus métodos de controle e dedução. Tecnologia científica que substitui o artefato pelo produto bem acabado; que troca o elemento e sua integridade pelo componente e sua submissão, que privilegia a montagem em detrimento da construção insinuando mais valor para um virtuoso detalhe de junção ou arremate do que para a estrutura definidora de arquitetura. Técnica avançada que faz referência à produção e à indústria e que descarta, de maneira irreversível, a empírica e instintiva técnica do artifício e do rudimento.

Paulo Mendes da Rocha

Falar do trabalho de Paulo Mendes da Rocha, obrigaria a voltar um pouco à história recente da arquitetura paulistana, para desde lá traçar algumas características que em sua obra resistem com firmeza a autenticidade sempre.

Paulo Mendes da Rocha fala sempre da técnica porém em quase toda sua obra o aspecto técnico homenageado e mais evidente é a estrutura. Construir corretamente tem clara importância para a arquitetura porém a estrutura será, neste caso, a única entre todos os momentos técnicos, que pode ter a estatura de partido arquitetônico indiferente aos tratados e manuais, tal constatação é tão verdadeira para esta escola que interfere em todas escolas de arquitetura brasileiras fazendo que se ensine preferencialmente o Cálculo de estruturas de concreto em lugar de Construção no seu sentido amplo.

É como se a arquitetura ficasse esgotada na própria construção de sua estrutura e é provável que a arquitetura brasileira apenas reconheça valor na técnica quando a ela se faz referência por intermédio da estrutura. Construir, no sentido que os arquitetos querem desde a arquitetura limitou-se, durante anos, a construir uma estrutura. E quanto mais isto ficasse patente sem distrações ou superposições de elementos de mediação ou etapas secundárias, tanto melhor.

Após sistemática desfiguração cultural e após a contínua decadência representada por "simulacros de cidades" de inspiração estrangeira e projetos copiados de "antologias de arquiteturas" fazia sentido, para muitos arquitetos de uma geração, pensar em recuperar a arquitetura exigindo sua referência às mais autênticas raízes nacionais. Conectando tal reação original com a técnica ancestral, com o passado genuinamente cultural que pudesse ter sobrevivido à colonização e com demais aspectos míticos como podem ser: a utilização de formas arquetípicas e a insistência nos predicados mais essenciais da arquitetura: abrigar, cobrir, ajustar-se à natureza, dominar a mesma natureza, etc.

A técnica para Paulo Mendes da Rocha não corresponde a uma ponta técnico-científica avançada, nem esta ligada aos produtos mais industrializados ou aos acabamentos mais perfeitos. Existe um dedutível escrúpulo que evita o virtuosismo tecnológico comum, por exemplo, na arquitetura dita high-tech. Não há refinamento ou acabamento, mas a estrita e rude explicitação de uma técnica voluntariamente cabocla. Como fica evidente numa arquitetura repleta de detalhes simples e caseiros: como a "aranha" de bitolas redondas que ancoram a protensão das vigas ou como o engenhoso guarda-corpo de cantoneira ou ferro de armação dobrados manualmente e ponteados no canteiro ou ainda como as janelas artesanais que pivotam excentricamente repousando distintamente em função do deslizamento em canaletas das cargas que são seus vidros duplos. Tudo leva a pensar na afirmação de uma técnica baseada na capacidade humana de enfrentar e resolver um arte factu e com isso evitar a presença de sistemas industrializados e soluções de catálogo.

Pinacoteca

Pinacoteca do Estado, São Paulo, arquitetos Paulo Mendes da Rocha, Eduardo Colonelli e Weliton Ricoy Torres
Foto Nelson Kon


Nos dois exemplos comentados aqui existem coincidências notáveis. Em ambos casos esta intervindo-se em edifícios exemplares com características próprias muito fortes e problemas de acesso e utilização a ser corrigidos, nos dois casos os aspectos urbanos e públicos tem um destaque importante nas decisões do projeto arquitetônico, nas duas vezes Paulo Mendes da Rocha esta trabalhando em equipe com duas equipes de arquitetos mais jovens com quem tem total afinidade.

Pinacoteca do Estado, São Paulo, arquitetos Paulo Mendes da Rocha, Eduardo Colonelli e Weliton Ricoy Torres
Foto Nelson Kon


Curioso como um arquiteto que detesta a história da arquitetura nos seus aspectos mais gerais, pode ser um bom arquiteto? Duas possibilidades: A boa arquitetura não trem correspondência com os feitos históricos ou a distância que se quer manter da história não seria tão grande como se quer fazer crer.

