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architexts ISSN 1809-6298


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VAN GAMEREN, Dick. A casa de Vidro de Lina Bo Bardi. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 004.01, Vitruvius, set. 2000 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.004/980>.

Em 1951, Lina Bo Bradi constrói uma residência para si e para seu marido, o marchand Pietro Maria Bardi. O casal tinha se mudado da Itália para o Brasil em 1947.

Fotografias, tiradas logo depois da construção da Casa de Vidro, mostram um disco voador brilhante, pousado em uma colina. "Pernas" muito finas sustentam o equilíbrio. Uma escada frágil de ferro é deixada como uma descida do tombadilho para a terra. Uma abertura no meio da nave poupa uma árvore que está recoberta de plantas e flores.

O pele de vidro revela o interior da casa para o exterior. Em um piso brilhante de mosaicos de vidro, algumas mesas antigas e cadeiras metálicas delicadas. Daqui, os moradores olham a floresta, as plantações e as bordas da cidade de São Paulo.

Cidade e natureza crescem no Brasil com uma alta velocidade. A mata cruzou a cidade e chegou à frente da casa. Cinqüenta anos depois da construção, o vazio não se encontra mais ao seu redor, mas dentro dela. O vão livre no interior da casa cria agora um dos poucos lugares onde o chão se ilumina. A vegetação filtra toda luz e evita a vista dos prédios e edifícios da cidade, que cresceram na vizinhança.

A Casa de Vidro, escondida na mata, virou uma "arca do tesouro", testemunho de uma cultura que parece ter sumido de São Paulo. Móveis de cinqüenta anos de idade agora fazem parte de uma rica coleção de obras de artes, objetos variados de preciosa arte antiga e exemplares de arte popular. São lembranças da vida dos moradores.

A vitalidade do interior faz com que a Casa de Vidro fique muito longe daquela outra glass house, a aparentemente irretocável Farnsworth House de Mies van der Rohe, também de 1951. Ambas as casas podem ser consideradas um protótipo da obra posterior dos dois arquitetos.

A sala ampla da Casa de Vidro anuncia os espaços vazios e imponentes que Lina iria projetar em prédios como o MASP e também estabelece a essência dos restauros. Ela deixou os ambientes históricos o mais limpo e vazio possível (SESC, Solar de Unhão). Somente elementos como escadas e lareiras estão expostos como objetos no meio do espaço. As colunas muito finas da Casa de Vidro se dissolveram literalmente no projeto para o MASP: uma construção maciça de concreto permite que as colunas do interior literalmente se dissipem. Também a prancha de vidro, projeto para a Casa de Vidro, parecem uma antecessora dos painéis únicos de vidro para os quadros do MASP.

O livro Modern Architecture in Brazil de Henrique E. Mindlin de 1956 é uma das primeiras obras panorâmicas sobre a arquitetura moderna do Brasil. A casa da Lina está incluída, junto com casas de Niemeyer, Levi, Reidy e outros. O autor fala do projeto cuidadoso e avançado da Casa de Vidro e associa isto à origem e à educação européia do arquiteto.

Afinal, esse é um aspecto formal não caraterístico dos projetos de Lina. A obra de muitos outros arquitetos brasileiros, que foram reunidos na publicação de Mindlin, iriam terminar num formalismo bonito, mas estéril. Foi Lina Bo Bardi quem conseguiu traduzir a vitalidade do seu novo país em uma obra tanto vital como pessoal. O tesouro da Casa de Vidro é uma belo reflexo disto.

notas

1
Publicado em MEURS, Paul; AGRICOLA, Esther (org). Brazilië. Laboratorium van architectuur en stedenbouw. NAi, Uitgevers, Roterdam, 1998, p. 356-360.

sobre o autor

Dick van Gameren é arquiteto e titular do Architecten Groep, em Amsterdã, Holanda.

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