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RAPOSO DE ANDRADE, Paulo. A arquitetura enquanto arte em Joaquim Cardozo. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 004.02, Vitruvius, set. 2000 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.004/981>.

No centenário de seu nascimento, são amplamente reconhecidos o Joaquim Cardozo Poeta e o Joaquim Cardozo Engenheiro e Matemático. Pouco conhecido é o Joaquim Cardozo Teórico de arquitetura.

Todavia, o envolvimento de Cardozo com a arquitetura não se limitou à sua atuação como engenheiro calculista de edifícios projetados por Oscar Niemeyer, Luís Nunes e outros arquitetos. Cardozo – que chegou a ser catedrático responsável pela cadeira "Teoria e filosofia da arquitetura" na antiga Escola de Belas Artes de Pernambuco – deixou escritos que, apesar de extremamente sumários, contém idéias significativas para a construção de uma Teoria da Arquitetura.

Um aspecto importante do pensamento arquitetônico de Cardozo é a sua concepção de Arquitetura enquanto Arte e manifestação do Espírito humano. No texto intitulado "Sobre o problema do ser arquitetônico" – escrito em 1965 – Cardozo trata do problema do "Ser arquitetônico"; isto é, do problema do esclarecimento da própria essência da arquitetura. Ali ele deixa clara sua concepção da Arquitetura enquanto manifestação artística, rejeitando a idéia – bastante difundida na época – de que a Arquitetura não seria uma Arte e sim uma atividade de natureza essencialmente técnica e científica. Afirmando sua crença em uma arquitetura "espiritual", capaz de concretizar o "espírito de uma época" e a "visão de mundo" de um povo, Cardozo diz:

"Na arquitetura estão inscritas as vontades mais puras e duradouras do coração dos homens. A história da cultura e da sociedade repousa em grande parte nas formas arquitetônicas; pois a vontade de um povo se manifesta na forma dos templos de seus deuses, dos palácios de seus reis. Quando uma civilização desaparece, no imenso decorrer dos tempos, somente nas pedras dos edifícios desmantelados é que se vão encontrar os marcos dessas culturas e, nas diferenciações dessas pedras, na maneira de erguê-las ou agrupá-las, é que estão as diferenças das raças, dos povos e das culturas. É por isto que podemos dizer que a primeira história, a primeira literatura, foram escritas na pedra, nos muros e nas colunas, nas arquitraves e nas abóbodas. Desde a antigüidade os muros das construções foram os primeiros órgãos de informação, resumos da vida social dos povos; o primeiro papel aonde se inscreveram as páginas da história; o papel onde ainda se inscrevem as mensagens para o futuro. E escrever estas mensagens, cabe ao arquiteto."

Se hoje a afirmação da natureza artística da Arquitetura parece óbvia, é preciso lembrar que esta questão ainda era polêmica na época em que o texto de Cardozo foi escrito. Na verdade, podemos relacionar a afirmação de Cardozo ao contexto de revisão crítica do paradigma Racionalista na arquitetura, que se intensificou a partir da década de 60. Naquele momento, a arquitetura ocidental atravessava um período crucial. A idéia de uma arquitetura exclusivamente "racional" – que tinha sido extremamente influente até então – estava se esgotando. Isto levava à "redescoberta" de que o processo de criação da forma arquitetônica não pode ser reduzido a aspectos lógicos, objetivos; nem tampouco pode ser explicado completamente só através de fatores funcionais, construtivos ou tecnológicos. Naquele momento os arquitetos redescobriram que Arquitetura não é Técnica nem Ciência, mas sim uma atividade de natureza essencialmente artística.

É correto falar em "redescoberta" já que, embora poucos lembrem, a natureza artística da Arquitetura era claramente reconhecida desde o início do Movimento Moderno. Já em 1935 Walter Gropius tinha escrito: "A racionalização que muitos pensam ser o princípio cardinal da Nova Arquitetura, é na verdade apenas seu agente purificador. A satisfação estética do espírito humano é tão importante quanto a satisfação material." De qualquer modo, a história demonstra que com o tempo as intenções originais dos pioneiros do Movimento Moderno foram deturpadas. O ideal de racionalidade – que no início era um "agente purificador" do modernismo arquitetônico – foi muitas vezes interpretado equivocadamente, resultando numa arquitetura fria, estéril e vazia de significado. A vitalidade que tinha caracterizado o início da arquitetura moderna foi sendo pouco a pouco obscurecida pelo formalismo do International Style; de modo que prismas de vidro e concreto multiplicavam-se e repetiam-se monotonamente nas cidades do mundo todo, em desconsideração às peculiaridades geográficas, climáticas, históricas e culturais dos lugares e dos povos.

Felizmente, no Brasil, as tendências racionalistas mais radicais nunca chegaram a predominar realmente, nem sequer a influenciar significativamente a melhor parte de nossa produção arquitetônica. Desde o início da arquitetura moderna no Brasil prevaleceu sempre o consenso quanto à natureza artística da arquitetura. Lúcio Costa, por exemplo, sempre abordou lucidamente esta questão definindo a obra arquitetônica como "construção com intenção estética". O próprio Oscar Niemeyer foi outro dos mais importantes defensores da concepção da Arquitetura enquanto Arte. Na década de 50 – quando o Racionalismo radical ainda era bastante influente no mundo inteiro – Niemeyer reconhecia que a busca da Beleza artística era mesmo uma força motriz de sua obra, e rebatia as críticas afirmando que na Arquitetura a Forma transcende a Função: "quando uma forma cria beleza ela tem uma função e das mais importantes na arquitetura", dizia ele no "Pequeno diálogo socrático". Rino Levi, outro pioneiro da arquitetura moderna brasileira, sintetizou a questão dizendo o seguinte: "Arquitetura é arte e ciência – se com tal expressão se quer significar que a arquitetura, como fenômeno artístico, está sujeita a uma classificação à parte, comete-se um grave erro. A arte é uma só. Ela se manifesta de várias maneiras, quer pela pintura, pela escultura, pela música ou pela literatura, como também pela arquitetura. Tais manifestações constituem fenômenos afins, sem diferenças substanciais na parte que realmente caracteriza a arte como manifestação do espírito."

A estes depoimentos, podemos juntar a voz de Joaquim Cardozo, que sempre afirmou de modo categórico a natureza artística da Arquitetura; entendida por ele como "Arte de criar lugares favoráveis à existência humana", e não apenas como ciência ou técnica de criar "espaços funcionais".

Hoje, superadas as tendências radicais do Racionalismo arquitetônico, todos reconhecem que não se pode chegar à boa arquitetura unicamente por uma via lógica ou racional, nem levando em conta somente fatores técnicos, funcionais ou econômicos. Mais necessidades espirituais profundas, e não apenas de necessidades de natureza prática ou utilitária. Está claro que a capacidade de concretizar significados culturalmente relevantes é a função essencial da Arquitetura e a capacidade de concretizar o "espírito de uma época" é intrínseca ao ofício do arquiteto.

Afinal, como disse Joaquim Cardoso, "os muros das construções são o papel onde se inscreveram as páginas da história, onde ainda se inscrevem as mensagens para o futuro. E escrever estas mensagens, cabe ao arquiteto".

sobre o autor

Paulo Raposo de Andrade é arquiteto e professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco.

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