Cobrir e atravessar, apoiar-se e grudar-se parasitar no sentido de quem nasce e cresce em outros corpos organizados.

Porque ali a construção constituiria um aspecto fundamental do desenho e da forma da arquitetura.

As pontes enquadram-se no esquema tripartite do edifício.

Simetria e similaridade contam no forte edifício e as pontes constróem o novo eixo central sugerido pela nova orientação do edifício e o belvedere obedece a excepcionalidade do lugar. A similaridade sugere rampas nos dois níveis.

Pinacoteca do Estado, São Paulo, arquitetos Paulo Mendes da Rocha, Eduardo Colonelli e Weliton Ricoy Torres
Foto Nelson Kon


As imagens de Gianbattista Piranesi de seus Carceri são análogas.

Na Pinacoteca descascam-se as paredes para eliminar revestimentos e ornamentos que escondiam poderosas alvenarias, fábrica de tijolos de textura e presença fabulosas onde, como costuma acontecer nas ruínas, o mito da construção alcança um resistente e persistente apelo e onde o estado inacabado e bruto dos materiais sugere uma experiência estética contundente. Tal assepsia, ao descarnar, reconhece que os agentes portantes constituem a ação primordial, simultaneamente essencial e material, de uma construção, que neste caso, não é propriamente uma estrutura de tipo reticulado: elementarizada em vigas e pilares ou de tipo ósseo e gótico, associada ao esqueleto animal. Mas uma estrutura ancestral de muros de carga com índole romana. Paredes e engrossamentos com colunas adoçadas ou pilastras pareadas, inventadas nas perspectivas de Donato Bramante para a casa de Rafael em Roma.

Ruínas são testemunhos de antecessores, elementos e documentos da base cultural que antecedem e que se herdam. Aspectos que se guardam, para neles poder reconhecer, entender e explicar.

Do outro lado uma visão estrita e moderna: a que teria emancipado um país anteriormente colonizado.

A inversão de entrada ao edifício surge como o princípio da intervenção. Quer "corrigir" um acesso sufocado e comprimido, muito próximo à barulhenta e movimentada avenida Tiradentes, deslocando-o para o aprazível jardim lateral voltado para a estação da Luz, em logradouro mais pacato e humano. Mas quer mais. Também quer reorganizar a "visão labiríntica" alterando os sentidos em todos seus sentidos e dando assim escusa para introduzir pontes-passarelas que tornam os percursos claros, retilíneos e talvez algo redundantes. Tal inversão legitima-se em crítica e em certo desprezo a um edifício acadêmico em estilo neoclássico, e na possibilidade de recuperá-lo, submetendo-o a operação moderna e purificadora, ou a uma "intervenção técnica".

Um julgamento isento poderia sugerir o contrário: não há transgressão, nada acontece na intervenção do edifício neoclássico que não estivesse prevista em seu rígido esquema planimétrico e distributivo. As pontes são absolutamente devedoras dos abstratos eixos de simetria. A colocação das pontes em dois níveis corresponde à noção clássica de similaridade, que leva por este raciocínio a repetir os mesmos elementos em situações similares, o que um raciocínio funcional não recomendaria por ser a circulação interrompida pelo octógono no nível superior.

É difícil imaginar que um edifício de matriz clássica possa ter circulações ou espaços labirínticos, já que seus esquemas funcionais e distributivos estão fundamentados na clareza e obviedade de sua organização em planta. Portanto a dificuldade de orientação e a falta de legibilidade deveriam ser atribuídas ao reconhecido estado degradado e deturpado que muitos anos de mal e irresponsável uso haviam imposto ao edifício do museu. Uma planta tripartida com octógono central e pátios retangulares laterais e abertos em simetria bi-axial. Nada pode ser mais imediato, consensual, conhecido e evidentemente: pouco inspirado, já que pertence a um tempo em que a invenção não era um valor. A inversão do acesso diminui , no uso, o caracter classicizante da planta, já que entrar pela lateral sugere mais uma série de ambientes justapostos e menos uma simetria.

Pinacoteca do Estado, São Paulo, arquitetos Paulo Mendes da Rocha, Eduardo Colonelli e Weliton Ricoy Torres
Foto Nelson Kon


Há um discurso moderno e ortodoxo de quem olha a história com valores contemporâneos e portanto a subestima, porém há, por outro lado uma atitude de projeto distinta que consegue reconhecer nos edifícios da história valores permanentes da arquitetura, distantes de qualquer nostalgia ou romantismo, incorporando-os e com eles reagindo. Aqui a ação adquire um significado renovado e avesso ao texto moderno.

Na verdade as pontes-passarelas estão mais para afirmar que ao cruzar o pátio, se esta, agora, dentro do edifício e menos para retificar qualquer insuficiência de circulações.

Os pátios abertos são transformados em salões interiores de pé-direito triplo, protegidos por diáfanas coberturas planas de vidro, que apesar de parciais, sugerem o "empacotamento" do edifício e insinuam sua catalogação. Com a retirada das esquadrias diminui o aspecto exterior de fachada das paredes e dramatiza-se o aspecto de ruína das aberturas e a continuidade do piso de granito do piso inferior somado à passarela nos dois níveis reforçam a ambivalência entre interior e exterior.

A laje do octógono no segundo pavimento amplia a importância deste nível.

Fiesp

Centro Cultural Fiesp, São Paulo, arquiteto Paulo Mendes da Rocha e escritório MMBB Arquitetos
Foto Nelson Kon


Não há exceções nesta arquitetura, muito menos episódios. A estrutura define as arestas brancas de um prisma retangular transparente grudado na barriga da estrutura mastodôntica / faraônica. E o anterior edifício centrado num terreno, começa a ganhar padrões de implantação. A extensão do prisma até a divisa direita do terreno amarra o térreo e consequentemente restitui um valor à elevação frontal que Golias nunca havia tido. O recuo do térreo com a demolição da laje permite balançar na frente a estrutura metálica, novamente diferenciando intervenção e intervido. O banal plano nobre que se destaca da calçada pública da avenida é substituído por níveis desencontrados que subvertem e conferem novo sentido para o lugar. Reafirma o sentido público com a dilatação das calçadas e do espaço, com a transparência que permite desnudar/perpassar/atravessar com a vista e com a exposição apresentada ao pedestre como vitrine da galeria. O valor da intervenção não se concentra no acrescido, mas compreende que há de se conferir novo valor ao existente.

A técnica apenas pode comparecer como idéia ou partido de arquitetura, na forma de estrutura, mas tampouco se trata de qualquer estrutura. Estamos falando de esqueletos.

É possível que na arquitetura moderna a relação dos arquitetos se estabelecesse no campo da técnica e que tal relação atualmente tenha sido transferida para uma relação entre arquitetura e tecnologia.

Centro Cultural Fiesp, São Paulo, arquiteto Paulo Mendes da Rocha e escritório MMBB Arquitetos
Foto Nelson Kon

É possível que Paulo Mendes da Rocha prefira valer-se mais da técnica e menos da tecnologia. De uma técnica que pode ser quase confundir-se, como em origem de fato confundia-se, com a arte ou com a ciência. De uma técnica que penetra em todas as atividades humanas, como um processo genérico (geral) ou operação qualquer que trata de atingir um efeito (feito) determinado. Para Paulo Mendes da Rocha existe um Brasil genuíno e longínquo das imposições e das modas estrangeiras que provavelmente será reencontrado (descoberto) com uma técnica que dê conta, não apenas da construção ou fabricação de objetos tangíveis, mas também das relações sociais e do homem. Não se trata de uma técnica da eficiência e menos ainda que vise reprodutividade ou consumo. Mas de outra que resulta da inteligência humana e que produz feitos simultaneamente simples e memoráveis.

Centro Cultural Fiesp, São Paulo, arquiteto Paulo Mendes da Rocha e escritório MMBB Arquitetos
Foto Nelson Kon


Pode ser que o próprio classicismo execrado tenha armado suas armadilhas. Frágil como invenção, é potente no seu sentido comum e convincente. Aos mesmos lugares e situações correspondem os mesmos elementos. Tal visão clássica do mundo que consideram a noção de perfeição e conseqüente unicidade, provavelmente estimulam um moderno projeto de intervenção a repetir as passarelas sobre os pátios nos dois níveis do edifício quando, na verdade, a travessia não se completa pela inexistência de passagem através do octógono.

Centro Cultural Fiesp, São Paulo, arquiteto Paulo Mendes da Rocha e escritório MMBB Arquitetos
Foto Nelson Kon


notas

[texto originalmente publicado pela revista AU e reproduzido com autorização do autor]

sobre o autor

Luis Espallargas Gimenez é arquiteto e professor da FAU PUC-Campinas e FAU Unip. Entre outros projetos, é autor da Base de Lançamentos de Alcântara no Maranhão.

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